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Por que a casa na periferia não é um lar?

Adabergio Zacarias da Silva, arquiteto e urbanista, é morador da favela de Paraisópolis. Trabalhou durante a graduação no escritório de assistência técnica Inova Urbis, e hoje se dedica a criação de conteúdos sobre arquitetura e urbanismo para a classe c, tanto no YouTube como no Instagram
https://www.instagram.com/adabergio/?hl=pt-br
Publicado em 23.09.2019, às 5:05 pm

O lar pode ter vários significados que dependem das experiências vividas de seus moradores, no estilo de vida no qual eles se encontram, e daquilo que se espera de um lar perfeito. O arquiteto e apresentador Maurício Arruda, tem como missão no reality Decora, transmitido pela emissora GNT, decorar as casas, deixando-as a cara dos participantes.

A partir dos conhecimentos adquiridos fazendo vários projetos para pessoas diferentes, ele lançou, neste ano, um livro que leva o mesmo nome do programa. Nele é abordado três tipos de casa. A primeira é a aberta, no qual a fluidez, o uso coletivo, colaborativo e a recepção são as situações mais importante. Já a segunda é a casa ninho, que pode ser vista como um refúgio, um lugar de calma onde a conexão consigo mesmo e com a família é o que importa. Por último a casa memória é aquela que traz bons sentimentos, em cada objeto, em cada detalhe, o importante aqui é a carga emocional trazida ao entrar.

Porém, muitas pessoas ainda enxergam a casa como nada além de quatro paredes para se proteger de hostilidades externas, e um teto que evita que as intempéries entrem. Essa visão da casa apenas como abrigo, infelizmente, ainda é muito presente na população periférica, porém o desejo de ter uma moradia acolhedora nunca é apagado.

As casas feitas nas periferias são pautadas pelas necessidades e problemas que os moradores estão enfrentando naquele momento. O acréscimo de um novo andar, de uma construção nova nos fundos, ou até mesmo a divisão de uma casa em duas, são alterações que ocorrem corriqueiramente de acordo com a necessidade nas áreas negligenciadas pelo poder público.

No relato feito pela moradora de Paraisópolis, Quitéria Zacarias de Morais, dado para o documentário Arquitetos Periféricos, dirigido por mim, ela fala sobre como se deu o processo de construção de sua casa. Pelo fato de não ter muito dinheiro, a construção foi feita aos poucos, uma parede depois da outra. Não houve um planejamento, pois não havia uma perspectiva de futuro. Conforme os filhos foram crescendo e a necessidade de terem suas próprias casas foi surgindo, outras duas casas foram construídas em cima dessa primeira.

Junto da construção não planejada das casas vem os gastos exagerados, desperdícios de materiais, e patologias construtivas que elevam os custos. Mas por que as pessoas constroem e fazem reformas sem auxílio de arquitetos ou outros profissionais da construção civil? A resposta é simples. Elas não têm o conhecimento, ou têm uma visão errônea sobre o que de fato esses profissionais fazem. 

Na pesquisa realizada pelo CAU e o Datafolha em 2015 sobre a atuação dos arquitetos no Brasil, alguns motivos para a população não buscar este profissional são apontados. Os entrevistados de áreas mais periféricas disseram não possuir renda o suficiente para contratar este serviço, enquanto outros afirmaram não conhecer nenhum profissional da área, ou como acessar seus serviços. Ao final, percebe-se que o pedreiro é o profissional mais acessível e requisitado quando se planeja construir.

Hoje existem alguns escritórios de arquitetura que tem o foco de seu trabalho nas periferias. Um exemplo é o escritório Inova Urbis, que atende os bairros periféricos de São Paulo. Uma das grandes barreiras que tiveram que enfrentar foi a comunicação com os moradores, e explicar “o que” e “como” o arquiteto pode ajudar na hora de construir.

Os profissionais da construção civil que querem trabalhar com esse nicho devem encontrar maneiras de se comunicar de forma mais clara e didática. Também é de grande importância que os arquitetos sejam mais sensíveis para entender as reais necessidades dessa população, a fim de quebrar a ideia de que esse serviço é algo supérfluo e exclusivo a uma elite econômica.

Adabergio Zacarias da Silva, arquiteto e urbanista, é morador da favela de Paraisópolis. Trabalhou durante a graduação no escritório de assistência técnica Inova Urbis, e hoje se dedica a criação de conteúdos sobre arquitetura e urbanismo para a classe c, tanto no YouTube como no Instagram.

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