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História e Patrimônio

Você conhece a Ladeira do Acu?

Reprodução
Ladeira do Acu/ Rua de São João (imagem Debret, 1822)
Paula Janovitch é mestre em Antropologia e doutora em História. Foi pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo. Participa do coletivo Escutando a Cidade, do PISA: pesquisa + cidade e é autora do blog Versão Paulo
https://versaopaulo.wordpress.com/
Publicado em 04.02.2019, às 9:00 am

Quem desce a ladeira de São João no centro da cidade talvez nem imagine que aquele pedacinho de rua tem uma história tão bonita.

Antes de ser conhecida pelo nome do santo fogueteiro, quando a cidade ainda era bem colonial, chamou-se Ladeira do Acu. Neste pequeno mundo, cercada por santos e igrejas, foi onde a acanhada ladeira permaneceu por muito tempo. No século XIX era uma trilha e ligava as duas partes da cidade separadas pelo rio Anhangabaú. Com o tempo, a trilha passou a ser caminho, que logo foi se alargando e sendo povoada de casebres humildes cobertos de tabatinguera ( palha). O povo passou logo a chamá-la de Descida do Acu. Do Acu era a ladeira, a ponte, o rio e a zona toda.

“Yacuba” quer dizer água em tupi-guarani. “Acu” quer dizer veneno. Dai o rio Anhangabau que permanece ainda subterrâneo por baixo no Vale do Anhangabaú ter sido por tanto tempo conhecido por suas “águas venenosas”.
Diante de tão arriscado caminho o povo passou a cantarolar o perigo das águas do Anhangabau ao passar sobre a ponte do Acu:

“Eu fui passar na ponte,
E a ponte estremeceu…
Água tem veneno, morena,
Quem bebeu, morreu!”

Quando o desespero do povo cresceu ao máximo e na cidade só se falava em dar cabo daquela água maléfica, foi que surgiu um homem de apelido João-Nhá-Mãe que teve uma idéia de como acabar com o misterioso veneno da água.

A idéia foi pegar a santa imagem de São João Batista e levá-la para ser “batizada” nas águas venenosas do Anhangabaú.
Na madrugada gelada do dia 24 de junho o povo saiu em procissão com São João nos braços para batizá-lo ali na altura da ponte do Acu, onde se dizia que as águas eram mais venenosas.

João-Nhá-Mãe retirou as vestes de São João, entrou com ele nas águas do Anhangabaú envolvido pela cantoria do povo. E foi limpando o santo e a água foi ficando cristalina!
Já como rua das mais agitadas da cidade, honrou o nome de São João que limpou as águas venenosas do Anhangabaú.
Ladeira de São João passou a ser o começo da rua que ligava a cidade de cá com a cidade de lá, a vida noturna, os divertimentos, o comércio e a descida desabalada dos moleques de bicicleta.

P.S: Só para esclarecer uma passagem da música das “águas venenosas”. A ponte do Acu balançava sim, mas nunca caiu com ninguém, assim como o rio que tinha uma água ferrosa, calcária, pelo que consta, parece que nunca derrubou um ser humano. Saudades dos velhos tempos que a gente cantarolava que a ponte estremeceu só pra rimar com quem bebeu morreu, longe da amargura e dor de uma Vale com nome de Rio Doce mas promotora de assassinatos em série.

Para saber mais:
– Afonso A. de Freitas em seu livro Tradições e Reminiscências Paulistanas, editado pelo Governo do Estado de São Paulo ,( Coleção Paulística Vol IX) trás um monte destas histórias das ruas da cidade nas suas “reminiscências das ruas”, vale a pena!!
– São Paulo Paisagens Sonoras ( 1830-1880) – CD que faz um percurso sonoro pelo século XIX paulistano, tá lá a composição deste post. Para quem quiser escutar, o Spoty disponibiliza a trilha sonora São Paulo Paisagens Sonoras.

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