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Arte e cultura

Pantera Negra e a onda do afrofuturismo

Divulgação
Paisagem de Wakanda, do filme Pantera Negra
Mariana Barros é cofundadora do Esquina / mariana@esquina.net.br
Publicado em 30.01.2019, às 7:32 am

O Afrofuturismo está com tudo e, se você ainda não sabe o que é isso, é só acompanhar a corrida ao Oscar. O arrasa-quarteirão Pantera Negra, uma das maiores bilheterias de 2018 e inspirado no primeiro super-herói negro da Marvel dos anos 1960, é um dos indicados a melhor filme. Mas seu grande mérito vai muito além de levar ou não a estatueta.

Por um lado, ele pode colocar fim à longa estiagem de atores, atrizes e diretores negros premiados por Hollywood. Por outro, ultrapassa os limites do cinema e apresenta ao grande público o conceito de Afrofuturismo, que vem dando novo significado e forma ao imaginário urbano das cidades do continente.

Hannah Beachler, responsável pelo design da produção, categoria que também pode render um Oscar, disse que o Afrofuturismo foi sua maior fonte de inspiração para a cidade imaginária de Wakanda. Hannah, que é negra, também usou como referências a arquitetura da iraniana Zaha Hadid (1950-2016), o Palácio de Buckingham e as tradicionais cabanas sul-africanas com seus telhados cônicos de palha.

Mas o movimento é muito anterior e mais amplo do as telas mostram. Nas palavras do escritor, crítico e curador Ekow Eshun em texto ao site Dezeen, o Afrofuturismo reimagina a experiência negra através da fusão de ficção científica, fantasia e história — por exemplo, recontando a história do comércio transatlântico de escravos como abdução alienígena.

As personalidades identificadas com o afrofuturismo são variadas, incluindo os romancistas de ficção científica Samuel R Delany e Octavia Butler, as estrelas pop Erykah Badu e Janelle Monae, o grafiteiro Rammellzee e o músico de jazz Sun Ra. “O que os une é uma sensibilidade compartilhada que parece combinar sonhos fantásticos e novos mitos do drama cotidiano da vida negra”, diz Eshun.

A idéia de afrofuturismo foi cunhada pela primeira vez pelo escritor e crítico Mark Dery em 1993 e vinha sendo debatida em restritos círculos acadêmicos. Com o lançamento do filme Pantera Negra, ganhou os holofontes e o grande público.

No ano passado, o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York deu outro passo importante para a difusão do Afrofuturismo ao realizar a primeira retrospectiva americana do escultor congolês Bodys Isek Kingelez, morto em 2015.

Obra da mostra City Dreams, do escultor Bodys Isek Kingelez, no MoMA

A mostra City Dreams trouxe parte da série de cidades africanas construídas por Kingelez com papelão reciclado, papel colorido e latas de Coca-Cola. O artista, que era também arquiteto, nasceu em 1948, na região que à época era chamada de Congo Belga. Ganhou projeção internacional a partir de 1960, quando a área tornou-se independente da Bélgica. E iniciou suas paisagens urbanas em 1992, dando ao primeiro trabalho o nome de Kimbembele-Ihunga em homenagem à vila agrícola onde ele cresceu. Não à toa, suas criações lembram muito a Wakanda de Pantera Negra.

Da América à África do Sul da era do apartheid, as comunidades negras têm sido historicamente vítimas de segregação. Mas a onda de valorização da cultura e do imaginário negros parece impulsionar a busca pela reintegração e superação dessas distâncias simbólicas e físicas. No ano passado, a artista e curadora negra Ingrid LaFleur disputou a eleição à prefeitura de Detroit defendendo uma plataforma Afrofuturista que pedia a regeneração da cidade, através da tecnologia aliada à preocupação social. Que venham muitos outros personagens reais e fictícios somar forças para transformar as desigualdades e dar novo sentido à diversidade entre continentes.

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