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Sustentabilidade

Animais na cidade deveriam ser celebrados

Tiago Queiroz / Estadão
Família de capivaras circula perto da Marginal Pinheiros
Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie
Publicado em 21.01.2019, às 6:20 am

Dada a proximidade com o coração, o Parque da Luz poderia ser considerado o pulmão da cidade de São Paulo. Equipamento histórico, começou como jardim ainda no império, e duzentos anos depois mantém outra vocação original: preservar a fauna que havia cá nos Campos de Piratininga, antes de a gente entrar de sola.

O recorte afrancesado do paisagismo soube preservar a flora nativa e, por consequência, a fauna. São mais de setenta espécies de bichos reunidas, em maioria aves, além de cágados, borboletas diversas, e até preguiças que vivem soltas. Peixes também foram introduzidos quando da construção dos lagos.

Entendo quem se espanta com a notícia de um grande mamífero vivendo solto num centro metropolitano. Comigo não é diferente. Mas me pergunto por quê a gente é – ou ficou assim.

Lembro de quando Os Simpsons exibiram um episódio tendo o Rio de Janeiro por cenário. Nós brasileiros ficamos ofendidos com o olhar estadunidense, que via cobras, lagartos e jacarés no nosso cotidiano. De novo me pergunto: por quê ficamos assim?

Ora, as notícias de crocodilos que amanhecem nas piscinas em Orlando, lagartos nos jardins de Miami, esquilos nos parques em Nova York, veados nos quintais da Virgínia nos encantam e, creio, são motivo de orgulho para os americanos. Aliás, gaivotas que comem batatas fritas são tão disputadas quanto o Mickey Mouse na Disney. Então por quê a gente é assim?

Por falar em ratos, pena mesmo é que eles sejam um dos primeiros lembrados quando o assunto é fauna urbana, ao lado de pombos e baratas. Um dos melhores sintomas de qualidade de vida é a presença de animais variados vivendo na cidade.

Quem não se alegra com a visita de passarinhos? Ou a surpresa de um casal de tartarugas no lago do Ibirapuera? O lado bom de uma capivara perdida no rio Tietê é o sopro de esperança na despoluição do rio. E macacos que vêm buscar frutas na janela? No Leblon há relatos de rolezinhos de micos tumultuando o café da manhã da família carioca.

Neste 2019 Darwin vem sendo lembrado. Aqui no Brasil, infelizmente, tivemos que explicar sua teoria sobre a evolução nos telejornais. Mas em sua terra Natal, o naturalista ganhou destaque no jornal The Guardian com o lançamento do livro Darwin Comes to Town, (Menno Schilthuizen, Ed. Quercus, R$ 16,35 livro eletrônico, 352 págs., ainda sem tradução para o português).

Pesquisadores do mundo inteiro estudam a evolução urbana das espécies. O pássaro preto que Os Beatles cantaram e que na cidade acorda ainda mais cedo do que no mato para escapar da poluição sonora. Os corvos de Sendai, no Japão, que usam pneus de carros em baixa velocidade como quebra-nozes. O peixe-gato do Rio Tarn, no sul da França, que caça pombos, lembrado pelo Reinaldo José Lopes na Folha de São Paulo, assim como os mosquitos do metrô de Londres, que variam a cada linha – sim, cada linha é um “habitat” único.

Há mais: aranhas em Viena descobriram que viver perto das lâmpadas atrai mais insetos. Estarão, como nós humanos, engordando com a abundância de comida? E os pardais mexicanos que forram seus ninhos com bitucas de cigarro? Será pelo conforto da espuma ou porque a nicotina serve como inseticida para piolhos e pragas? Algumas aves citadinas desenvolveram asas mais curtas do que costumavam ter na selva. Voam mais baixo, mas o aparente prejuízo é compensado pela explosão da velocidade na decolagem, que ajudaria escapar de carros e gatos.

Como nem tudo é lúdico, a bicharada vulgar segue como problema a ser resolvido. Ratos espalham doenças e, como dizia Raul Seixas sobre o DDT contra as baratas, matar não adianta. Matéria do Fernando Duarte para a BBC Brasil mostra por que: Como o nosso lixo permanece o mesmo, os ratos que sobrevivem ganham mais oferta de comida, se reproduzindo com rapidez. Cada casal gera até 1.250 novos ratos por ano.

Na Nigéria, conta o Duarte, o presidente Muhammadu Buhari foi expulso de seu gabinete, tendo que trabalhar de casa por meses. Levante popular? Sim, mas da população de ratos, que invadiram a sede do governo. Paris serviu até de cenário de filme para um rato cozinheiro simpático, em vão. Os parisienses seguem às voltas com os roedores e a eleição para prefeito em 2020 já é pautada em torno deles. No pesadelo de um político francês, ratos vestem coletes amarelos.

Mosquitos vivem em situação parecida. Todos são importantes para o ecossistema. Entre os que picam, alguns espalham doenças a ponto de merecerem o troféu de maiores matadores de humanos – seguidos pelos próprios humanos. Mas não tem como pulverizar o Aedes-aegypti e preservar abelhas, borboletas e joaninhas ao mesmo tempo. E muito menos entrar na insanidade de matar macacos para evitar febre-amarela. De novo, o problema passa pelos nossos costumes. Lixo, água parada. E lembrar que, coletivamente, vacinação não pode ser facultativo. (Relaxa, Oswaldo Cruz, se serve de consolo, até o Charles Darwin voltou.)

Lamentavelmente, rezar pouco adianta. No sul de Minas a cidade de Espírito Santo do Dourado recebeu uma chuva de aranhas. Se nem com esse nome o município foi poupado, o jeito é trabalhar para resolver as coisas aqui na terra.

Fato é que a casa é nossa e teremos que conviver. Se possível, em harmonia. Um conceito de urbanismo diz que a presença de crianças e cachorros no espaço público é atestado de êxito. Difícil discordar. Mas eu incluiria uma meta padrão Noé para melhorar a vida nas cidades.

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