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Arte e cultura 04.12.2018 — 6:10 am

Plano B para livrarias e cidades

Reprodução
Meg Ryan e Tom Hanks em livraria em cena do filme Mensagem para Você
Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

A loja dobrando a Esquina (The Shop arround the Corner) é uma fita de 1940, com Budapeste por cenário e baseada numa peça de teatro de três anos antes. Conta a história de um casal que namora por correspondência sem imaginar que são colegas de trabalho com péssima relação profissional.

Há vinte anos ganhávamos uma releitura no cinema de Hollywood. A grande novidade era o correio eletrônico, que acabou batizando a obra como Mensagem para Você (You’ve Got Mail), muito provavelmente pelo merchandising do provedor AOL, que usava a mensagem para avisar seus assinantes sobre a chegada de um novo e-mail.

A questão da nova tecnologia rouba parte da tensão da trama. Meg Ryan, mocinha que flerta anonimamente por e-mail, tem um namorado conservador tarado por máquinas de escrever. O curioso é que seu fetiche maior está no gemido do circuito eletrônico da máquina elétrica. Quer dizer, ele é saudosista, mas tem limite.

O mocinho Tom Hanks, que corresponde ao flerte, é herdeiro de um livreiro cuja descendência se fez de empresários vorazes e pragmáticos, e onde fundador ainda participa como conselheiro. O velho guarda boas lembranças da época onde a caligrafia era um traço relevante das personalidades.

A loja dobrando a Esquina, título original do texto, acaba batizando a livraria que a mocinha também herdou da avó. Uma lojinha simpática, especializada em literatura infantil e bem enraizada no Upper West Side, tipo de Vila Madalena ou Laranjeiras de Nova York, bairros que mantém o clima de comunidade.

Eis a parte central da trama original. Os namorados virtuais são concorrentes, o que empresta profundidade à personagem do mocinho, fazendo dele também vilão. Com o sugestivo nome Fox Books (Livros Raposa), o mocinho é dono de uma imperial rede de shoppings de livros.

Já nos tapumes da pré-inauguração a megaloja de livros provoca despudoradamente a livraria de bairro: Em breve, dobrando a esquina, Raposa Livros.

Previsivelmente, a crise pessoal e profissional do casal protagonista se torna conjugal, e seus namoros desmoronam, assim como desmorona a livraria de bairro. A solidariedade e a resistência romântica da livreira tradicional e do bairro não resistem aos descontos oferecidos pela raposa.

Depois da separação, raposa pai – que também se divorcia, pela enésima vez – e filho vão morar em seus barcos. O filho tem um veleiro e o pai, um iate, equipado com bar inglês, onde celebram as mágoas em torno de um invejável Dry Martini, algo que só o capitalismo raposa pode proporcionar.

Seria falso dizer que não me sinto atraído pela imagem. Mas posso viver sem a possibilidade de ter um iate com bar inglês. A mesma coisa não posso dizer sobre viver em um bairro sem livraria na rua.

Chegamos enfim ao assunto do momento para quem gosta de letras. A morte e a morte das livrarias Saraiva e Cultura/Fnac que ameaçam todo o mercado editorial no Brasil. Gente boa já escreveu como e por que o nosso modelo de negócios editoriais está ameaçado pela quebra iminente de ambas.

A primeira morte dessas livrarias foi quando se afastaram do ideal de ser. Escrevi aqui meu temor e tristeza em ver o Pedro Herz, nosso livreiro mais conhecido, substituindo pouco a pouco sua presença no Conjunto Nacional. Invés de estar na loja diariamente, inclusive aos sábados, numa animada mesa com leitores, autores e editores armada nas ruas internas desenhadas pelo David Libeskind, onde estaria o Pedro? Em aviões visitando filiais? Lendo relatórios dos fundos de investimento? Nunca conversei com ele, mas sentia saudades imensas.

A favor do dinheiro dos fundos de investimento é preciso dizer que eles livraram o cine Astor de virar uma igreja e ainda mantiveram duas salas de exibição anexas à livraria, bem como espalharam lojas e vastos catálogos por cidades onde não havia tantas possibilidades para os leitores. Mas quantas livrarias “dobrando a esquina” terão falido?

Sabe-se que as livrarias da Vila, Travessa, Martins Fontes e outras tantas vão bem, obrigado. Assim como os sebos, do Messias ao Desculpe a Poeira, ou as amazônicas vendas on-line. Tudo leva a crer, pois, que o problema está antes no modelo dos fundos de investimento do que no mercado de livros.

Com outros negócios aconteceu algo mais ou menos parecido. A churrascaria Fogo de Chão, nas mãos dos másters business boys, foi seriamente chamuscada. Devolvida à velha direção, renasceu das cinzas. Exemplos por aí não faltam. De cervejeiros ao pessoal que adora roupas, sobram lamentos pela queda de qualidade de marcas consagradas.

Não por acaso, cervejarias de bairro e alfaiatarias ganham espaço e apreço. Gráficas que podem imprimir um livro na hora sob demanda surgem alhures. Problema: o preço. Como tornar sustentáveis e acessíveis esses negócios feitos com carinho e atenção é a pergunta. Meu palpite é que a resposta pode estar nas políticas para cidades que incidem sobre o mercado de locação imobiliária, como escrevi nesta Esquina. É uma das reclamações centrais das livrarias e outros comércios e serviços.

Nos Estados Unidos, vinte anos depois do e-mail como novidade e desmoronamento das livrarias de rua, a roda girou mais de uma vez. Cresceram os shoppings de livros, o comércio on-line avançou barbaramente, o livro eletrônico é uma realidade. Agora parece que bateu saudade e dobrando a esquina a gente volta a encontrar livrarias independentes, especialmente em Nova York, que tem investido em ruas mais agradáveis para as pessoas.

Como no Brasil também vivemos cada vez mais nas cidades, precisamos de algo parecido, talvez um plano B, em alusão a bazar, boteco, barbeiro, bombonière, bicicletaria, borracheiro, banca, barraca, bilhar, boxe, balé, bainha, bordado e, por que não?, biblioteca, bosque, banheiro, bebedouro, banco (para sentar e sacar a vida passando).

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