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Tecnologia 06.11.2018 — 7:04 am

Carros autônomos podem tomar decisões de vida e morte no trânsito?

Ryoji Iwata / Unsplash
Carros cruzam a faixa de pedestres ao lado de ciclistas
Diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) / Instituto Cidade em Movimento

Já falei aqui, em outro texto, sobre nossa tendência a ceder ao fascínio de soluções mágicas para a questão da mobilidade – reduzida, muitas vezes, ao trânsito da cidade. E a bola da vez é o carro autônomo, certo? Um carro conduzido por um sistema bem programado, não-poluente, seguro e que nos libera da direção para que aproveitemos o tempo de deslocamento para outras atividades.

Como é fácil pensar em uma solução que desce do céu como um drone. Só que não é bem assim. Esta é uma questão que envolve uma reflexão muito mais complexa. Por exemplo, um dos argumentos mais repetidos com relação aos veículos autônomos diz respeito à segurança: como mais de 90% dos acidentes fatais de trânsito são causados por falha humana, com um carro dirigido por sistema / robô evitaremos estas mortes.

Mas quem é mesmo que está programando estes carros?
Sim, são os mesmos humanos.

Centenas de programadores do mundo todo que estão penando para “ensinar” às máquinas a se comportar nos deslocamentos pela cidade. E este trabalho envolve muito mais do que a leitura de sinais de trânsito e conexão com aplicativos. A programação dos carros autônomos exige traduzir em comandos a leitura do contexto urbano que é extremamente complexo. Afinal, o carro deve captar e interpretar simultaneamente o movimento de outros carros, das pessoas, do tempo, do espaço, do sistema e controles internos e externos etc. enquanto define e percorre sua rota.

Porém, o mais fascinante é acompanhar os relatos dos desafios dos técnicos em programar a percepção das nuances e sutilezas do comportamento humano. Como, por exemplo, fazer com que o carro interprete se o movimento de braços de uma pessoa na calçada é um sinal para se identificar para o carro autônomo ou se é um “oi” para um amigo do outro lado da calçada? Como ensinar o sistema a antecipar que uma criança está por se soltar da mão da mãe e correr para a rua? Ou identificar um ciclista principiante e inseguro prestes a cair? São situações corriqueiras que nós todos reconhecemos de longe em função de percepções complexas de expressões faciais, sons, referencias de memória etc., mas que certamente não são tão simples de explicar para um computador. E isso, é claro, se multiplica, pois, em cada país e em diferentes culturas as expressões e códigos são outras.

Há também a difícil questão de como incorporar princípios morais nos momentos de decisão do carro, tema tratado há alguns anos na Moral Machine desenvolvida por um grupo de pesquisadores do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA). Estes especialistas desenvolveram um simulador de comportamento de carros autônomos colocados em situações de dilema como por exemplo: se uma pessoa está atravessando a rua com sinal aberto para os carros, o carro autônomo deve seguir o caminho e atropelar, ou frear bruscamente com risco de ferir seus ocupantes? E se quem atravessa é um cego que não teve a informação sobre o sinal? E se for uma jovem fugindo de uma situação de perigo? E se os ocupantes do carro forem ladrões ou com mais de 80 anos? Em outras palavras como programar o carro para tomar decisão de vida ou morte?

Este é apenas um pequeno resumo da complexidade da programação. E a ação de hackers e os acidentes e mortes que já estão ocorrendo nos testes, como o do carro autônomo da Uber há poucos dias, mostram que ainda não podemos nos iludir com esta questão da segurança.
A isso se soma o tema do combustível não-poluente, outro forte argumento a favor do transporte autônomo, que tampouco é simples.

Recentemente, por exemplo, o presidente do Grupo PSA, Carlos Tavares, chamava a atenção para o custo da operação de substituição dos carros movidos a combustíveis fósseis com respeito à composição de receita pública e impostos. E lembrou também a dependência de infraestrutura de pontos de recarga e dos riscos o descarte e reciclagem de baterias. Em resumo, Tavares alertava para a “propaganda eleitoral “da plataforma de carros autônomos.

O transporte autônomo envolve tecnologia, desenho urbano, legislação, moral, infraestrutura, matriz energética e muito mais.
Por esta razão, é importante aprofundar a reflexão sobre este novo modal e manter, por enquanto, os pés no chão.


Luiza de Andrada e Silva
 é educadora, jornalista e diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) — Instituto Cidade em Movimento

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