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Tecnologia 08.10.2018 — 7:19 am

Como a tecnologia tem mudado quem somos e como vivemos

Octavian Rosca / Unsplash
A cidade através de uma lente

Defendidas por serem eficientes, conectadas e sustentáveis, as chamadas “smart cities” são frequentemente lembradas como o futuro de nossas cidades. Para entender o que há por trás desse conceito, o Esquina realizou no Centro Ruth Cardoso o debate e lançamento do livro Cidades ‘Inteligentes’ e Poéticas Urbanas, novo título da Editora AnnaBlume. A publicação reúne em uma coletânea de ensaios diversas visões sobre o campo simbólico e imaginário do devir dos espaços urbanos.

Cidades inteligentes e poéticas urbanas

Sobre o livro Cidades "Inteligentes" e Poéticas Urbanas, organizado por Artur Rozestraten com Gabriel Figueiredo, Caio Vassão, Daniele Queiroz, edição da Annablume Editora. Segunda rodada com Hulda Wehmann, Vladimir Bartalini e Gil Barros. Mais detalhes no link: https://www.facebook.com/events/240301660016626/

Publicado por Esquina: Conversas sobre cidades em Quarta-feira, 19 de setembro de 2018

 

O encontro contou com a participação de seu organizador, o arquiteto e livre-docente da FAUUSP Artur Rozestraten, de diversos coautores e do mediador convidado Gabriel Mazzola Poli de Figueiredo. Confira o que rolou no debate:

Em seu ensaio para o livro, Artur Rozestraten examina os diferentes significados e aproximações que a ideia de inteligência transmite, recusando um conceito pronto do que seria a smart city. “Antes de aceitarmos um modelo que resolva nossos anseios, cabe a nós tornar o tempo suficientemente lento para que possamos formular coletivamente o nosso desejo em relação a cidade do futuro”, explica. O arquiteto ainda apontou para os perigos da tecnologia e como ela pode, ao mediar e isolar as relações humanas, encobrir problemas como desigualdades sociais e conflitos políticos.

O questionamento é semelhante ao abordado por Daniele Queiroz dos Santos, mestre pela FAUUSP. A autora defendeu outras formas de entendimento sobre o que seria a smart city e cita a história do teórico alemão Aby Warburg como metáfora: “Warburg era considerado louco por conversar com as borboletas. Mas se as ouvíssemos mais, que tipos de inteligência elas poderiam nos oferecer?”, pergunta. Seu ensaio parte de uma análise do filme Dogville, do diretor dinamarquês Lars von Trier, para discutir como cidades fechadas à pluralidade de pensamentos e agentes são insustentáveis e caminham para um iminente fim.

Caio Vassão, pesquisador do grupo Representações Imaginário e Tecnologia vinculado à FAUUSP, destacou como a falta de entendimento sobre a disseminação da tecnologia leva à criação de projetos políticos inadequados: “enquanto as políticas públicas estão delimitadas por territórios nacionais, estaduais ou federais, nossos celulares estão neste momento em contato com ações acontecendo em outros países e possivelmente com mais impacto em nosso cotidiano”, diz. Para o pesquisador, é preciso questionar os efeitos dessas mudanças e que novos modelos podemos elaborar para articularmos em conjunto o campo da política com a sociedade.

Mediando o debate, o pesquisador e coordenador do Grupo de Cenários Urbanos Futuros da FAUUSP Gabriel Mazzola Poli de Figueiredo indagou justamente se essa disseminação das soluções digitais é, necessariamente, positiva. Ele chamou a atenção para se pensar nos efeitos que tais novidades podem trazer no território urbano e se são capazes de gerar mudanças efetivas: “às vezes o que se coloca como algo ultra tecnológico nada mais é do que meramente técnico”.

Em sua contribuição para o livro, a arquiteta e docente Hulda Erna Wehmann discute sobre como as smart cities podem criar espaços mais conectados à tecnologia do que aos seus próprios habitantes. Ao investigar como se dá a contribuição das pessoas para a construção da paisagem, a autora percebe as cidades inteligentes como uma solução impositiva: “a população assume o papel de consumidor, e não o de criador”. Segundo Hulda, é preciso assumir uma perspectiva coletiva onde “se permita a todo mundo co-criar, dialogar e discutir”, completa.

Também interessado na paisagem das cidades, o professor da FAUUSP Vladimir Bartalini tem sua pesquisa voltada para os córregos ocultos de São Paulo. Soterrados abaixo do solo por grandes obras de engenharia, esses percursos hídricos são apagados do espaço urbano e esquecidos pela população. É o caso, por exemplo, do Beco do Batman, frequentemente visitado por turistas que sequer sabem que por debaixo passa o Córrego do Rio Verde. Se antigamente tínhamos como solução para os rios as pontes, entendidas pelo autor como “formas de superar um obstáculo sem eliminá-lo”, hoje nos restam apenas seus vestígios: “as entendo como patrimônios históricos paisagísticos”, afirma.

Concluindo o debate, o arquiteto e pesquisador Gil Garcia de Barros apresentou possíveis ferramentas projetuais para as smart cities: “anterior a como resolver os problemas há a pergunta sobre o que devemos fazer”, explica. Enquanto estratégias de viés racional são importantes para solucionar adversidades já definidas, é necessário em primeiro lugar uma prática reflexiva que seja capaz de identificá-las. Para Gil, estamos tão focados em entender o que seria uma cidade inteligente que nem paramos para pensar no que, de fato, precisa ser solucionado nas cidades.

 

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