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Meio ambiente 26.06.2018 — 8:04 am

Cidades para não adoecermos, por Marcio Deslandes

Cingapura
Nosso espaço aberto para convidados

Vivemos hoje um momento crítico para a saúde pública, onde o maior número de mortes no planeta está relacionado às doenças não transmissíveis. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde do ano de 2017, 40 milhões de mortes foram causadas por doenças não transmissíveis – o equivalente a 70% de todas as mortes no planeta. Outro fato importante é que, anualmente, 15 milhões das mortes causadas por essas doenças são prematuras e 80% acontecem em países de renda baixa ou média. No grupo das doenças não transmissíveis que mais matam hoje, 80% dos casos, temos: doenças cardiovasculares (17.7 milhões de mortes anuais), câncer (8.8 milhões de mortes anuais), doenças respiratórias (3.9 milhões de mortes anuais).

Depois do grupo acima, temos 1.6 milhões de pessoas morrendo anualmente por sedentarismo. O tabagismo, o consumo excessivo de álcool e a obesidades estão diretamente ligados a um estilo de vida sedentário e a exposição a poluentes, dois tópicos em que a mobilidade ativa, o uso das bicicletas e a infraestrutura para pedestres podem oferecer uma alternativa na difusão de um estilo de vida mais saudável e sustentável.


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Dentro do ranking das cidades mais saudáveis são apontadas Cingapura, Tóquio e Copenhagen, município onde há mais deslocamento por bicicleta do mundo, cerca de 70% das viagens. Já Tóquio e Cingapura possuem um dos melhores sistemas de transporte público mundiais, o que proporciona aos seus moradores utilizarem a mobilidade ativa como primeira e última alternativa dos seus deslocamentos. Isso é uma maneira natural de manter uma população com um estilo de vida mais ativo, prevenindo problemas relacionados ao sedentarismo.

Cingapura tem algo ainda mais revolucionário, ela é a cidade com o melhor tráfego e melhor qualidade do ar da Ásia. A cidade implementou uma taxa de congestionamento que coloca uma barreira econômica bem elevada aos cidadãos que optam por adquirir e usar veículos motorizados individuais. O governo local reverte a receita dessa taxa de congestionamento para investimento em mais transporte público.

Baseado nos dados acima é fácil concluir que o planejamento urbano e a mobilidade viraram uma questão de vida ou morte. Argumentos como: isso não faz parte da nossa cultura, o tempo (calor, frio) e etc. não deviam mais ser usados como justificativas que só encorajam políticas públicas para cidades mais sedentárias, perigosas e com maiores índices de problemas de saúde. As políticas públicas que colocam o automóvel como centro do desenvolvimento estão gerando uma crise socioeconômica enorme na saúde pública mundial.

Gostaria de lembrar aqui que a Holanda é hoje o país onde há o maior uso de bicicletas do mundo. Não porque terem no seu DNA a bicicleta, mas porque mães holandesas foram às ruas nos anos 60 e 70 para lutar contra o desenvolvimento automobilístico, pois o índice de mortes infantis por atropelamento no país era altíssimo na época. A luta da sociedade civil foi responsável por fazer de Amsterdam uma das cidades mais agradáveis para se visitar e viver por seu desenvolvimento urbano colocando a pessoa no centro e não veículos motorizados.

Marcio Deslandes é diretor da ECF (Federação Europeia de Ciclistas), entidade realizadora da Velo-city 2018

Para saber mais:
https://www.fiafoundation.org/our-work/road-safety
https://www.fia.com/road-safety

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