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Mobilidade 19.06.2018 — 7:47 am

Tendências e oportunidades, por Timothy Papandreou

Nosso espaço aberto para convidados

 

Até recentemente, os últimos cinquentas anos do transporte não viram nenhuma grande revolução que alterasse todo o contexto – nós meramente testemunhamos alguns pequenos ajustes aqui e ali. No entanto, os últimos cinco anos presenciaram, sozinhos, mais mudanças e rupturas do que meio século.

Na realidade, eles prepararam o terreno para transformações na próxima década em uma escala nunca vista desde a produção em massa do automóvel. Cem anos após essa era estaremos em um mundo familiar e, ainda assim, muito diferente. Se os últimos cinco anos de inovações e perturbações são alguma indicação do que vem por aí, estaremos em uma selvagem e atribulada corrida que nos levará a uma reviravolta do status quo dos serviços e escolhas de transporte.

Com base em minhas interações com dezenas de cidades e organizações de transporte, incluindo centenas de provedores de serviços de mobilidade ao redor do mundo, cheguei à conclusão de que existem algumas tendências-chave que moldarão o futuro do nosso transporte de forma emocionante para muitos – e desafiadora para alguns. Neste ensaio tentarei sintetizar a multiplicidade de ocorrências e forças já observadas e aquelas que são mais prováveis de serem vistas no futuro.

Claro que os eventos podem tomar caminhos diferentes das previsões que faço aqui, mas pelo que testemunhei e pelas conclusões que obtive ao falar com quem interagi, as cartas já estão na mesa – por assim dizer – e são bem atraentes. É menos uma questão de “se” e mais uma de “quando”. Além disso, algumas das principais rupturas já começaram a abalar a ideia do que significa viajar, tocando até mesmo nossa própria identidade. Nós temos uma excelente oportunidade nesta próxima década de finalmente acertar e transformar a indústria do transporte em algo que gostaríamos de ser – nos mover em direção a uma sociedade e civilização mais sustentável e resiliente.

Primeiramente, as sete grandes tendências que nos últimos cinco a dez anos prepararam o terreno para os próximos dez podem ser categorizadas da seguinte maneira:

> Mudanças demográficas, com Baby Boomers e Millennials em grande número

> Preferências pela vida urbana e por estilos de vida mais flexíveis

> Wi-Fi, GPS, sensores e smartphones

> Conectividade sempre e em qualquer lugar

> Mudanças de preferência em dirigir/possuir carros

> Viajar como parte das experiências de vida

> Redefinição do transporte por meio de novos designs de ruas, provedores de serviços e sistemas

 

Observando todas essas tendências que acabei de apontar, pode-se perceber que os últimos cinco anos foram verdadeiramente transformadores para o sistema de transportes como um todo, e também prever que a próxima década verá mudanças em uma escala que nós podemos apenas começar a imaginar… e, ainda assim, algumas coisas permanecerão exatamente como estão – ou, pior, irão se deteriorar. Buscarei agora destacar aquilo que acredito ser as principais tendências previstas no transporte. Como eu disse, eventos podem seguir uma direção diferente, mas cabe a nós garantir que o caminho que queremos é sustentável e acessível, evitando tornar as coisas piores.

As próximas grandes tendências se tornarão divisores de águas, sendo lideradas, apoiadas e administradas nas cidades, em oposição a governos regionais ou nacionais. Elas serão sentidas, em primeiro lugar, naquelas que experimentaram a maiorias das sete tendências já em vigor, e serão rapidamente seguidas pelo resto. Cidades estão mais do que nunca conectadas umas com as outras, e ainda assim uma coisa que percebi é que elas são ferozmente independentes e competitivas. A principal razão para isso é que, de forma a manter uma vantagem econômica competitiva que atraia e detenha os melhores talentos e serviços, elas precisam estar ‘no jogo’ o tempo todo, já que mudanças necessárias podem acontecer rapidamente.

As cidades que tem trabalhado duro para criar comunidades habitáveis e de usos diversos, com uma boa provisão de habitações e com projetos de ruas completos, estão prestes a receber as melhores inovações ainda a serem vistas na esfera dos transportes. Se elas puderem ajustar suas políticas, de reativas e previsíveis a mais abertas e colaborativas, operando sob um princípio de governança justa, veremos essas inovações acontecerem ainda mais cedo e em números maiores por todo o mundo.

As tendências de transporte para os próximos cinco a dez anos podem ser categorizadas como:

> Sincronizando e conectando todas as redes

> Parcerias público-privadas baseadas em desempenho se tornando a regra, e não a exceção

> Diversificação e consolidação de fabricantes e fornecedores de transporte

> Sistemas de mobilidade eletrônica modulares e combinados, compartilhados em escalas urbanas

> Entregas comerciais e introdução gradual de drones

> Veículos sem motorista e seu potencial

> Mobilidade como um serviço de assinatura, com rastreamento, reserva, pagamento, desbloqueio, gamificação e negociação

 

O futuro da mobilidade está sendo impulsionado pela rápida mudança da demografia, recorrente dos Baby Boomers se aposentando, dos Millenials adentrando o mercado de trabalho e daqueles da Geração X como sendo simultaneamente inovadores e pais. Essas forças estão criando uma mudança generalizada na maneira como vemos nós mesmos e nossos locais de trabalho, espaços e necessidades de viagem. Conectividades onipresentes nos permitem conectar e trabalhar em todo e qualquer lugar, o tempo todo. Nossa jornada irá continuar a ser valorizada como uma experiência para se conectar com nosso ambiente, mais do que ser um meio para ir de A até B. Tecnologias em transição e mídias sociais estão aproximando os muitos elementos díspares de nossos estilos de vida e estamos entrando em uma nova fase de interconectividade.

Há uma significativa pressão para que fabricantes de equipamentos originais percebam que essa nova plataforma de compartilhamento será necessária para a sobrevivência. O governo também precisará realinhar seu foco em infraestruturas por meio de PPPs (Parcerias Público-Privadas) em mercados urbanos selecionados. A menos que arrecademos novas fontes de receita, a maioria dos mercados urbanos concentrará grande parte de seus gastos públicos em manutenção, abandonando expansões financiadas unicamente pelo governo. Nós entramos na era da diversificação em massa dos provedores de serviços, e isso será seguido de perto pela consolidação de sistemas com plataformas cruzadas por meio de novas empresas emergentes.

Veremos um aumento gradual de serviços de armários para entrega/retirada de produtos em centros de bairos, introdução de drones para delivery, veículos conectados, carros que dirigem sozinhos (em serviços limitados), tráfego conectado e sistemas de pagamento e reserva. O transporte evoluirá para um serviço de assinatura, com menus de mobilidade personalizados para atender gostos e preferências individuais de seus clientes. As pessoas comprarão minutos de mobilidade para opções locais, regionais e globais. As sete tendências que caracterizaram esses últimos dez anos informaram as sete principais tendências que surgirão durante os próximos dez, e isso transformará completamente nosso conceito de viagem urbana.

Não consigo enfantizar o suficiente como essa convergência envolve um completo sistema de fases, e isso irá exigir uma cooperação e colaboração sem precedentes por ambos os setores públicos e privados. Se acertamos, veremos uma rede de transporte mais conectada, barata e ecologicamente viável, que excederá nossas expectativas e atenderá nossas urgências de sustentabilidade para a próxima geração. Estamos em uma encruzilhada, e a escolha é nossa: queremos um sistema de transporte mais seguro, mais resiliente e acessível para todos? Ou iremos lentamente testemunhar o declínio de nossos sistemas, ao mesmo tempo que iremos acrescentar mais tecnologias polarizadoras ao problema? Vamos escolher a primeira.

 

Timothy Papandreou é consultor e cofundador da City Innovate,  plataforma de cidades inteligentes. Foi gerente de parcerias estratégicas do Google X e Waymo, colaborou com equipes para preparar o lançamento do primeiro serviço de passeio totalmente autônomo do mundo. Foi diretor de Inovação da agência de transporte de São Francisco e liderou equipes para entregar o US Smart City Challenge (Plano Estratégico de Trabalho) e de segurança de tráfego Vision Zero.

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