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História e Patrimônio 18.06.2018 — 9:18 am

Exposição de Mauro Restiffe no IMS traz reflexão sobre o centro

Mauro Restiffe
Praça Roosevelt #2, 2014. Fotografia de Mauro Restiffe / São Paulo, fora de alcance, projeto realizado pelo IMS / Reprodução
Paula Janovitch é mestre em Antropologia e doutora em História. Foi pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo. Participa do coletivo Escutando a Cidade, do PISA: pesquisa + cidade e é autora do blog Versão Paulo

No dia 07 de junho à noite, uma quinta-feira, ocorreu a palestra de Raquel Rolnik na exposição de Mauro Restiffe no Insituto Moreira Salles (IMS) em São Paulo. Cheguei atrasada e quando entrei na Galeria 2, onde seria a palestra, vi um aglomerado de gente no fundo da sala. Raquel estava mostrando uma imagem do fotógrafo Mauro Restiffe do Campos Elíseos e explicando o que havia ocorrido ali.

Falava de Santa Efigênia, da rua que é o segundo PIB comercial da América Latina. O primeiro, explicava ela, é o da 25 de Março. Tudo isto para enfatizar o absurdo que é a expressão revitalização em uma área que não esta desvitalizada. Disse: “Esta palavra ‘revitalização’ deve ser banida do nosso vocabulário, é uma mentira! O melhor seria usar ‘reabilitação’, acolhimento de novos usos, oferta de condições de moradia para quem esta nesta região.
”

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Caminhamos mais uma pouco para outra imagem, um terreno desocupado, um estacionamento com o Teatro Oficina ao lado. Ela explica que o terreno é de Silvio Santos, que este queria fazer uma edifício-torre, já os moradores do Bixiga, desejam que ali seja o Parque do Bixiga. Em meio a esta disputa ela nos pergunta se sabemos em qual categoria de zoneamento este terreno se enquadra. Ninguém responde. Ela explica: zona especial, mais ou menos quer dizer zona que pode ser qualquer coisa.

Depois caminhamos para uma fotografia pequena, do Templo de Salomão, no Brás. Ela diz que esta foto é muito interessante porque mostra uma imagem do Templo no tapume e, ao fundo, ele ainda no início de sua construção. Novamente vem a pergunta se sabemos em que tipo de zona se enquadrava este terreno onde foi construído o Templo. Alguém chuta zona especial também. Nada disso, outra categoria, era uma ZEIS ( zona de especial de interesse social, destinada à baixa renda), a mesma da área do Campos Elíseos, lembra Raquel. Porém, neste caso, havia uma casinha no terreno, e o Templo de Salomão foi construído como reforma da tal casinha. Logo passou ao largo das burocracias e impedimentos das leis. Veja que uma casinha virou um Templo reconstruído à imagem e semelhança daquele que em Jerusalém esta em ruínas até hoje. Só tínhamos lembrança dele através da Bíblia, mas agora temos uma replica “perfeita” no Brás paulistano, onde uma casinha reformada se tornou o bíblico e literal Templo de Salomão.

Raquel Rolnik na exposição de Mauro Restiffe / Foto Paula Janovitch

Depois de caminharmos neste território fotográfico, sentamos e nos estendemos nas conversas sobre a cidade, mais especificamente estes locais de conflito. E foi ali sentados que a Raquel deu um conselho ótimo para quem quer participar das discussões e decisões sobre a cidade. Motivo pelo qual escrevo sobre a palestra e compartilho aqui. Então lá vai: temos que entender da nossa cidade como as pessoas entendem de futebol. É assim que podemos entrar em campo, aprendendo no território, nas exposições e nos deslocamentos pela cidade. Ontem caminhamos pelas fotografias de Mauro Restiffe e conhecemos vários jogadores e muitas jogadas ensaiadas. A técnica de plantão é na realidade uma boleira histórica . Valeu, Raquel!

 

São Paulo, fora de alcance
Fotografias de Mauro Restiffe
IMS Paulista, Avenida Paulista 2424
De 14 de abril, às 11h, a 26 de agosto de 2018.
Terças a domingos (exceto quintas), das 10h às 20h.
Às quintas (exceto feriados), das 10h às 22h.

 

Paula  Janovitch é mestre em Antropologia e doutora em História. Foi pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo. Uma das autoras do guia “Dez roteiros históricos a pé em São Paulo ( Narrativa Um) : Os segredos das passagens, percurso pelas galerias do Centro Novo”. Nos últimos anos vem desenvolvendo pesquisas, percursos e projetos em São Paulo com urbanistas, psicanalistas e artistas.  Participa do coletivo Escutando a cidade e do PISA: pesquisa + cidade.  É autora do blog Versão Paulo.

 

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