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Planejamento 04.06.2018 — 7:44 am

Os planejadores urbanos e a periferia

Elisabete França é arquiteta e trabalha desde os anos 80 na divulgação da arquitetura como criadora de espaços urbanos inclusivos


Vem de Milão a boa notícia, Massimiliano Tarantino, Secretário Geral da Fundação Feltrinelli, recentemente declarou à revista Domus: ‘o conceito de periferia precisa ser exorcizado e superado’.

E, o mesmo deveríamos fazer por aqui, quando falamos dos problemas urbanos das cidades brasileiras.  O conceito de periferia, tão ao gosto dos planejadores, nos chegou em 1956, como herança de uma forma de planejar que teve início quando da contratação da SAGMACS (Sociedade para Análise Gráfica e Mecanográfica Aplicada aos Complexos Sociais),  pela prefeito Wladimir Toledo Piza, para a elaboração do estudo Estrutura Urbana da Aglomeração Paulistana. O grupo técnico coordenado pelo Padre Lebret, introduziu as primeiras ideias sobre ‘a extensão da cidade de forma periférica’ caracterizada por serem territórios que se estabeleciam  ‘sem quaisquer preocupações urbanísticas’.

Para os planejadores da época,  essa expansão era um ‘fenômeno doentio do tipo canceroso, pois cria continuamente novas zonas doentes em sua periferia, e agrava incessantemente a profundidade do mal na direção do centro’. E, desde então, passados sessenta anos do estudo da SAGMACS, continuamos considerando  as áreas ‘não centrais’, carentes de infraestrutura e equipamentos pública, como ‘periferias’.

Centenas de análises acadêmicas sobre a condição urbana, são produzidas e publicadas a cada ano, a maior parte delas, reforçando uma leitura dicotômica da cidade, de um lado o centro, onde se concentra a infraestrutura pública, em especial aquela relacionada à mobilidade e à oferta de empregos e, do outro, a ‘periferia’, bairros que são classificados como ‘dormitórios’, porque a princípio, são desprovidos do acesso à infraestrutura e serviços públicos.

E, assim, sob a influencia de ideias que aqui aportaram na década de 1950, continuamos mapeando a cidade, através de diagramas que mostram a concentração de toda sorte de infraestrutura e serviços em poucas regiões da cidade de São Paulo. Passadas mais de seis décadas, da adoção dessa divisão exclusiva e elitista da cidade – centro e ‘periferia’ -, deveríamos nos perguntar, pelo menos entre aqueles que se dedicam ao estudo da metrópole: essa forma de ler a cidade ainda é  válida ou se esgotou há muito tempo e continuam insistindo pela facilidade que ela possibilita, posto que simplifica a leitura urbana?

Será que tem algum sentido, na cidade contemporânea, continuar utilizando esse conceito que divide a cidade em centro e ‘periferia’? Se a princípio essa dualidade facilita a produção de mapas e encanta analistas porque comprovam a desigualdade existente na cidade, como já comprovavam os estudos do Padre Lebret,  por outro lado, não nos ajudam a entender a cidade como ela é: um mosaico de centenas de territórios que foram se constituindo com características específicas, e que são resultado dos esforços coletivos e individuais daqueles que contribuíram para a construção de cada um dos bairros da cidade. Em cada deles temos um palimpsesto de histórias acumuladas, que definem suas referências urbanas e seus mapas mentais da cidade. Um campo de futebol construído por moradores, uma pequena igreja, a casa de cada um que vai sendo ampliada à medida das possibilidades financeiras da família e, claro, os locais de encontro que são os pequenos e criativos espaços públicos implantados nos remanescentes da ocupação irregular.

Paraisópolis, por exemplo, objeto de dezenas de estudos acadêmicos. É possível considerar ‘periferia’ um bairro com 100 mil habitantes, encravado em um dos distritos de maior renda da cidade, que se diferencia pela sua história de lutas e resistências às tentativas de remoção das famílias? Um bairro que abriga dezenas de movimentos artísticos que vão desde produções de street art, passando por uma orquestra sinfônica, até o maravilhoso Ballet de Paraisópolis, reconhecido internacionalmente e que introduz crianças e adolescentes no universo da dança clássica.

Centenas de bairros, localizados a distâncias de trinta ou quarenta quilômetros da região central, e que tem uma vida cultural, caracterizada pela excelência de seus artistas, organizados em grupos, coletivos e outras formas de expressão dessa produção, devem ser incluídos nessa questão: serão eles bairros ‘periféricos’?

E, ‘periféricos’ do ponto de vista de quem? Talvez daqueles, que encastelados nas suas salas de estudo, nunca tenham conhecido ou até ouvido falar da excelência da produção da Casa do Zezinho, no Campo Limpo; dos coletivos de rap da Cidade Tiradentes, da orquestra sinfônica de Heliópolis, entre outros exemplos que demonstram a dispersão da produção cultural pelos bairros da cidade, com milhares de artistas, agrupados ou não em coletivos ou em casas que recebem essas manifestações, mas raramente representados nos espaços tradicionais da arte contemporânea.

É necessário ainda falar sobre a capacidade empreendedora dos moradores dos bairros mais pobres, que vem abandonando, se é que em algum momento acreditaram, na possível tutela do estado. Só em Paraisópolis são oito mil estabelecimentos comerciais, a maioria botecos, barracas de roupas ou pequenas mercearias sem registro de funcionamento; lojas de material de construção, supermercados e padarias de médio ou grande porte; o número impressionante de 230 salões de cabeleireiros e quatro academias de ginástica.

Oito mil estabelecimentos comerciais! E continuamos classificando Paraisópolis e os bairros mais pobres e distantes como ‘periféricos’.

A análise da vida cotidiana de qualquer um dos bairro mais distante, mostra a efervescência das atividades econômicas, desde pequenos comércios de mercadorias de primeira necessidade, passando por serviços de atendimento ao público como os salões de beleza, os primeiros na escala de prioridade, seguidos dos serviços de delivery e quantos mais sejam necessários para atender a demanda que parece infindável.

Até mesmo no enfrentamento das possíveis dificuldades do dia a dia, como no acesso aos serviços públicos, a criatividade empresarial impera: serviços de vans escolares oferecem facilidades aos moradores, clínicas populares de médicos e dentistas surgem a cada dia e, mais recentemente, serviços de escritórios de arquitetura oferecem projetos e reformas rápidas e de baixo custo. Sucesso nos bairros onde são implantados, a oferta de um serviço da reforma rápida mas planejada e de baixo custo, ganha a cada dia uma nova clientela, mostrando que os arquitetos podem ampliar seu mercado, quando oferecem soluções simples e rápidas, bem distantes do imaginário da profissão, que se caracterizou ao longo da história, como a serviço da elite ou do estado.

Com a marca do empreendedorismo e da superação de obstáculos, principalmente  frente a uma legislação arcaica, exclusiva e elitista, os bairros mais pobres se  constituíram à margem da legislação de uso e ocupação do solo e dos códigos de obras  e, continuam sendo classificados como ‘periferia’. E, chegou a hora de nos perguntarmos porque continuamos a utilizar tal conceito para definir essa imensidão territorial ocupada pelos bairros onde vive a população urbana de mais baixa renda.  Uma pergunta difícil de responder, mas que talvez justifique a incapacidade dos profissionais da cidade, os planejadores e afins, de elaborar e implantar propostas que supram as carências dessas regiões, o que, a princípio, não requer muita capacidade técnica.

Afinal, o que falta nos bairros chamados ‘periféricos’, para que sejam elevados à condição de ‘não periféricos’ ou seja lá como poderiam ser classificados após superarem sua condição inicial? O que diferencia o centro da ‘periferia’? Mais ou menos infraestrutura, mobilidade urbana disponível para ir e vir e oferta de empregos à disposição, nada além.

Sendo assim, não seria mais fácil, traçarmos metas de atendimento às carências dos bairros  ‘periféricos’ ou então elaborarmos planos de desconcentração da oferta de empregos para mais bairros além da região central? E, em se falando em oferta de empregos, até quando continuaremos considerando as oportunidades de empregos na região central, as únicas possíveis na cidade? Não vislumbramos como um futuro próximo, criações de novos empregos no quarto setor, localizados em outros locais além do centro tradicional?

Porque não podemos programar para os próximos anos a criação de polos criativos nos maiores bairros ‘periféricos’ da cidade, como Paraisópolis, Heliópolis, São Francisco, Cantinho do Céu e tantos outros que já demonstraram serem capazes de construir e conduzir novas formas de produção do espaço urbano?

Chegou pois o momento ou já passamos do tempo de superamos essa forma arcaica de conceituar e planejar a cidade. No século XXI não existe centro e periferia, somos todos uma cidade, integrada por dezenas e até centenas de territórios que se formaram ao longo dos anos e que incorporaram esforços de seus moradores, à margem da participação dos governantes.

Poucos são aqueles que foram privilegiados pela oferta de serviços públicos e acesso aos melhores serviços, os território daqueles mais privilegiados onde vivem, na maior parte dos casos, os planejadores; outros tantos bairros, não dispuseram dessa condição privilegiada, mas seus moradores não se intimidaram com o esquecimento do poder público e com a coragem que os caracteriza e o espírito empreendedor que os qualifica, foram construindo casas, comércios e serviços de primeira necessidade. Falta-lhes apenas receber um parte que lhes cabe na divisão do orçamento público, a melhoria dos serviços de mobilidade urbana, a infraestrutura pública em especial a universalização do saneamento básico  e, não menos importante o acesso a empregos qualificados.

Portanto planejadores, a hora é chegada! Temos o Congresso Mundial de Arquitetos, que será realizado em 2020, no Rio de Janeiro. Vamos mostrar ao mundo que a arquitetura e o urbanismo, depois de décadas de arcaísmo, exclusão e uma visão elitizada dos territórios mais pobres, entra em uma nova era em relação ao entendimento das cidades. Essa era será construída a partir não apenas da escuta dos moradores, mas da adoção de suas competências na elaboração de planos e projetos. E, que nos sirva como exemplo, o que o seu João, morador antigo do Cantinho do Céu, respondeu quando um professor se referiu ao bairro como periferia: ‘professor, levei duas horas para aqui chegar (na escola de arquitetura), para mim isso aqui é que é a periferia’.

 

Elisabete França é arquiteta e trabalha desde os anos 80 na divulgação da arquitetura como criadora de espaços urbanos inclusivos

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