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Arte e cultura 23.05.2018 — 6:03 am

Burrice humana e inteligência artificial

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

A burrice como barreira para a inteligência artificial. Para não ser indelicado, notadamente nesta Esquina sempre tão simpática, adianto que, por burrice, entenda-se teimosia. Até porque, por ora, quem desenvolve a inteligência artificial somos nós, os humanos – ou alguns dos nossos pares mais inteligentes.

A notícia que sacudiu o setor neste início de maio foi o êxito do Google Duplex no Teste de Turing. Conforme afirmou John Hennessy, ex-presidente da Universidade de Standford e membro do conselho da Alphabet, holding que controla o Google, o robô se provou capaz de fazer por telefone uma reserva em um restaurante. É a segunda vez na história, desde que o matemático britânico e pai do computador Alan Turing criou o teste, nos anos 1950, que um computador passa na prova. O primeiro foi o robô Eugene Goostman (homem fantasma?), que simula um garoto de treze anos trocando mensagens de texto. No Brasil chamar-se-ia Gasparzinho 🙂

De carona com o Duplex recebemos outras duas grandes novidades. Dentro de alguns meses, na cidade de Phoenix, a Waymo, também controlada pela Alphabet, deve começar uma operação semelhante a do Uber, só que em carros autônomos, isto é, sem motorista. E o Google Assistant anunciou uma função que permite ao usuário encomendar um café na Starbucks.

Voltemos, pois, ao Duplex. O que ninguém informou é quem avisa o robô onde, quando e com quantas pessoas o ser humano pretende jantar. Suponho que seja o próprio ser humano e, em se tratando de jantar fora, embalado por seus instintos mais primitivos: fome, amor, sociabilidade.

Daí que me pergunto por que não informar diretamente à pessoa do outro lado da linha ou mesmo um robô do próprio restaurante.

Entendo, é claro, que é só um teste. E que seria muito bom ter um robô para falar com os robôs que os bancos, telefônicas e outras empresas já usam para falar com a gente, frequentemente nos levando à loucura, ainda que, neste quesito, ainda estejam muito distantes dos operadores de telemarketing. Mas continuo me perguntando se melhor não seria que os bancos, telefônicas e outras empresas se empenhassem no princípio de fazer a nossa vida mais fácil, e não mais difícil.

E é aí que entra a teimosia – ou a burrice – humana. Minha geração é divertida. A gente se conhece pessoalmente e imagina uma possibilidade de relação. Então trocamos algumas mensagens por Whatsapp para combinar data e horário para um “call” via Skype. Data e horário definidos, chega um e-mail para confirmar que haverá o “call”. Este que, se exitoso, nos levará a uma reunião presencial, provavelmente numa loja da Starbucks. Nossa prosperidade tecnológica parece estar transbordando.

Enquanto isso, numa cidade como São Paulo, o abastecimento de água e energia ainda depende da presença física de um funcionário para conferir o consumo e ligar ou desligar o fornecimento.

Das perguntas expostas ante o anuncio das inovações, duas se destacam. A primeira, tão humana, é a financeira. E a Alphabet explica: “com o Assistant, por exemplo, podemos ganhar na intermediação da compra do café.” Fico até emocionado. Descendo de agricultores e corretores de café que talvez nunca tenham imaginado em faturar na corretagem no estágio da xícara.

A outra questão é ainda mais humana, porém esquecida nos últimos tempos: ética. Nos testes, os humanos do outro lado da chamada pareceram nem desconfiar que falavam com um robô – exatamente como já acontece com telemarketing, inclusive com vozes de celebridades, que importunam possíveis clientes sob a lógica de que, por ser tão barato, compensa incomodar 99 pessoas para ganhar um freguês.

E há também a questão da privacidade, que apesar da voga atual, passou ao largo da apresentação. É claro que o seu cartão de crédito já sabe, usa e vende os dados sobre os seus hábitos de consumo. A novidade aqui é que o robô do Google promete ser ainda mais eficiente – e perigoso.

Puxando brasa para a minha sardinha deixo a questão derradeira: quantos filósofos integram o conselho da Alphabet?

 

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

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