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Arquitetura 21.05.2018 — 8:15 am

Perret: genealogia do modernismo em SP

Fernando Silveira / FAAP
Planta original do edifício do Museu de Arte Brasileira, projeto de Auguste Perret
Marcos de Oliveira Costa é arquiteto formado pela FAU Mackenzie com mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas pela FAU USP e coordenador e docente do curso de Arquitetura da FAAP -SP

Até o próximo dia 27 de maio será possível conhecer um pouco mais sobre um dos pioneiros da Arquitetura Moderna: o arquiteto Auguste Perret. A FAAP montou uma exposição sobre o edifício projetado por Perret, e que hoje abriga o MAB, Museu de Arte Brasileira, e a FAP, Faculdade de Artes Plásticas.

Ainda no século XIX, Perret foi um dos primeiros a utilizar o concreto armado como material arquitetônico. Junto com seus irmãos Gustave e Claude, ele começou a explorar as possibilidades estruturais do novo material em edifícios como o da Rue Franklin em Paris. Simultaneamente, sua obra sempre teve forte presença do ordenamento clássico, algo especialmente marcante no edifício da FAAP. A expressividade da estrutura sempre foi um dos aspectos mais importantes para Perret. Na exposição é possível ler um trecho de uma conferência de 1933, na qual ele afirmou:

“Se a estrutura não é digna de se apresentar inteiramente, o arquiteto não conseguiu cumprir sua missão. A arquitetura é a arte de fazer cantar o ponto de apoio.”

Esta rigorosa afirmação de princípios ajudou a consolidar as bases sobre as quais a arquitetura modernista se ergueu. Passaram pelo seu estúdio inúmeros arquitetos em busca de conhecimentos sobre o modernismo. O mais notável deles foi Le Corbusier, um dos mais influentes arquitetos do século XX. Foi fundamental para a arquitetura brasileira, a fecunda relação que a escola carioca estabeleceu com Le Corbusier. Lucio Costa, Reidy, Niemeyer, entre outros, trabalharam com Le Corbusier quando este veio ao Brasil para desenvolver o projeto do edifício do Ministério da Educação e Saúde. A influência do modernismo não ficou restrita ao Rio de Janeiro, ela se espraiou por todo o Brasil.

Em São Paulo o movimento moderno é marcante na paisagem da cidade. Os princípios pioneiros de Perret podem ser vistos em diversos marcos da paulicéia desvairada. Desde o século XIX, com a chegada do trem, São Paulo pode se utilizar da novas tecnologias construtivas industrializadas. A Estação da Luz e o Teatro Municipal Ramos de Azevedo são alguns exemplos deste período.

A partir dos anos 20, o uso do concreto armado se disseminou por toda a cidade. E os arquitetos de São Paulo começaram a adotar a linguagem modernista, cujo precursor foi Perret. Construções que buscavam clareza estrutural ao deixar sua ossatura exposta, separada dos elementos de vedação. O magnífico edifício Esther, de Álvaro Vital Brasil e Adhemar Marinho, o Cine Ipiranga, de Rino Levi, o edifício Lausanne, de Adolf Franz Heep, são exemplos do vasto acervo modernista da arquitetura paulistana. Niemeyer também precisa ser lembrado, pois suas obras são excelentes exemplos desta arquitetura que fazia da estrutura de concreto armado, a expressão da beleza e da surpresa. O edifício Copan e o conjunto do Ibirapuera se transformaram em cartões-postais da cidade de São Paulo.

Fernando Silveira / FAAP

Exposição sobre Auguste Perret, em cartaz no edifício do Museu de Arte Brasileira, projetado por ele

Fernando Silveira / FAAP

Exposição sobre Auguste Perret, em cartaz no edifício do Museu de Arte Brasileira, projetado por ele

 

Um dos principais expoentes da escola paulista, o Arquiteto João Vilanova Artigas, foi profundamente influenciado pelas obras e ideias de Perret. Seu edifício Louveira, vizinho ao edifício da FAAP, promove um diálogo urbano entre os dois grandes arquitetos. Uma relação cheia de divergências, é verdade, mas onde também é perceptível um tênue cordão que os une.

Esta, talvez, a forma mais rica de ler a exposição no MAB FAAP. Olhar para Perret, e sua obra, como parte dos alicerces sobre os quais a paisagem da cidade de São Paulo foi gradativamente construída. Um mestre ancestral que temos a oportunidade de conhecer melhor, até para descobrirmos nossas próprias origens.

Fernando Silveira / FAAP

Estudo de Athos Bulcão para painel no Museu de Arte Brasileira


Ficha Técnica:

Exposição “Abrindo arquivos: o arquiteto Auguste Perret e o projeto para o Museu da Faap”, curadoria de Maria Cristina Wolff de Carvalho e Francisco Barros. MAB Faap – mezanino, Rua Alagoas 903, Higienópolis, São Paulo. 18 de abril a 27 de maio de 2018, segunda, quarta, quinta e sexta-feira, das 10h às 19h (última entrada às 18h); sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h (última entrada às 17h); fechado às terças-feiras, inclusive quando feriado.

 

Marcos de Oliveira Costa é arquiteto formado pela FAU Mackenzie com mestrado em Estruturas Ambientais Urbanas pela FAU USP e coordenador e docente do curso de Arquitetura da FAAP -SP. Atua desde 1995 na área de Projeto de Edificações e Urbanismo. Faz parte do escritório Borelli & Merigo que atua nos mais diversos setores de urbanismo. Seu currículo engloba o projeto de revitalização da Praça Roosevelt em São Paulo, edificações governamentais e projetos que valorizam os conceitos de sustentabilidade e de humanização.

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