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História e Patrimônio 11.05.2018 — 6:31 am

Delírios Psicodélicos: Cracolândia, Campos Elíseos e Higienópolis

Antiga Rodoviária da Luz. Acervo Biblioteca FAU USP
Paula Janovitch é mestre em Antropologia e doutora em História. Foi pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo. Participa do coletivo Escutando a Cidade, do PISA: pesquisa + cidade e é autora do blog Versão Paulo

A área da antiga rodoviária de São Paulo, no Campos Elíseos, por algumas décadas tornou-se um terreno vago. Ali, naquele vazio rodeado de casarões antigos, tendo a Estação de Trem Sorocabana a frente e a introvertida Sala São Paulo como vizinhas, a extensa área virou um terreno baldio. Para quem passava por ali, até meses atrás, havia um campo de futebol, onde também era frequente uma outra presença que tomou aquele território, a conhecida Cracolândia.

Escola Americana anuncio no Almanach Provincia de SP 1888

Inúmeros projetos surgiram na imprensa anunciado novas ocupações para o terreno da antiga rodoviária desativada nos anos 80 e depois ocupada por um shopping. Se não me falha a memória, um dos projetos mais recentes seria um complexo cultural da Luz. Frequentes foram as operações para higienizar a área “doente”. Vejam que nos últimos anos a imprensa se aliou ao Estado e reforçou a imagem do território doente. Nesta inversão de pegar a parte pelo todo, Campos Elíseos desapareceu das referencias do lugar, passamos a reconhecer o território como “cidade do crack”, exclusivamente Cracolândia, um lugar extremamente difícil e perigoso. Eliminar a doença, limpar o território, normatizar os espaços vagos é uma articulação recorrente e bem sucedida desta histórica união do Estado com a especulação imobiliária e os meios de comunicação.

Depois de anos, aquele terreno vazio, antigo local de partidas e chegadas, a rodoviária de acrílico, o nosso sonho psicodélico, foi preenchido rapidamente por vários prédios sem identidade alguma, poderiam estar em qualquer lugar da cidade. Uma outra população de moradores desta utópica “nova Campos Elíseos” vai ocupá-los em breve. A quadra 36, a qual estão sendo expulsas famílias que moram há décadas no bairro de Campos Elíseos, também parece revelar um outro traço bastante interessante desta normatização do espaço. Dentre muitas ações históricas do Estado para valorizar um território, a introdução de um equipamento hospitalar, no caso, o futuro Pérola Byington , é sem dúvida uma maneira de valorizar uma região e eliminar aquilo que sintomaticamente tomou o lugar como uma representação da doença e da fragilidade de sua mobilidade errante, o “fluxo”. Nada melhor do que limpar o lugar da doença com um complexo da saúde.

Edifícios localizados onde foi a antiga rodoviária de São Paulo. Terreno baldio foco de disputas

Impossível não lembrar que o início da ocupação de Higienópolis, há mais de um século, deu-se com equipamentos estratégicos de valorização de um território que no final do século XIX era considerado muito distante do centro. Dentre institutos educacionais como o atual Mackenzie e novos arruamentos, a implantação da Santa Casa da Misericórdia foi fundamental neste plano “feliz de cidade saudável ” para se efetivar o deslocamento da elite paulistana. Sem a presença da Santa Casa, a distante região do Pacaembu, em tupi-guarani “terras alagadas”, nunca se tornaria a nobre cidade da higiene, a glamourosa Higienópolis. Boa viagem a todos!

Procissão Fórum. Teatro do Faroeste

 

Para saber mais:

São Paulo Antiga – Terminal Rodoviário da Luz– (http://www.saopauloantiga.com.br/o-terminal-rodoviario-da-luz-em-16-fotos-coloridas/)

No site da São Paulo Antiga, um interessante post recupera imagens da antiga rodoviária da Luz. Neste texto ficamos sabendo que o projeto da Rodoviária num primeiro momento foi pensando para ser no Parque da Luz. Outro dado interessante  é que as pastilhas coloridas internas  da nossa rodoviária psicodélica da Luz, podem ser vistos ainda hoje na fachada do Jornal Folha de São Paulo. Otávio Frias  foi um dos construtores da  antiga rodoviária.

Descontruíndo a Luz–  (http://internacional.estadao.com.br/blogs/olhar-sobre-o-mundo/desconstruindo-a-luz/ )  matéria publicada no Estado de São Paulo na época da demolição da rodoviária. O ensaio fotográfico da desconstrução é maravilhoso. Não poderia deixar de compartilhar com vocês.

Fórum Aberto Mundaréu Luz  (https://www.facebook.com/ForumMundareuDaLuz/ )  em defesa da permanência dos moradores no Campos Elísios. O Fórum elaborou um projeto de habitação para o Campos Elíseos, assim como equipamentos para o entorno, onde permanecem os moradores e se preservam os imóveis antigos da região. Vale a pena conhecer melhor o Fórum. Foi ele o responsável pela procissão que começou no Teatro do Faroeste, em que os atores, vestidos de branco e com extintores, higienizavam em tom de paródia  toda a região em risco  com água perfumada.

 


Paula  Janovitch
é mestre em Antropologia e doutora em História. Foi pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo. Uma das autoras do guia “Dez roteiros históricos a pé em São Paulo ( Narrativa Um) : Os segredos das passagens, percurso pelas galerias do Centro Novo”. Nos últimos anos vem desenvolvendo pesquisas, percursos e projetos em São Paulo com urbanistas, psicanalistas e artistas.  Participa do coletivo Escutando a cidade e do PISA: pesquisa + cidade.  É autora do blog Versão Paulo.

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