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Planejamento 09.05.2018 — 6:07 am

O que a comparação com outras cidades revela sobre as nossas

Alvaro Puntoni é arquiteto, doutor e professor pela FAU USP. Leciona na Escola da Cidade e é sócio do escritório GrupoSP

Como nos lembra o psicanalista Thales Ab’Saber, o Brasil é expert aqui na “produção mais comum da cidade ruim de todos os dias”. Difícil enumerar  nos dedos de uma mão cidades exemplares (ou apenas belas) em nosso país. O que mais temos são cidades estruturalmente pobres, sem urbanidade em todos os sentidos, desprovidas de qualquer cuidado. Basta lembrarmos em nossas andanças das cidades sem árvores, sem sombras e sem calcadas, tão comuns em nosso interior.

Soma-se a este déficit de cuidado um dado interessante: poucos ou nenhum dos aproximadamente 400 cursos de arquitetura e urbanismo em nosso país versam sobre temas relacionados ao desenho urbano. Temos, é verdade, muito planejamento urbano, mas pouco se trata do desenho efetivo (e afetivo) da cidade. Dificilmente um estudante de arquitetura se dedica a estudar, analisar  e ensaiar projetos de infraestrutura urbana como calçadas, mobiliário urbano, estares urbanos… Desta forma, é possível aferir em nossas cidades a ausência total de qualquer desvelo mínimo sobre os espaços públicos. Enquanto desproporcionalmente tudo aquilo que fica para dentro, fora do alcance de nossos olhos, é feito com o maior esmero possível.

Podemos dizer que vivemos em cidades invertidas.

Não existe em nossas urbes o conceito da gentileza urbana. Se andamos em Amsterdam, por exemplo, vemos que os vasos de flores nas janelas dos apartamentos no nível da rua que estão ofertados para o pedestre que transita na calçada e não para a sala para qual a janela se volta. Em nossas cidades temos invariavelmente um muro cego, coroado por cercas elétricas, concertinas de inox ou cacos cortantes de vidro, que blindam os olhares e corpos, ou temos, no máximo, uma planta dotada de espinhos, pouco amistosa. Nossas ruas são o espaço do esquecimento.

Enquanto estamos por aqui tentando abrir “clareiras em nosso inferno”, destacam-se experiências bem sucedidas em outras cidades do mundo, sejam nos países centrais, ou mesmo em nosso continente americano.

Parecem muito encantadoras as experiências realizadas pela Agência de Ecologia Urbana de Barcelona (BCNecologia), coordenada pelo biólogo e psicólogo (mas não por isso menos urbanista) Salvador Rueda.  Desta podemos destacar a Supermanzana (Espaço público, mobilidade e acessibilidade no bairro de Gracia, em Barcelona) ou “superquadras”. Assim como as de Brasília (sua provável inspiração)  a superquadra catalã  seria constituída por 9 quadras típicas (do Eixample) de Barcelona que perfazem um quadrado  de 400X400 metros. A partir de uma hierarquização do transito, os carros podem apenas circunvalar este espaço e não cruzá-lo. No interior deste espaço apenas ingressam os veículos de moradores e serviços a uma velocidade máxima de 10Km/h.

Desta forma as ruas se transformam integralmente em calçadas e voltam aos pedestres e ciclistas, reduzindo os níveis de ruído, ampliando as possibilidades de atividades comerciais e culturais, permitindo uma nova arborização e o redesenho do chão urbano. As críticas iniciais de que a cidade morreria sem os automóveis foram caladas com o sucesso da iniciativa e o enriquecimento da vida urbana nas ruas reanimadas.

Para esta mesma cidade, o BCNecologia redesenhou o sistema de transporte público de ônibus, a partir da adoção de uma rede ortogonal, evitando com que os veículos tenham que passar necessariamente pelo centro da cidade, homogeneizando o território urbano com um sistema integrado, muito similar ao de Nova York.

A partir destas experiências a cidade de Quito, Equador convidou a agencia catalã de Salvador Rueda para fazer um estudo para revitalizar o centro histórico de Quito que já é um caso à parte em todo nosso continente. A ideia era mesclar ali tanto a questão da rede ortogonal de ônibus como os conceitos da superquadra, redesenhando a mobilidade urbana neste espaço singular da urbe andina.

Como se sabe o centro histórico da capital do Equador é considerado patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO. Suas ruas estavam, no entanto literalmente tomada por  comerciantes  informais (foram contabilizados mais de 7000 nos levantamentos realizados). As ruas eram inteiramente cobertas por telhados eclipsando toda a arquitetura colonial, assim como o céu, transformado a cidade em um edifício caótico.

Foi iniciado um processo em 1996 de levantamento, informação e relocação destes vendedores de forma totalmente pacifica e consensual, desvelando e requalificando esta importante área da cidade, que foi revitalizada e revalorizada em todos os seus aspectos. Para se ter uma ideia do envolvimento da população e da criatividade envolvida neste processo, até estudantes de escolas publicas foram convocados para mapear metro por metro quadrado do centro para contabilizar os chicletes grudados no pavimento que seriam depois removidos um a um, resgatando a dignidade do espaço público quitano.

Outra cidade da América do Sul que vem adotando boas práticas urbanas é nossa vizinha Buenos Aires. Em 2016 foi lançado o Manual de Desenho Urbano do espaço publico da cidade de Buenos Aires. Trata-se de um instrumento de uniformização de projetos e padronização dos equipamentos urbanos capazes de urdir a transformação do espaço público e da imagem urbana a partir de procedimentos. Já faz algum tempo que a cidade platina vem cuidando de forma comprometida e gradual com as melhorias dos espaços de todos os cidadãos, fazendo de sua cidade uma referencia para nosso continente.

Impossível não destacar as transformações urbanas nas cidades colombianas, pautadas pela inteligência e sensibilidade frente as limitações e a escassez de recursos. Se Bogotá no inicio deste século se sobressaiu com as sucessivas administrações municipais que modificaram a cidade com a implantação do Transmilênio, retirada do estacionamento de veículos nas ruas, ampliação das ciclovias, construção de bibliotecas…. É a cidade de Medelín que definitivamente vem se tomar em uma referência global de transformação urbana.

Marcada por uma ocupação informal em ambas encostas do vale do rio que atravessa longitudinalmente toda a acidade e por guerras travadas por paramilitares e traficantes que geravam um clima de enorme insegurança urbana, a cidade sofre um um profundo processo de pacificação e transformação que se consolidam com a bem-sucedida fusão das instituições publicas e a universidade, gerando polos de pensamentos que vão redesenhar e reconectar as fissuras sociais e urbanas deste lugar.

Experiências como as bibliotecas-parques, verdadeiros monumentos da cidadania e da inteligência coletiva, aliados a equipamentos de infraestrutura urbana e mobilidade, que aproximam os cidadãos e revelam o prazer em vivenciar os espaços públicos, tornam esta cidade na capital da esperança deste continente marcado pela injustiça social e desigualdades que fazem de nossas cidades desertos de ideias razoáveis e minimamente urbanas.

Enquanto todas as mais importantes cidades do mundo discutem e implementam a redução da velocidade dos veículos automotores individuais, geradores de poluição sonora e ambiental, além de acidentes fatais, estamos aqui, na cidade de São Paulo, por exemplo, celebrando a elevação da velocidade nas marginais.

Movimentos notáveis como o 20’s Plenty for Us que surgiu no Reino Unido em 2007, trabalham arduamente em campanhas publicas para sensibilizar governos e a sociedade pela adoção da velocidade máxima de 20 milhas ou aproximadamente 30km/h nas cidades, para melhora de forma absoluta a vida de todos. Atualmente mais de 40 cidades britânicas adotam esta velocidade em áreas especificas ou em toda a cidade, como o centro de Londres, que além desta medida civilizatória discute agora a implantação do pedágio urbano para toda urbe londrina.

Finalmente vale a pena destacar o trabalho da Design Trust for Public Space de Nova York, responsável pela condução do processo que culminou na implantação do High Line, por exemplo. Trata-se de uma incubadora de ideias que tem por objetivo transformar e desenvolver a paisagem urbana em todos os níveis e setores possíveis a partir da sensibilização comunitária e de um desenho inteligente.

Da mesma forma que foram feitos os estudos (em pareceria com o Friends of the High Line) para convencer a manutenção do elevado (destinado originalmente a circulação de trens) abandonado e a adoção do projeto pelo prefeito Bloomberg, o Design Trust esta levando a cabo neste momento um estudo das áreas residuais situadas sob os elevados rodoviários e ferroviários da cidade de Nova York que somam mais de 1.000 km. O projeto denominado “Sob o Elevado” (Under the Elevated: Reclaiming Space, Connecting Communities) visa transformar estes espaços desqualificados em espaços públicos dotados de sentido e  animados pela vida urbana. Alguns protótipos de ocupação e  renovação foram realizados e agora o projeto pretende ingressar em uma segunda fase mais decisiva e ambiciosa de efetiva transformação destes espaços.

Curiosa e altruisticamente, o Design Trust fala em repensar estes espaços no mundo todo. Duas boas lembranças para as nossas cidades que ainda insistem em manter estas estruturas aéreas (apesar do corajoso e notável exemplo carioca de remoção do elevado que desfigurava a área portuária e principalmente o centro da cidade) e se olvidam que a questão é tanto no plano superior como, principalmente, no plano inferior onde a cidade submerge na sombra gerada pela ausência continua do sol, além da inexistência de arvores e da contaminação advinda dos veículos.

Existem muitas outras experiências e manifestações da inteligência num universo marcado pela leniência e falta de clareza, afinal de contas a cidade é apenas um detalhe, apesar de ser tudo o que nos resta. Mas definitivamente parece que ingressamos num processo que deverá ser inexorável de necessária transformação de nosso habitat neste mundo. Caso não sejamos capazes disto, não seremos capazes de mais nada, pois simplesmente a manutenção de nossas cidades significará nossa manutenção no plano da inteligência deste universo.


Alvaro Puntoni
é arquiteto, doutor (2010) pela FAUUSP, onde leciona desde 2002. Sócio fundador e Coordenador pedagógico e Coordenador da pós-graduação Geografia, Cidade e Arquitetura da Escola da Cidade. Mantém o escritório GrupoSP arquitetos

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