*

Meio ambiente 07.05.2018 — 7:41 am

Por que as mudas de árvores morrem na metrópole?

Ricardo Cardim é mestre em Botânica pela USP, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística e idealizador das Florestas de Bolso para o retorno da Mata Atlântica no meio urbano

Nas últimas décadas aumentou sensivelmente o número de árvores plantadas na cidade de São Paulo por força de medidas de compensação ambiental e políticas públicas de arborização. Tornou-se comum, para quem observa árvores, ver alças de acesso, praças, parques e canteiros centrais repletos de mudas de árvores finas e compridas, com altura média de 2 metros.

São mudas dentro de um padrão exigido pela Secretaria do Verde, popularmente conhecido como “padrão DEPAVE”, e custam em média 150 reais em viveiros. A cidade está cheia delas, prometendo a esperança de uma cidade mais verde e melhor para se viver.

Entretanto, é interessante notar que, após plantadas na cidade, muitas dessas mudas parecem que simplesmente não crescem, ficam estagnadas, sofridas. E outro tanto significativo simplesmente seca e morre, se transformando em um graveto retorcido. Poucos percebem esse problema silencioso, e quando há algum tipo de justificativa oficial a culpa é geralmente de supostos “atos de vandalismo”.

Mas a chave para o mistério da morte e estagnação maciça dos plantios na cidade de São Paulo é muito simples, embora insuspeita. Para descobri-lo basta olhar na base do tronco da muda, o que chamamos de “colo”. O que se vê invariavelmente é um tronco com inúmeras marcas de cicatrizes, buracos e cascas brutalmente arrancadas, às vezes em toda a circunferência, dando um aspecto de uma grave doença.  

Lesao em tronco por rocadeira, em São Paulo

A origem dessas lesões severas são relacionadas diretamente com a existência de grama nos pés da muda e os equipamentos usados para seu corte. No Brasil, a maior parte dos gramados são podados com “roçadeiras”, máquinas com fios de nylon ou lâminas que em movimentos circulares cortam as folhas da grama. Durante o corte, o operador da roçadeira busca eliminar todas as folhas de grama alta em volta do tronco da árvore para um resultado estético, e nesse ato, o instrumento de corte encosta no tronco e invariavelmente arranca porções generosas ou toda a casca, provocando profundas feridas.

Muda protegida em Buenos Aires

Isso é especialmente grave porque a casca da árvore é o local de passagem da seiva, que alimenta a planta, e quando interrompido por uma ação mecânica, é como se o sangue não circulasse mais em nossas artérias. Em botânica, esse procedimento de remoção da casca para a morte da planta é conhecido como “Anel de Malpigh”. E quando não ocorre em toda a extensão da casca e mata a muda, a deixa estagnada, em “coma” pela pouca passagem de seiva no remanescente de casca e forte empenho da planta em cicatrizar a ferida – o que dificilmente ocorre pelo grande periodicidade de cortes.

A prevenção para esse problema é muito simples e barata, já adotada em cidades como Buenos Aires, e consiste em um pedaço de cano largo de PVC com uns 20 cm de comprimento, serrado longitudinalmente, colocado em volta do tronco e fixado ao solo por uma haste de metal que recebe os cortes da roçadeira e salva o precioso tronco da muda.

E a questão é tão séria, que na cidade de São Paulo, em minha opinião, não adianta mais plantar árvores sobre gramados enquanto não houver como medida obrigatória a instalação desse simples artifício do cano protegendo o colo da muda. Só assim, essas mudas que custam caro e nos enchem de esperança vão poder cumprir seu papel esperado.

Outra lesão em tronco por rocadeira

 

 

Detalhe da lesão

 

 

Ricardo Cardim é mestre em Botânica pela USP, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística e idealizador das Florestas de Bolso para o retorno da Mata Atlântica no meio urbano

Tags:, , , , , ,

Bitnami