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Espaços Públicos 04.05.2018 — 7:59 am

Uma revolução urbana chamada Jane Jacobs

Lincoln Paiva é especialista em planejamento (Poli/USP), mestre em arquitetura (FAU/Mackenzie) e diretor da consultoria Green Mobility


“Este livro é um ataque aos fundamentos do planejamento urbano e da reurbanização ora vigentes.”

Foi com esta frase que Jane Jacobs iniciou seu livro “Morte e vida de Grandes Cidades”, que viria revolucionar o urbanismo mundial. O livro lançado em 1961 foi considerado radical na época, mas hoje é a “Biblia” dos urbanistas e planejadores de mobilidade para construção de cidades mais humanas e seguras. Jane Jacobs completaria 102 anos nesta semana, ela foi mãe, jornalista, editora e considerada por muitos especialistas do calibre de Jam Ghel, Saskia Sassen, Richard Sennet, David Harvey e pela revista de urbanismo Planetzen como a urbanista mais influente de todos os tempos. Neste final de semana, a programação especial Jane’s Walk acontece em São Paulo, Rio de Janeiro e diversas cidades do mundo para celebrar sua trajetória.

De fato, a autora, que sem nenhuma formação em arquitetura ou urbanismo, conseguiu convencer seus vizinhos a resistirem à construção de uma via elevada que cortaria uma praça e destruiria o bairro onde morava com a família, para ela estava claro, aquele tipo de urbanismo destruidor iria trazer mais carros e acabar com a qualidade de vida das pessoas. Numa época em que construir, ruas, avenidas e estradas para acomodar mais automóveis era sinônimo de modernidade, Jacobs foi na contramão do que se confirmou uma tendência, previu que o futuro das cidades estava em jogo. Todas as suas previsões se confirmaram desde então.

Se Nova York é hoje a cidade mais caminhável dos EUA, muito se deve ao ativismo urbano de Jane Jacobs. Nos anos de 1960, ela literalmente salvou bairros inteiros da demolição, sua vida foi uma lição fundamental do exercício da cidadania para as gerações futuras, sim, o exercício da cidadania requer o trabalho voluntário em benefício da comunidade, o direito de manifestar-se e ser ouvido pela gestão pública.

“Escute Robert Moses, ouça se puder
É sobre o nosso bairro que você está tentando condenar
Nós não vamos ficar sentados e assistir nossas casas serem derrubadas
Então, pegue a sua superhighway e coloque-a fora da cidade…”

Refrão da letra “Listen, Robert Moses” composta por Bob Dylan para Jane Jacobs.

Um dos embates mais memoráveis de todos os tempos no campo do ativismo urbano foi entre Jane Jacobs e Robert Moses, o engenheiro mais poderoso dos EUA e responsável pelos projetos urbanos de Nova York, cujo lema era construir, construir… O conflito que renderia uma prisão para Jane Jacobs, mas que no final da luta, ela venceria com a paralização de várias obras viárias projetadas por Moses em Nova York.

O livro “Morte e Vida de grandes Cidades” vai abordar a importância das calçadas largas para a vida saudável dos bairros, cuja consequência fariam as pessoas andarem mais pela vizinhança, culminando no que ela costumava descrever como: “criar os olhos da rua”, quanto mais gente nas ruas, mais seguras elas seriam. Segundo a autora, o contato entre vizinhos, a integração das crianças com a cidade, os usos mistos, as conexões com parques e os espaços públicos seriam os elementos que trariam mais vitalidade para os bairros.

Jacobs apontava para a importância dos geradores de diversidade que seriam obtidos através da construção de quadras curtas, da necessidade da alternância entre prédios antigos e novos, do aumento da densidade, dos usos principais e combinados para criarem dinâmicas mais interessantes aos bairros incentivariam com que as pessoas andassem por mais tempo e por mais lugares. Desta forma, os geradores de diversidade seriam capazes de recuperar cidades inteiras através da ocupação de áreas vazias, das novas formas de empreender através da produção do espaço mais sustentável e da proteção da vizinhança contra gentrificação.

Jacobs também mostrou a importância do uso de estratégias e das táticas inovadoras para evitar o fenômeno da gentrificação, tais como a subvenção de moradias e o uso de ferramentas para simples para renovação urbana calcadas na redução da circulação de automóveis, na melhoria da paisagem urbana, no desenvolvimento das potencialidades locais como instrumento de renovação urbana, planejamento e gestão. A ativista era defensora da participação do cidadão comum no planejamento da cidade.

Jane Jacobs criticava como o planejamento urbano estava projetando cidades voltadas apenas para os carros, sobretudo a Cidade Radiante (Ville Radieuse) de Le Corbusier, ela enxergava que aquele esforço estético estava apenas a serviço da construção de cidades inviáveis. Criticava a capacidade que os urbanistas da época tinham de construir lugares compostos basicamente de prédios e estacionamentos circundados por vias expressas, sem possibilidade de vida nas ruas.
Jane Jacobs deixou um legado enorme para o cidadão comum, ela indicou o caminho para o empoderamento das comunidades na construção de bairros mais dinâmicos, mais seguros e mais habitáveis. Ela influenciou toda uma geração de urbanistas e de gestores preocupados com o futuro das cidades. Jane Jacobs é ainda leitura imprescindível para gestores públicos na construção de cidades para as pessoas.


Lincoln Paiva
é especialista em planejamento e Gestão de Cidades Poli/USP, Mestre em arquitetura e Urbanismo pela FAU/ Mackenzie, Professor de Transportes Sustentáveis e Mobilidade Urbana na Pós graduação da UFPR. Board Advisor WRI Ross Prize for Cities, Diretor da consultoria Green Mobility

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