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Arquitetura 25.04.2018 — 7:00 am

Oito coisas que ninguém te conta sobre estudar arquitetura na FAU-USP

Tamara Klink é estudante de Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP, coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (e Design) da Universidade de São Paulo é uma das faculdades mais prestigiadas do país, mas com certeza não é um lugar perfeito e, muito menos, sem problemas. Como estudante do quarto ano de graduação em arquitetura, venho contar para um jovem interessado, minha experiência na faculdade do campus de São Paulo. A minha visão não é a única, e outras faculdades podem ter semelhanças e diferenças. De todo modo, espero com este texto ajudar outras pessoas a encontrar seu caminho.

1 – VOCÊ NÃO VAI SE FORMAR EM CINCO ANOS (se esse não for seu maior objetivo)
Assim que comecei a faculdade, descobri que 5 anos é pouco tempo para aprender tudo que ela se propõe a ensinar. História, planejamento urbano, paisagismo, conforto ambiental, design e até mesmo projeto de arquitetura. São muitas as matérias obrigatórias, muitos os trabalhos, poucas as horas no dia e a nossa energia tem fim. Além disso, a USP não se resume às aulas. Há laboratórios de pesquisa, projetos de cultura e extensão, palestras, esportes, workshops acontecendo durante o horário das aulas. A gente diz que só se forma em 5 quem levou isso como objetivo da graduação. Eu fiz iniciação científica, matérias optativas em outros institutos e espero fazer intercâmbio. Devo me formar em 7 anos e meio (é o tempo máximo permitido) e não me arrependo de jeito nenhum (pelo menos, não por enquanto).

2 – VAI SER UM DESAFIO TRABALHAR AO LONGO A FACULDADE.
Nos três primeiros anos da FAU a gente faz em torno de 36 créditos obrigatórios. Isso significa que as aulas começam as 8h e acabam às 18h (com duas horas de almoço entre 12 e 14h). Além dos créditos de aula, quase todas as matérias demandam horas fora da sala para fazer os trabalhos e projetos. Meus amigos que se dedicaram a trabalhar durante a faculdade precisaram ser hiper-organizados, e optaram por trancar matérias e atrasar um pouco a graduação. Ainda assim, é bem exaustivo e a gente sabe que isso é uma barreira para os alunos de baixa renda permanecerem e concluírem o curso. Também por isso, um grupo de alunos se uniu para reelaborar um Projeto Político Pedagógico para a faculdade.

3 – VIRAR A NOITE FAZENDO TRABALHO SERÁ ALGO “NORMAL”
Deixar de dormir para terminar um trabalho é uma prática comum em várias faculdades de arquitetura do mundo. Os projetos de arquitetura exigem tempo e principalmente, muita organização. Pelo número de entregas que a gente precisa fazer, e porque muitas vezes elas se acumulam no fim do semestre, acabamos trocando horas de descanso por horas desenhando no computador ou cortando papel paraná e colando as paredes da maquete. Eu sei que é horrível pra saúde, me sinto moída toda vez, mas o pior de tudo é colar o projeto na parede e ficar até as seis da tarde ouvindo as críticas do professor que chegou atrasado sobre o pôster de cada um dos 150 alunos.

4 – VOCÊ VAI PRECISAR DE AMIGOS. E ELES VÃO PRECISAR DE VOCÊ
Não sei o que seria de mim sem meus amigos. Quase todos os trabalhos são em grupo, e é pouco provável fazer todos com empenho total. O que mais acontece é cada um fazer um pedaço. Muitas vezes há pessoas que não fazem nada. Ainda assim, a gente entende que cada um tem seus problemas fora da faculdade e aprende a lidar com isso. Já houve trabalhos em que eu fiz superpouco, e a Luíza, o Henrique, a Greta, a Teresa, a Carol, o Maurício, o Caio e outros amigos me salvaram. Também houve trabalhos que tive que fazer sozinha. Sou grata pela compreensão dos outros e procuro ser bem compreensiva. No fim das contas, acredito que estamos todos no mesmo barco, e a formação universitária é um desafio coletivo.

5- A GREVE É UMA GRANDE OPORTUNIDADE PARA APRENDER
Eu tinha uma visão bem negativa do que era uma greve até vive-la, em 2016. Descobri que ela nunca acontece sem motivo, e assisti o surgimento de novas discussões que não faziam parte da minha realidade, mas que eram de extrema importância para tornar o ensino mais justo e democrático. Debatemos os entraves para a permanência dos estudantes no curso, o papel das cotas na democratização do acesso à universidade, a reforma da grade disciplinar, a falta de contratações de professores e funcionários, as consequências do plano de demissão voluntária, entre outros assuntos. Vim de uma escola particular, e me lembro de ficar surpresa ao estar numa sala com menos cadeiras do que o número de alunos. Também me surpreendi ao ver que grande parte dos alunos tinha vindo das mesmas escolas de São Paulo. Mudei de opinião muitas vezes, e durante todo o período de aulas suspensas, encontrei a FAU cheia de estudantes empenhados em torná-la mais diversa. Houveram grandes conquistas e debatemos a arquitetura de maneira que jamais faríamos em sala. A greve é uma chance única de ver o edifício levando ao máximo a sua vocação: a de espaço de discussão política.

6 – VOCÊ VAI PRECISAR ACHAR O SEU CAMINHO
No segundo ano da Faculdade, encontrei um laboratório de pesquisa onde estudantes e professores discutem e projetam infraestruturas urbanas fluviais. Com toda certeza, esse encontro foi uma chave para eu começar a responder a pergunta “O que eu estou fazendo aqui?”. As muitas oportunidades que a USP e a FAU oferecem, e as diversas matérias que temos que cursar podem nos deixar perdidos. Por isso, se envolver com um grupo de pesquisa ou extensão universitária pode ajudar a encontrar uma razão para continuar na faculdade e descobrir uma área de atuação futura. Até porquê, quando é 4 da manhã e estamos há 30 horas sem dormir com os dedos sujos de cola, marcas de estilete e pedaço de fita crepe, vai ser bom ter uma resposta para fazer alguma coisa ter sentido.

7 – A FAU NÃO É SÓ ENSINO
Além dos grupos de pesquisa, há pessoas fazendo muitas outras coisas. Tem gente que faz revista (Revista Contraste), tem gente que constrói com adobe e bambu (Grupo de Construção Agroecológica), tem gente que experimenta com fotografia (FotoFau), tem gente que trabalha escutando crianças em situações periféricas (Co-Criança), tem gente que discute os problemas e as soluções da faculdade (Grupo do PPP), e vários outros projetos estendem a pesquisa da universidade para a sociedade. No fundo, a iniciativa dos alunos é uma das forças mais importantes para reduzir a distância entre a academia e a cidade. E ao nos juntarmos a quem pensa parecido, temos mais chance de colocar nossas ideias de pé.

8 – DA FAU SAEM ATÉ MESMO ARQUITETOS, URBANISTAS E DESIGNERS
À essa altura do texto, já deve estar claro que há muito além de assistir as aulas e aprender a projetar um edifício. É por isso que desde o seu nascimento, a FAU coleciona entre os seus ex-alunos muitos cineastas, fotógrafos, escritores, professores, artistas e profissionais de todo tipo. A arquitetura, o urbanismo e o design demandam uma cabeça aberta para ouvir opiniões diferentes, aprender coisas novas e misturar conhecimentos de muitas áreas distantes pra fazer uma coisa só ser construída. E, às vezes, no processo de experimentar algo novo a gente encontra uma razão de ser. Eu quero trabalhar com barcos, e por mais que eu não aprenda isso nas aulas, sei que estou em um dos melhores lugares para colecionar ferramentas para tirar meu projeto do papel.
A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (e Design) da USP não é o melhor lugar do mundo. Mas com certeza é um lugar incrível para se perder e se encontrar. É preciso ter muita sabedoria para experimentar coisas novas, reconhecer oportunidades, encontrar seu caminho e pôr muita energia para fazê-lo acontecer. Acredito que são raros os lugares no planeta onde sonhamos tanto, e podemos contar com o apoio de professores excelentes nesses sonhos. Mas entre sonhar e realizar há uma difícil e imprevisível travessia, e cabe a cada um planejar sua rota e conduzir seu barco da melhor forma possível.

Por fim, preciso deixar clara a minha convicção de que as oportunidades estão no mundo, e não em uma faculdade, seja ela qual for. No dia a dia anormal que levamos na cidade, podemos inverter valores e achar que a nossa chance está nas coisas, nos títulos, em lugares específicos. Não está. Em todos os lugares haverá coisas boas e ruins, e cabe a nós ver nos problemas um desafio, nas soluções uma lição e encontrar uma razão qualquer para lutar por. No fim das contas, acredito que a maior qualidade da FAU está em tudo que ela não tem: nem respostas, nem certezas, nem organização. Ela nos ensina a sermos auto-portantes e a fazermos a estabilidade surgir do nosso próprio movimento pela Terra. Aprendemos com o mundo a aprender com ele.

Amanhã tenho entrega de projeto e é provável que hoje eu não vá dormir. Assim, termino este texto, que nasceu num café da manhã onde eu pensava na razão das minhas escolhas. Jamais saberei se estava certa quatro anos atrás. Porém, torço pra que este texto chegue a quem pretende descobrir.


Tamara Klink 
tem 20 anos. Estuda Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP e começou a escrever depois da nona viagem pra Antártica. É coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube

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