*

Infraestrutura 19.04.2018 — 8:07 am

No Japão, as estações que de fato conectam transporte e cidade

Leandro Ishioka é arquiteto e urbanista pela FAU-USP. Mora em Sendai e é mestrando em planejamento urbano pela Tohoku University (Sendai, Japão).

Shinkansen em estação no Japão

A recente inauguração da extensão da nova linha da CPTM até o aeroporto de Guarulhos é, enfim, uma realidade. A expectativa, no entanto, é outra. Sem ter sido planejada com o usuário como foco, foi colocada bem longe dos terminais (porque decidiram construir um shopping no local em que a estação supostamente seria localizada), forçando os viajantes – que devem estar carregando malas bem pesadas – a fazerem baldeações desnecessárias, pegarem um ônibus (pasmem!) para chegar às áreas de embarque e tudo isso em função das demandas do operador privado do aeroporto.

Essa falta de planejamento (ou pulso firme mesmo) do poder público em garantir transporte público de qualidade me pareceu uma oportunidade de trazer uma discussão de como as estações funcionam por aqui, do outro lado do mundo, no Japão, e como poderiam (e podem) ser implantadas no Brasil.

Estações de trem, metrô e afins são figuras constantes nas cidades japonesas. Afinal, o desenvolvimento das redes de transporte nipônicas figuram entre as mais completas do mundo, com complexas redes de metrô que se interligam nas grandes cidades e linhas de trem que cortam o país do extremo norte ao extremo sul, passando por inúmeras cidades e vilarejos do mais remoto interior.

Em primeiro lugar, podemos falar das estações dos shinkansen, o famoso trem bala que atinge mais de 300km por hora e permite que viagens de negócios ou de turismo sejam feitas entre grandes centros
urbanos em poucas horas. Um exemplo é a ponte aérea japonesa que conecta a histórica (embora reconstruída) estação de Tóquio, projetada com influências ocidentais e a moderna Shin-Osaka, separadas por mais de 550km de distância, mas que, de shinkansen, leva apenas cerca de duas horas e meia de viagem.

Apesar da tecnologia, da mega velocidade e do conforto dos trens, o ponto chave desse modal é que você já desembarca no coração das grandes cidades. Isso se deve ao fato de que as estações que recebem os trens de alta velocidade são em geral localizadas nas regiões centrais ou em áreas que, com o passar dos anos, se desenvolveram de tal forma que hoje são grandes centralidades que abrigam desde centros comerciais luxuosos a enormes arranha céus repletos de escritórios das grandes corporações, tornando-se importantes concentrações urbanas. O resultado disso são as eficientes conexões entre cidades que permitem que viagens de negócio ocorram com uma enorme facilidade durante qualquer horário do dia.

A partir das estações centrais existe uma rede extensa de outros modais como trens (expressos, semi-expressos, locais), metrôs e terminais de ônibus que, de forma capilar, distribuem os usuários para as áreas semi-centrais, subúrbios e outras cidades e vilarejos. O mais interessante disso tudo é que as conexões são sempre feitas de modo a poderem ser realizadas a pé, em geral dentro da própria estação ou a curtas distâncias que são realizadas por passarelas e passagens subterrâneas.

Conectividade, aliás é a chave do negócio. Não somente no plano inter e intra urbano, mas também na escala das próprias estações que aglomeram quantidades enormes de saídas e conexões com os prédios
desenvolvidos nos arredores. A estação de Shinjuku em Tóquio, por exemplo, concentra mais de 200 saídas. É uma complexa rede de túneis, elevadores, escadas e esteiras rolantes que não dão só para as
ruas, mas saem direto nos principais edifícios, sejam eles públicos ou privados, como hotéis, prédios de escritórios, do governo e centros comerciais.

Esses acessos são, na verdade, uma obrigação dos incorporadores que devem facilitar a vida dos usuários e contribuir para os deslocamentos das pessoas em função dos enormes arranha céus que estão construindo, uma contrapartida que beneficia a todos.

Engana-se quem acha que esses túneis são apenas tediosos corredores claustrofóbicos entre duas intermináveis paredes de concreto. Os subsolos formam uma verdadeira cidade subterrânea, abrigando uma infinitude de lojas, serviços e restaurantes. Tem realmente de tudo: konbinis (lojas de conveniência) para o trabalhador apressado comprar o jornal ou um lanche rápido para levar para o serviço, lojas de roupa, farmácias e também as docerias que combinam aquele cheirinho de bolo recém assado com vitrines capazes de deixar qualquer um com vontade de fazer uma parada.

Aliás, toda essa distração faz com que, andando pelo subsolo, a gente não perceba se ainda estamos na estação ou dentro de um centro comercial ou no subsolo de um prédio de escritórios. Mas isso reforça a ideia da estação como um pedacinho da cidade. Não só um ponto de entrada e saída da rede, mas um lugar proveitoso e extremamente conectado, pelo qual se vai andando e descobrindo paradas curiosas que a cidade tem a oferecer.

Fica a dica então para o operador do aeroporto de Guarulhos e para os nossos governantes. Que as próximas estações, sejam elas em aeroportos, terminais de ônibus ou em qualquer outro ponto da cidade, que sejam mais completas, que se integrem ao entorno, que forneçam acessos diretos aos edifícios, que possam ter lojas, serviços, facilidades para os usuários. Em resumo, que sejam bem projetadas para se integrar de forma positiva o usuário e a cidade. Estações são nós de fluxos, de deslocamentos, de pessoas. Concentram a vida urbana e, convenhamos, quanto mais acessíveis, melhor para todo mundo.

Leandro Ishioka é arquiteto e urbanista pela FAUUSP. Mora em Sendai e é mestrando em planejamento urbano pela Tohoku University (Sendai, Japão).

Tags:, , , , , , , ,

Bitnami