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Espaços Públicos 04.04.2018 — 8:08 am

Passagens, os pequenos lugares do movimento

Diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) / Instituto Cidade em Movimento

 

Túneis, pontes, passarelas, escadarias, teleféricos urbanos, calçadas.

Diariamente, usamos estas conexões para passar de um transporte a outro, de um ambiente urbano a outro ou para superar barreiras urbanas criadas pela infraestrutura. São os pequenos espaços de articulação da mobilidade das cidades que chamamos de PASSAGENS.

Territórios de uso exclusivo de pedestres, ciclistas e pessoas em cadeiras de rodas, ou seja, daqueles que entram com o próprio corpo na mobilidade e por esta razão são os mais vulneráveis. Neste sentido, seria de se esperar que as passagens fossem os espaços mais caprichados da cidade. Pequenos respiros, agradáveis, seguros e vibrantes, impactando na qualidade de nossa experiencia de deslocamentos pela cidade.

Só que não.

Em muitos casos, ao contrário, as passagens são espaços quase abandonados, desagradáveis e que geram medo e desconforto.

Há quatro anos o IVM – Instituto Cidade em Movimento (Institut pour la Ville em Mouvement) desenvolve um programa de registro, pesquisa e concursos de projetos sobre este tema. E agora apresenta o resultado desta iniciativa, desenvolvida em mais de 20 cidades do mundo, com a exposição; Passagens: espaços de transição da cidade do sec. XXI, no MCB – Museu da Casa Brasileira.

Com mais de 18 anos de atividade, o IVM defende que a mobilidade não é uma questão de transporte e sim o direito universal de acesso ao patrimônio, bens e serviços da cidade. Neste sentido, a mobilidade pressupõe tomar como ponto de partida a escala humana e envolve o direito de todos os cidadãos à informação para ter autonomia em suas decisões de deslocamento, cortesia e qualidade do espaço público. As passagens são, assim, disparadoras da reflexão sobre a cidade que inclui e respeita o caminhante, a pessoa, e que se responsabiliza por todos os espaços, mesmo os pequenos.

O primeiro feito desta exposição é estar dirigida ao público em geral, pois a questão da qualidade da mobilidade diz respeito a todos nós, que vivemos em cidades, e não apenas aos engenheiros de trânsito e arquitetos.  A mostra traz exemplos de barreiras urbanas, que separam, isolam e excluem, e também registra grandes soluções de integração, ligação e transição por meio de lindas passagens. O trabalho de pesquisa no distrito do Jardim Ângela, em São Paulo, assim como  os projetos vencedores dos vários concursos de Passagens promovidos pelo IVM também estão exibidos.

A cidade de ontem foi moldada a partir do imaginário da mecânica e da velocidade. Isto resultou em hierarquia das redes e fragmentação da cidade. Certamente abriu possibilidades, aproximou o longínquo, mas também acabou afastando o próximo.

A cidade de amanhã deverá ser moldada a partir do imaginário da leveza. Novos desafios obrigam a isso: a mudança climática e as questões ecológicas; os riscos de segregação ligados à fragmentação dos espaços; as preocupações com a saúde pública e o aumento da longevidade da população.

Viver melhor aqui e agora! Esse imaginário de leveza e agilidade, de atenção ao corpo e às sensações, já estimula nosso mundo sensível, cultural e nossas tecnologias. Para regenerar  e recosturar o tecido urbano devemos considerar as exigências dos cidadãos de hoje, que, mais do que nunca, manifestam a necessidade de atenção à sua vida cotidiana.

As novas mobilidades, mais ativas e mais conectadas, serão “intermodais”. A rede das passagens renovará o acesso a todos os sistemas: das infraestruturas pesadas de transportes públicos – metrôs, trens, linhas de ônibus aperfeiçoadas – ;  infraestruturas intermediárias dedicadas aos táxis, vans, bicicletas, motos e carros compartilhados, bem como os mais variados e conectados dispositivos de estacionamento.

Que passagens imaginar para a cidade contemporânea, difusa e fragmentada principalmente em razão de redes de transporte? Como acompanhar a mobilidade do cidadão de hoje em dia, exigente e conectado, morador ou visitante, atleta ou sedentário, apressado ou voyeur, corredor, skatista, ciclista?

O que fazer para que esses espaços de acessibilidade que facilitam nossa vida cotidiana não sejam os grandes esquecidos pelos criadores de nossas cidades?


Luiza de Andrada e Silva
é educadora, jornalista e diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) — Instituto Cidade em Movimento

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