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Infraestrutura 26.03.2018 — 7:10 am

Cada nó da rede de transporte deveria ser um incentivo à atividade econômica

José Police Neto é vereador em São Paulo

Em uma das histórias de Guimarães Rosa, o sagaz Lalino Salathiel sobrevive no Rio de Janeiro com uma farsa. Fingindo-se funcionário da companhia de bondes, faz medições e anotações em frente a uma padaria ou bar, chamando a curiosidade do proprietário do estabelecimento. Questionado, diz que está realizando estudos para verificar se um novo ponto planejado será construído ali ou alguns quarteirões adiante, por coincidência bem à frente da padaria concorrente. Evidentemente o enredo termina com o esperto embolsando uma gorjeta para definir o ponto na frente daquele estabelecimento.

Para além da esperteza do ladino personagem, há uma questão de desenvolvimento urbano, que deveria nos preocupar mais. A implantação de um nó da rede de transporte coletivo deveria ser um importante elemento de incentivo à atividade econômica. A questão deveria ser verdade tanto para os pontos de bonde do conto de Rosa quanto para qualquer cidade a qualquer tempo. Mas nem sempre o é — em particular para a cidade de São Paulo e região metropolitana.

As grandes cidades do mundo, em particular as grandes megalópoles asiáticas, demonstraram o imenso potencial de geração de riqueza associando terminais de transporte coletivo a enormes centros comerciais e de serviço. No Brasil, e em especial em São Paulo, pelo contrário, a implantação dos nós da rede não só não produz estímulo econômico como, em muitos casos, contribui para degradar e desvalorizar a área para fins comerciais.

As atividades econômicas ao redor do nosso sistema de transporte são muitas vezes tímidas e de pequeno valor tanto absoluto como agregado. Compete-se mais com o comércio ambulante informal nas redondezas do que se gera de fato novas e melhores oportunidades de negócios, empregos e produção de renda.

Em um momento em que a rede de transporte coletivo ganha a devida e necessária atenção como verdadeira prioridade urbana, é essencial enfrentar o problema de fato enxergando cada nó não apenas como um elemento de transporte, mas como um foco potencial de desenvolvimento, descentralização da atividade econômica e elemento produtor de riqueza. Para isso, é essencial uma compreensão urbanística mais profunda de que a simples construção de um terminal exige a reflexão sobre a transformação que se busca construir naquele território, não só evitando a degradação, mas potencializando os elementos que podem contribuir para a melhora da qualidade de vida naquela área.

José Police Neto é vereador

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