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Arquitetura 22.03.2018 — 6:31 am

“Arquitetos devem estar atentos à disparidade”, diz presidente da UIA

Mariana Barros é cofundadora do Esquina

 

No início deste mês, o presidente da União Internacional de Arquitetos (UIA) Thomas Vonier, a principal instituição global da categoria, visitou o Brasil para acompanhar os preparativos para a UIA2020. O evento, realizado a cada três anos, terá sua próxima edição no Rio de Janeiro em 2020, quando arquitetos do mundo todo virão ao Brasil discutir a prática e os desafios profissionais da arquitetura.

Com membros de 124 países, a UIA representa 1,3 milhão de arquitetos mundo afora. Vonier, que é americano e cujo trabalho se divide entre Paris e Washigton, assumiu a presidência da entidade em setembro do ano passado, para um mandato de três anos. Ele já era membro do Royal Institute of British Architects e do American Institute of Architects (AIA), tendo fundado o AIA Continental Europe (braço europeu do instituto americano) e ocupado postos importantes dentro na própria UIA.

Thomas Vonier, presidente da UIA

 

Thomas Vonier conversou com o Esquina sobre o papel da arquitetura no Brasil e no mundo. Confira na entrevista a seguir:


1) Geralmente as pessoas pensam em arquitetos como pessoas que projeta prédios e casas. Mas sabemos que a profissão vai muito além disso. Na sua opinião, qual é o papel do arquiteto hoje?

Os arquitetos podem resolver todos os grandes desafios enfrentados por nossas cidades atualmente: resistir a condições climáticas extremas, fornecer habitação a moradores de baixa renda, garantir que usaremos energia com sabedoria e minimizaremos o desperdício. Os arquitetos devem demonstrar como as vidas podem ser melhoradas por meio do desenho urbano e de um uso mais inteligente dos recursos disponíveis. Podemos também mostrar o caminho a ser seguido projetando lugares mais benéficos para a saúde humana.

2) Nas últimas décadas no Brasil, a importância dos arquitetos foi drasticamente reduzida. Eles raramente são consultados por governantes ou participam de grandes projetos. O senhor acredita ser um problema local ou outros países em desenvolvimento sofrem o mesmo? Por que isso acontece?

Muitos países enfrentam pressões sobre os funcionários e orçamentos públicos para concluir edifícios e obras o mais rápido e com o menor custo possível. Políticos mal informados e autoridades eleitas acham que pagar por arquitetos e pelo bom design urbano aumenta os custos, mas na verdade esses profissionais podem ajudar a garantir que os gastos públicos sejam sensatos, projetados para um bom desempenho por um longo tempo, a um custo razoável. Os arquitetos precisam mostrar o valor de construir bem e demonstrar como uma arquitetura de excelência e o design urbano podem melhorar a vida de todas as pessoas.

3) Você esteve no Brasil há algumas semanas para acompanhar a preparação do evento de 2020 da União Internacional de Arquitetos, no Rio de Janeiro (UIA2020) . Qual foi sua impressão? Qual é a importância global deste evento?

Arquitetos de todos os lugares conhecem o maravilhoso patrimônio arquitetônico modernista do Brasil e a vida e a beleza física do Rio de Janeiro. Eles vão querer ver e experimentar tudo isso. O Congresso Mundial da UIA2020 é o único encontro de arquitetos do mundo, e isso acontece apenas a cada três anos, então é algo GRANDE. Estamos ansiosos para ver milhares e milhares de arquitetos no Rio em 2020 vindos de todas as partes do mundo. Eles estarão ansiosos para ver como esta cidade está lidando com os problemas enfrentados por muitas, muitas outras cidades ao redor do mundo: populações em rápido crescimento, moradia inadequada, congestionamentos, pobreza, criminalidade e os efeitos de mudanças climáticas. Sabemos que nossos amigos e colegas no Brasil irão criar uma maravilhosa e incrível série de eventos.

4) Na sua opinião, quais são os principais problemas e transformações urbanas aos quais arquitetos e urbanistas devem estar atentos?

A ONU Habitat realizou o encontro Habitat III no Equador há dois anos, quando obteve a adesão de centenas de países a uma “Nova Agenda Urbana”. Esse programa promete realizar muitas coisas, incluindo o uso responsável dos recursos naturais e a erradicação da pobreza e da discriminação. É a expressão de aspirações muito ambiciosas e cheias de esperança, destinadas a lidar com o fato de que dois terços das pessoas do nosso planeta vivem agora nas cidades e enfrentam enormes disparidades de renda e de oportunidades. Esta é uma área que merece a atenção de todos os cidadãos e de todos os arquitetos.

5) Como o senhor vê o papel do setor imobiliário nas cidades? De que maneira arquitetos e profissionais do setor imobiliário podem trabalhar juntos para criar espaços e cidades melhores?

O desafio constante é garantir que o ganho privado não ofusque ou supere o bem público. O investimento privado e o setor imobiliário são essenciais para economias viáveis ​​e cidades saudáveis ​​– mas investidores privados e desenvolvedores também devem participar de projetos de apoio ao bem comum, como transporte de massa acessível, instalações recreativas, educacionais e comunitárias, parques e bibliotecas, parquinhos… todas as coisas que tornam a vida nas cidades agradável e acessível para todos.

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