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Arte e cultura 16.03.2018 — 6:06 am

Cidade e cerveja

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

Incrédulo, vi um amigo pedindo caipirinha com cachaça Anísio Santiago, que ficou conhecida tanto pela peleja com a marca de rum que leva o nome da cidade de Havana em torno do registro da marca, quanto pelo preço que atingiu embalada pelas qualidades reconhecidas. Na casa havia limão galego e gelo de primeira qualidade, donde não seria razoável supor que o resultado tenha sido ruim. Por outro lado, é óbvio que, considerando os fatores envolvidos, o resultado seria equivalente usando uma cachaça bem mais modesta.

As coincidências entre cidades e bebidas não ficam nos nomes de origem ou no desperdício derivado do exagero. Há, por exemplo, uma piada famosa envolvendo as cidades e suas bebidas mais conhecidas. Quem conta é um escocês simpático que trabalha como embaixador do uísque Johnnie Walker. Palestrando em Atlanta, ouviu uma provocação: “Aqui gostamos de misturar o seu uísque com Coca-Cola.” Diplomaticamente, o escocês devolveu o seguinte: “Well, lá em Glasgow eu diria que estraga o uísque. Aqui em Atlanta, afirmo que estraga o refrigerante.”

Em São Paulo, minha dor de cabeça mais frequente tem um endereço: o final da Avenida Paulista. Aquele platô que marca o encontro com a Consolação é minha rebordosa. A arquitetura do entorno é inebriante. Dos clássicos edifícios Gibraltar e Anchieta e os recém-nascidos IMS e o projeto novo do escritório Botti-Rubin – talvez ainda pagão. Tem o bar Riviera, o cine Belas Artes, horta comunitária na Praça do Ciclista. E debaixo, o túnel que vem da Doutor Arnaldo mostrando o que a avenida seria caso ele continuasse até o platô lá do começo, no Paraíso.

Mas o século vinte escolheu o inferno. A ressaca. De espaço público pensado para as pessoas há uma passagem subterrânea. Já para os carros a composição é tão diversa e absurda que foi parar num monólogo do Juca de Oliveira. Ele cita uma por uma as pontes, alças e passagens e conclui: “Claro que o Hospital das Clínicas e o cemitério do Araçá tinham que estar ali.”

Fico imaginando como foi agradável parar ali ao longo dos tempos. Descansar e contemplar a vista depois de subir o morro no caminho do Centro até Pinheiros. Córregos correndo até rio sinuoso lá embaixo, o charco fértil, quiçá as copas das araucárias. Olhar e imaginar aonde os caminhos poderiam nos levar. E hoje olhar pensando se chegamos ao ponto de não-retorno ou se haverá consolação possível.

Quero acreditar que salvação há. Inclusive para chegarmos a terras estrangeiras viajando pelos nossos rios. Cem metros Paulista abaixo embarcamos no rio Pinheiros, navegamos até o Tietê rumo ao sertão, chegamos ao Paranazão e, quando percebemos, estaremos no rio da Prata, alcançando Buenos Aires. Que tal? Falta uma obra ou outra, de despoluição à eclusa em Itaipu. Nada demais… O que importa é que eu estou procurando um jeito de chegar lá desde o primeiro parágrafo, para falar de bebidas e cidades.

Outro dia o Blog do Empreendedor do Estadão trouxe o problema do vinho na Argentina. Estão perdendo espaço para as cervejas. A hipótese levantada é que a sofisticação inventada pelos novos gerentes de marketing acabou por constranger e afastar os bebedores de sempre, gente comum, que bebia por prazer e sem frescura, misturava o vinho com soda, juntava os amigos em volta do garrafão, da brasa e era feliz. Agora com isso de taça adequada à uva, aromas imaginários, cores psicodélicas e outras afetações, além de preços injustificáveis, a turma ficou com preguiça e mergulhou na cerveja.

Não há motivo para duvidar. Gente sensata vem fazendo o mesmo alerta há anos. O Julio Iglesias, que já nasceu espanhol e rico, e ganhou mais dinheiro com futebol e música, reúne todas as ferramentas para beber o que há de melhor no mundo. Dizem que no Caribe envelhece suas garrafas numa adega submersa. Mesmo assim, numa entrevista à Marília Gabriela, perguntado sobre como identificar um grande vinho, foi sucinto: “Abra uma garrafa e compartilhe com os amigos. Se a conversa melhorar o vinho, é bom. Se piorar, abra outra.”

O fenômeno não é exclusivamente argentino. Um amigo que é do ramo me contou que o consumo de vinho arrefece no mundo inteiro, inclusive na Europa. E acrescenta que em Paris já há mais brasseries do que na Bélgica. A exceção são os Estados Unidos, onde tudo cresce: cerveja, coquetelaria e vinho. Dada a polarização política por lá, pode ser que metade do país esteja bebendo para esquecer, e a outra metade para comemorar.

Meu palpite vai além. Penso que a explosão do mercado de cervejas (e gins) artesanais guarde alguma relação com a urbanização no mundo. Sabemos que cada vez mais pessoas moram nas cidades, e tanto a cerveja quanto o gin são bebidas essencialmente urbanas. Podem ser feitas e consumidas em pequenos estabelecimentos, precisando, além de cereais, respectivamente de água e álcool, e dispensam envelhecimento. Enquanto o vinho requer espaço, vasto e específico, em todos os estágios de produção, impondo uma condição rural e distante.

Outros fatores que podem contar são a sensação de pertencimento, de vizinhança, um apelo semelhante ao da “comida caseira” ou das padarias, tão próprio das paróquias; o custo-benefício para o consumidor, posto que a maior parte do preço de uma cerveja está na embalagem e no transporte; e mais distante mas ainda relevante, a sustentabilidade que vem da economia de recursos naturais que a mistura de todos esses fatores, incluindo o viver em cidades, proporciona.

O caminho inverso também é verdadeiro. Nesse universo distrital o produtor ganha em sensibilidade e sintonia com o consumidor, e não sendo uma grande companhia, tem mais agilidade nas adaptações, driblando com facilidade os movimentos lentos das gigantes multinacionais.

Londres, que chega a emprestar o nome à mais conhecida receita de gin, esteve perto de uma revolução contra a monarquia em 1736. A turma estava bebendo demais e a Coroa quis proibir. O povo respondeu: “No gin, no king”. Vá lá que a estratégia foi algo desastrada. A fim de inflamar as massas, os produtores e donos de bar serviram uma rodada mais generosa na noite de véspera, e o resultado foi que ninguém acordou para a manifestação. Mesmo assim, a coroa perdeu. E hoje a cidade assiste satisfeita a volta das destilarias aos bairros centrais.

Em Nova York, as chamadas breweries se proliferam e recuperam bairros isolados. Os galpões das antigas fábricas que deixaram a cidade são alugados pelos cervejeiros, atraindo turistas e moradores, que além de beber, assim como as fábricas preferem estar perto das linhas de trem.

São Paulo segue pela mesma serpentina. O Plano Diretor de 2014 pela primeira vez autorizou a instalação de cervejarias no perímetro urbano, com algumas variáveis relacionadas ao porte. O efeito é que os produtores, antes obrigados às fábricas compartilhadas, sentam praça. Como mostrou a Heloisa Lupinacci no Paladar Estadão, a Tarantino instalou seu galpão no Limão. Nas Perdizes, a Trilha já produz pequenos lotes, assim como a Dogma em Santa Cecília.

Se a cerveja é mesmo a melhor amiga da cidade, só o futuro dirá. O passado aponta que sim. No tempo em que o platozão da Paulista era um ermo alto no caminho para Pinheiros, a cervejaria Antarctica entregava o parque homônimo na Pompéia, o hospital alemão Oswaldo Cruz no Paraíso, o Bosque da Saúde. Em Buenos Aires há o Parque de la Cerveceria Quilmes. E aqui no Estadão tem mais história, no papo do Edison Veiga com o Diógenes Sousa no blog Paulistices.

Para o presente o que temos é conversa de botequim e um trocadilho: cerveja serve tanto para consolação quanto para inspiração.

Léo Coutinho é escritor e jornalista, membro do Conselho Participativo Municipal na Prefeitura Regional de Pinheiros

 

Links:
Londres
https://www.ft.com/content/4aa58b22-1a81-11e8-aaca-4574d7dabfb6
https://super.abril.com.br/historia/gin-o-inimigo-publico-numero-um/
EUA:
https://www.nytimes.com/2018/02/27/business/craft-breweries-local-economy.html
SP:
http://paladar.estadao.com.br/noticias/bebida,cervejeiros-ciganos-fixam-residencia-em-sao-paulo,70002077011
http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/edison-veiga/retrospectiva-2017-cerveja-e-urbanismo/
Argentina:
http://blogs.pme.estadao.com.br/blog-do-empreendedor/como-o-vinho-perdeu-o-lugar-na-mesa-do-argentino/

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