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Espaços Públicos 15.03.2018 — 9:34 am

Discutir zeladoria é desviar o foco do que realmente importa

Alvaro Puntoni é arquiteto, doutor e professor pela FAU USP. Leciona na Escola da Cidade e é sócio do escritório GrupoSP

As ações do atual prefeito paulistano voltadas à limpeza urbana, no sentido de obter um aspecto visual melhor para a cidade, vêm causando polêmica desde o princípio de seu mandato, da mesma forma como causaram polêmica suas posições sobre pichações e outros aspectos da zeladoria pública. Segundo João Doria, o tema da zeladoria será retomado em sua gestão após ter sido deixado de lado pelas gestões anteriores, sobretudo a última.

Calçada em São Paulo

 

Vivemos em uma cidade que de fato sofre com a falta de cuidado de seus espaços. Mas a zeladoria urbana, apesar de importante, é um conjunto de ações paliativas, insuficientes para melhorar o ambiente urbano de forma perene e estrutural.

Veja o exemplo da pintura de guias e postes com cal. Uma medida absurda, que na verdade mais suja do que limpa a cidade. Meio-fios mal executados ou de péssima qualidade são cobertos de forma intercalada por uma tinta branca. O mesmo acontece com os postes, também sujos e decrépitos. Felizmente as árvores, até pouco tempo atrás também eram cobertas por esta estapafúrdia, têm escapado ilesas. Na realidade, eram elas o alvo original do cal, espalhado para evitar a proliferação de insetos. Mas a cobertura branca acabou se esparramando pelas calçadas e por tudo o que se parecesse um tronco, caso dos postes.

Calçadão da Sete de Abril

 

Meios fios das calçadas pintadas, sugerindo uma ação saneadora, emolduram péssimas calçadas. Isso porque a responsabilidade delas não recai sobre o poder público, mas sobre o proprietário do terreno contíguo. Como resultado, cada um faz a calçada como bem entende, inclusive resolvendo irregularmente os ajustes de nível, suprimindo a necessária continuidade para o caminhar seguro e livre do pedestre.

Não há padronização de pisos, posicionamento de áreas permeáveis (o local das árvores e arbustos) nem equipamentos particulares ou públicos. Como se vê, ao não tratarmos este item como infraestrutura urbana pública, mas como extensão da propriedade privada. Produzimos assim uma cidade descontínua, desprovida de senso coletivo e privada, no pior sentido da palavra.

Calçada em Boston

 

Eis aqui o ponto central da questão: acerta o prefeito quando se preocupa com aspectos importantes da zeladoria urbana, mas erra ao não debater e atingir o ponto central da questão. A cidade se realiza a partir de sua infraestrutura urbana e básica que é necessariamente de interesse público, que deve obrigatoriamente orientar e fomentar (inclusive) as ações particulares com uma dimensão cidadã.

Esse tom já havia sido dado ao longo da campanha eleitoral que culminou com a vitória do prefeito. É sempre assim: os candidatos falam, discutem e prometem fazer e acontecer na saúde, educação, segurança pública, assistência social, emprego e habitação. Mas não se falam uma palavra sobre o espaço físico da cidade, que é o lugar onde vivemos. Calçadas, parques, espaço público, postes e fios elétricos, iluminação, rampas e mobiliário urbano não são nem sequer mencionados.

Claro que todos os itens anteriores são serviços e direitos fundamentais, mas o buraco sobre o qual falo é bem mais embaixo. Porque mesmo os temas importantes, como segurança – uma maneira dissimulada para falarmos de injustiça social –, são tratados de forma rasa. Não se discute como construir uma sociedade mais justa, menos desigual e, portanto, mais segura. Fala-se apenas sobre as formas de combater as manifestações desta injustiça, o que leva parte dos paulistanos a circular em carros blindados ou viver atrás de grades com uma concertina de aço inox, que nos remetem mais a Auschwitz do que a qualquer cidade querida de nosso planeta.

Calçada em Madri

 

A cidade é um detalhe
Nós que vivemos nela somente a vemos quando precisamos vê-la, para não tropeçar na rampa do vizinho construída na calçada ou para percebemos horrorizados como nossos parques têm a grama pisoteada e canteiros cercados por improvisados vergalhões metálicos ou a ausência completa de bancos para nos sentarmos publicamente. Também aqueles que costumam e podem viajar para fora do país veem cidades, mas são outras, estrangeiras, que inspiram uma forma melancólica de encarar esta onde vivemos.

A cidade é uma das bases da construção da nossa riqueza , mas nem por isso serve como forma de retribuir o que gera. Aqueles que detêm a riqueza não se dedicam (ou pouco tem se dedicado) em ofertar alguma forma de contribuir com sua própria cidade. Pior, fazem gentilezas em outras cidades.

A cidade e suas mazelas não são o ponto nerval da discussão pública, política. O que está em jogo, mais uma vez, é apenas uma questão assistencialista.

Como nos lembra o psicanalista Thales Ab’Saber, somos experts na “produção mais comum da cidade ruim de todos os dias” . Difícil enumerar nos dedos de uma mão cidades consideradas exemplares em nosso país. O que mais temos são cidades estruturalmente pobres, sem árvores nem sombras, desprovidas de urbanidade em todos os sentidos.

Como dizia o arquiteto Vilanova Artigas, a “Felicidade de um povo se mede pela beleza de sua cidade”. Como sabemos, não somos felizes. Basta olhar para fora ou prestar atenção no chão aonde pisamos. Devemos todos sermos mais responsáveis por isto, para que seja possível ainda viver os esta transformação. Estas questões precisam se tornar objeto do debate político e integrar os programas de governo. O futuro é construído neste momento, precisa ser decidido agora. Mas estamos perdendo esta chance a cada hora que passa.

 

Alvaro Puntoni é arquiteto, doutor (2010) pela FAUUSP, onde leciona desde 2002. Sócio fundador e Coordenador pedagógico e Coordenador da pós-graduação Geografia, Cidade e Arquitetura da Escola da Cidade. Mantém o escritório GrupoSP arquitetos

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