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Mobilidade 12.03.2018 — 6:56 am

Uma carta de amor (e de preocupação) aos ônibus

Bianca Antunes é jornalista, ex-editora da revista AU, coautora do livro Casacadabra e mestranda do Mundus Urbano pela TU Darmstadt (Alemanha) e Universitat Internacional de Catalunya (Espanha)


Começou aos 12 anos, no interior de São Paulo. Pegar o ônibus sozinha para voltar da escola significava ser gente grande. Eram 20 minutos de viagem, de um lado ao outro da cidade. Todo um mundo novo começava ali.

No colegial, passei a prestar atenção nas pessoas. Aquelas que sempre pegavam o ônibus no mesmo horário, rostos novos, conversas com amigos. Também percebi que o ônibus não dava conta de tudo e pra sanar minha ânsia de liberdade adolescente, apelava à bicicleta.

Aos 18, mudei a São Paulo. Metrô era mais rápido, mas limitado e sem as qualidades do ônibus: cumprimentar o motorista na entrada; ver a cidade da janela; ler um livro ou olhar de soslaio a conversa no whatsapp do passageiro ao lado. No ônibus tem sempre alguém que puxa papo, ou quem se ofereça para segurar a pasta pesada cheia de leituras. Quem já desceu a Consolação sentada no banco mais alto com o rosto na janela e cabelos ao vento sabe o que é felicidade. Ônibus é liberdade.

É nos ônibus também que as mais loucas histórias de viagem acontecem. O motorista no Líbano que te olha assustado porque esqueceu de parar onde você pediu e te fala um monte de coisa em árabe; o ônibus que fica em gasolina no meio do Uzbequistão; a senhora simpática que te oferece pepino no Irã e diz que é bom também para as olheiras.

Depois quase 30 anos de experiências em ônibus, algo aqui em Barcelona me faz estranhar – e invejar: com motor na parte de trás, piso baixo e sem catraca, os veículos são acessíveis a pessoas com dificuldades de mobilidade e a carrinhos de bebê. Isso se reflete em um número imenso de pais e mães com bebês e em pessoas de idade tomando ônibus diariamente. Aliás, é comum encontrar grupos escolares dentro de ônibus: é assim que muitas crianças vão e vêm em excursões pela cidade.

Foi quando recebo a notícia de que linhas serão cortadas em São Paulo. Me assusto. Não que o sistema de transporte não precise de reforma. Precisa, e urgente. Palavra de quem chegava a esperar o ônibus por mais de 40 minutos em uma rua escura e vazia do Bom Retiro. Palavra de muita gente que, como relata o Thiago, espera dois, três ônibus lotados passarem até conseguir entrar. Se ônibus é liberdade, pode também ser martírio…

Penso em como será a mudança para as pessoas que moram nos extremos (ou não tão extremos) da cidade: mais martírio? Também penso naquelas que optam pelo carro: essa mudança irá instigá-las a utilizar o transporte público, uma prioridade em que todas as cidades de vanguarda no mundo estão investindo hoje? Não deveriam ser esses os objetivos das mudanças: facilitar e incentivar o uso do transporte público?

Então me pego imaginando em que tipo de cidade queremos viver, e o tipo de cidade que seguimos criando. Aprendi que uma cidade justa deve gerar oportunidades iguais a todos os cidadãos e levar em conta externalidades negativas como poluição, má qualidade de vida e consequentes gastos com saúde, na hora de pensar em suas políticas de mobilidade. Queremos viver em uma cidade que nos dê liberdade ou que nos prenda dentro de um trânsito que só faz crescer?

Ônibus deve ser liberdade. Para as pessoas e para as cidades.


Bianca Antunes
é jornalista especializada em arquitetura e planejamento urbano, ex-editora da revista AU (Arquitetura e Urbanismo), coautora do Casacadabra, livro de arquitetura para crianças, e mestranda do Mundus Urbano, máster em desenvolvimento urbano e cooperação internacional pela TU Darmstadt (Darmstadt, Alemanha) e Universitat Internacional de Catalunya (Barcelona, Espanha)

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