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Espaços Públicos 08.03.2018 — 7:03 am

Afinal, o que querem as mulheres nas cidades?

Elisabete França é arquiteta e trabalha desde os anos 80 na divulgação da arquitetura como criadora de espaços urbanos inclusivos


Ao longo dos séculos as cidades modernas vêm sendo planejadas e estruturadas a partir de necessidades que respondem ao cotidiano masculino. As mulheres, tradicionalmente envolvidas em suas tarefas desenvolvidas no aconchego do lar, até o início do século XX, pouco saiam às ruas. Quando o faziam, era recomendável que evitassem contatos ou paradas para conversas desnecessárias. Não existia uma relação de fruição com os espaços abertos e públicos, e mulheres na rua eram olhadas com desconfiança ou então exerciam ofícios considerados pouco honrosos.

Com o advento da era industrial a vida das mulheres nas cidades começa a sofrer transformações. As indústrias que surgiam às centenas demandavam mão de obra em grande escala, empregando, além do contingente masculino, mulheres e muitas vezes crianças. Estas também passaram a circular pelos espaços públicos, ainda que de forma tímida e limitada ao ir e vir para o trabalho. No novo mundo da era industrial, as populações urbanas cresciam de forma exponencial, e grandes deslocamentos populacionais das áreas rurais para as cidades mudaram o cenário até então conhecido. Milhões de pessoas se apinharam nas cidades, vivendo em condições precárias e insalubres. Pela primeira vez na história da humanidade, as mulheres se deparariam com uma vida pública realizada em espaços construídos para um mundo do qual elas não participavam.

Até então, a vida na “res pública” se realizava sob a égide do mundo masculino: ali se desenvolviam as relações comerciais e de troca de mercadorias, as atividades sociais e comemorativas de novas conquistas das quais participavam apenas os homens. E, nesse mesmo ambiente urbano, eram definidas as estratégias de defesa do território contra os ataques dos inimigos.

O longo do processo de formação das cidades, que atravessou os séculos, resultou em um conjunto de elementos urbanos que compõem os espaços públicos (calçadas, ruas, praças) formatados a partir de uma lógica própria do mundo masculino e suas necessidades. Essa lógica tampouco foi alterada na era moderna. Quando o urbanismo se torna uma ciência de construção de cidades e os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) se transformam em encontros onde são estabelecidas as diretrizes que vão reger o pensamento urbanístico mundial, as premissas masculinas permanecem.

Desde a Carta de Atenas, passando pelas dezenas de planos reguladores, planejamos uma cidade para a circulação especialmente dos carros, para a realização do trabalho, para o morar e, mais timidamente, para desfrutar dos momentos de lazer. Raras são as vezes em que demandas específicas das mulheres são mencionadas.  

Os planos diretores elaborados para a cidade de São Paulo podem servir como ilustração dessa lógica. Do PUB (1971), aos Planos Diretores Estratégicos de 2002 e 2014, parece natural não abordarmos a temática feminina como uma questão a ser tratada. 

A era moderna foi sendo deixada para trás em velocidade quase alucinante. As transformações do mundo global pós Segunda Guerra Mundial são difíceis de serem compreendidas, pois não se enquadram mais na simplificação de dois campos que nos guiou até a queda do muro de Berlim. As narrativas modernistas não se prestam mais a explicar a nossa contemporaneidade. E, nesse novo mundo, aparecem com força total, as demandas femininas, que correspondem ao desejo de metade da população mundial. E, que são sim, específicas. Parodiando a questão freudiana, o que será que querem as mulheres nas cidades?

Agora as mulheres são parte da força de trabalho que move a economia global, ocupam postos de comando na tomada de decisões de governos e empresas, conquistaram enfim um lugar importante na sociedade contemporânea. Mas ainda são muitos os obstáculos que enfrentam para garantir que as cidades sejam equanimemente acessíveis e respondam aos seus anseios.

A partir daí, dirigindo um rápido olhar sobre os espaços públicos é possível constatar sua fragilidade, que vai do desenho, em geral inexistente, à implantação, descuidada e precária, que ignora as necessidades femininas. Se por um lado tal fragilidade afeta todos os usuários dos espaços públicos e, em especial aqueles que se utilizam das calçadas para sua circulação diária, as mulheres são afetadas de forma mais intensa e direta.

Vamos então entender esse universo feminino e suas particularidades a partir de observações sobre o cotidiano das mulheres na fruição diária da cidade. Começamos analisando as larguras das calçadas e, se são apropriadas para a circulação das mães com os carrinhos de bebê. Acrescentamos em nossa análise, além do carrinho, a mãe que segura pela mão o segundo filho. Ou, então, as sacolas de compras, as mochilas das crianças e outros apetrechos. E quando, além do carrinho, a possibilidade de um outro bebê na barriga. E então é possível perguntar: as calçadas e espaços públicos em geral acolhem convenientemente todas essas demandas? Creio que não.

E, quanto se trata de vencer os obstáculos tão comuns no cotidiano do pedestre obrigado a conviver com a precariedade das calçadas com suas rampas com declividades dignas de esportes olímpicos, escadarias mal dimensionadas, ausência de elementos de apoio ou plataformas de descanso? As mulheres que já tem dificuldades em circular pelas calçadas planas mal conseguem chegar com boas condições físicas quando se trata de vencer mais esses obstáculos urbanos.

Abordemos então um tema atual que trata da segurança na cidade. Pouco se questiona sobre quão insegura uma cidade pode ser quando se trata da circulação e dos deslocamentos diários das mulheres. Exemplificamos aqui com o cotidiano de uma jovem moradora do Jardim São Francisco, localizado no extremo leste da cidade, que trabalha durante o dia, estuda à noite e se desloca de transporte público. Ao final da jornada, desce do ônibus e tem que caminhar até sua casa por ruas escuras e mal iluminadas. Que garantias a jovem terá de chegar em segurança em casa, sem sofrer abordagens durante seu percurso?

E há ainda os obstáculos que as mulheres enfrentam quando, em nome da elegância ou porque assim são obrigadas em suas profissões, saem às ruas de salto alto tentando vencer pisos esburacados ou construídos com materiais inadequados.

Some-se a esse conjunto de demandas aquelas das mulheres idosas, mesmo que sejam muito similares às dos homens. Alguém imagina uma idosa atravessando uma rua nos tempos estabelecidos para pedestres nos semáforos da cidade, sem ela ter participado dos treinamentos necessários para enfrentar a prova de São Silvestre?

Além das necessidades particulares, quando falamos da fruição de espaços públicos, é importante destacar a relação com as crianças e a tarefa de prepará-las como futuros usuários da cidade. Na maioria das vezes, mesmo que nos tempos atuais os homens venham buscando participar do dia a dia dos filhos, ainda são as mães as principais incentivadoras do caminhar nas cidades, do ir para a escola a pé, de descobrir o universo da urbanidade e, consequentemente, da sociabilidade, preparando o futuro usuário dos espaços comuns, e cultivando hábitos de cidadania.

Em verdade, as demandas femininas são muito simples e se somam ao conjunto dos usuários: calçadas amplas, bem projetadas e sem obstáculos e que a iluminação pública de todos os bairros seja considerada uma política pública prioritária na agenda da segurança urbana.

 As mulheres querem ver seus tempos respeitados, no caso dos semáforos por exemplo. Querem equipamentos públicos, como banheiros, que atendam às suas necessidades, principalmente quando grávidas ou com filhos recém nascidos.

Enfim, as mulheres querem participar da construção das cidades e dos seus espaços públicos e, não concordam quando são consideradas apenas como usuárias especiais, para quem se reserva uma cota de utilização. Afinal, nós mulheres somos ‘apenas’ 50% da população que vive e trabalha na cidade. E, em grande medida, somos as responsáveis pela formação das futuras gerações, que devem ser educadas para a cultura urbana.

Elisabete França é arquiteta e trabalha desde os anos 80 na divulgação da arquitetura como criadora de espaços urbanos inclusivos

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