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Meio ambiente 06.03.2018 — 8:58 am

Dois dias pelos caminhos do Ó

Paula Janovitch é mestre em Antropologia e doutora em História. Foi pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo. Participa do coletivo Escutando a Cidade, do PISA: pesquisa + cidade e é autora do blog Versão Paulo

Ontem conversei com a Lívia, que já esta produzindo um filme das caminhadas que fizemos. Achei interessante a nossa conversa. De formas diversas cada um de nós vai desenvolvendo diálogos com o percurso, que também chamo de lugar. Um lugar para mim é algo habitado por gente, por traçados, por histórias e por quem percorre. O lugar se revela como Descobrimento no sentido próprio mesmo: um achamento. Reparei que a caminhada em si é uma ação deste achamento. E muito mais intenso se faz quando somos estimulados a ver, sentir e perceber o que permanece do passado no presente e aquilo que é radicalmente novo. Caminhar é uma troca de olhares que se aprimoram no espaço e no cruzamento de vistas.

No meu primeiro percurso para a Freguesia do Ó desobedecemos o caminho principal, a avenida Santa Marina. Nos perdemos pelas pequenas travessas e pontilhões dos trilhos do trem armados de mapas antigos. Fizemos achados maravilhosos, um riacho escondido numa vila, uma grupo de ruas que é um poema de Paulo Bomfim, Tempo Reverso. E casas, residências pequenas, antigas ainda, mas com portões novos, com estruturas flutuantes para acomodar um novo morador, o carro. Com certeza é o antigo se adaptando ao novo, o tal puxadinho que virou garagem.

Na segunda caminhada, o Tomé trouxe várias folhas coloridas com impressões fotográficas antigas e distribuiu para o grupo. Começamos no início da Santa Marina, que é ali na Pompéia. A Dna. Neide ao andar pelo antigo Caminho do Ó (Av. Santa Marina), conseguiu lembrar mais coisas dos seus percursos dos outros tempos por aquela avenida. O escadão e antes dele, a porteira do trem,” era muito mais fácil do que agora”, o local onde pegava o bonde, a relação com o rio Tietê, as distâncias, tudo era mais perto.

Depois a moça da galeria de arte, a Luana, ouviu um barulho de rio, ali invisível, de dentro destes tampões da Sabesp, gravou. Ainda paramos no primeiro ponto de vista, na Praça da Árvore, antes da cancela do trem. E as pessoas maravilhadas conseguiram ver dali a Igreja da Freguesia do Ó, lá do outro lado do rio Tietê. Fez todo sentido.

Atravessar a linha do trem e passar para o outro lado da avenida é o segundo obstáculo para penetrar e refazer o antigo Caminho do Ó.

O Instituto Rogacionista é a primeira parada que atrai os olhares e o desejo de percorrer por dentro algo do passado. Na extensão da avenida e seus novos usos, aquele casarão antigo chama atenção. Seus jardins, as carpas, a tranquilidade, o que um casarão de chácara esta fazendo ali? Parece que o tempo deixou um marco de outros tempos, de outras histórias, ponto de reflexão numa avenida que passou rapidamente do campo para a produção fabril.

No jardim uma moça desenhou um peixe. Lembrei da Virginia Woolf no livro Um teto todo seu tentando agarrar um peixinho/idéia que passava naquela universidade imaginária, “Oxbridge” ( mistura de Oxford com Cambridge). Ela pescou uma carpa linda ali na antiga Chácara/ Instituto Rogacionista!!!

Peixes que nadam, peixes que se inventam
Saindo de lá, a Vidraçaria Santa Marina domina a quadra do outro lado da rua, mas nos fins de semana é mais um dragão de boca fechada; dormem os fornos, as chaminés, descansam os homens.

O barulho vem do Clube Santa Marina, seu vizinho anexo. Criado e mantido por seus antigos funcionários. É o fiel Santa Marina Atlético Clube com uniforme que tem as cores da bandeira francesa. Ali se produzem outros sons: apitos do juiz , gritos de felicidade, o barulho da borracha de tênis em atrito com o piso de cimento da quadra do futebol de salão. É gente pequena e grande que enche de vida o lugar. Andar pelo clube é percorrer histórias, monumentos e bustos misturados a pura convivência dos clubes de várzea nos fins de semana. Que não morra o Santa Marina Atlético Clube, fábrica de barulhos de felicidade da Avenida Santa Marinex!!!!

Saímos do clube e o movimento do trânsito assume a trilha sonora do lugar. Nosso terceiro obstáculo é passar pela Av. Ermano Marchetti e chegar na última quadra da Santa Marina, do lado de cá do rio Tietê. Jogo duro para o pedestre. A longa travessia diz muito do lugar. Talvez seja por isso, e não por nostalgia dos velhos tempos, que Dna. Neide lembra que antigamente o Caminho do Ó era mais fácil para caminhar. Parece que nada ali é feito para os pés, mas somente para carros. Nada ali é de parar e olhar, e é por isso que estamos fazendo o Caminho do Ó. Queremos buscar ainda os fios rompidos pelo progresso. Queremos dar chance para o tempo lembrar do lugar através dos nossos pés.

Obstáculo Ermano
Cruzamento da Av. Santa Marina com a Av. Ermano Marchetti.
Ali do cruzamento da Ermano Marchetti, os olhos que nos mostraram ao longe a Igreja da Freguesia do Ó, apenas nos alertam para prestar atenção ao cruzar a avenida. Neste obstáculo não há chance alguma de ver nada além dos sinais e os jogos dos corpos humanos sincronizados com a velocidade dos carros. Atravessar a Ermano Marchetti é o que importa! E assim cruzamos o grande rio de concreto. Mas, ao virarmos antes da ultima travessa que chega na Marginal do Tietê, encontramos novamente a Igreja da Freguesia Ó, bem na cara da Marginal. Deste ponto alguém viu o nome de um rio que desemboca ali no Tietê. Outra pessoa falou que os rios não chegavam no Tietê antigamente. O Tomé mostrou outra imagem em papel colorido do lugar, uma canoa dos velhos tempos, e onde estávamos, bem na água, na várzea do rio.

Pegamos a calçada da Marginal à direita em direção a Ponte da Freguesia do Ó. Como é difícil andar ao lado da Marginal. O barulho dos carros, a velocidade deixa a gente com medo. Acho que vou dizer que a Marginal é nosso quarto obstáculo.

Atravessamos uma alça para chegar na ponte. Do outro lado descobrimos um negócio de gás, com cheiro de gás. Na Ponte do Ó, a mocinha das carpas mostrou uma intervenção de um grafiteiro. O melhor de caminhar com os outros é que os olhos de um ensinam os olhos do outro. Atravessamos e teve gente com medo da ponte. Nela só tem um caminho estreito para os pedestres. De um lado o rio não se mostra muito convidativo, do outro, os carros passam como uma motosserra que corta árvores sem parar. A gente se sente muito frágil ao atravessar uma ponte tão “des-humana”.

Lá de cima lembro da outra ponte, a antiga, aquela de madeira que juntava as duas partes da Avenida Santa Marina. Aquela era baixa, de madeira, própria para os animais e homens. Estranho ver uma rua que acaba no rio e começa novamente do outro lado. Fica faltando uma coisa que junte o caminho. Vamos desenhar, vamos ligar os pontos?!

Do outro lado, os canteiros minados de gás continuam no entorno da nova ponte da Freguesia que funciona 24 horas como motosserra cortando árvores. Dá medo ainda. Faz a gente pensar que não só os carros que passam deixam o pedestre meio perdido, mas estas granadas de postes amarelos espalhados a esmo no capim verde são impróprios para o caminhante. Talvez seja isso que Dna. Neide quis dizer ao falar que antigamente era mais fácil o caminho…

É domingo e deste outro lado da Freguesia do Ó o comércio esta todo fechado. Aqui não dormem os homens, só seus afazeres. Então vamos subindo. Leio uma placa e ela indica que estamos numa travessa da rua da Balsa. Fico feliz de encontrar com a rua exatamente no lugar que margeava o rio. Abro um dos mapas do nossa coleção do Tempo Reverso e vejo a rua desenhadinha no final do século XIX. O rio Tietê serpenteando também esta lá, bem diferente do que é hoje, retinho. De repente dou risada sozinha. Percebo que a rua inventava curvas para dar com o rio e o rio flertava com ela também. Um rio brincalhão, sem limites ou margens fixas, desalinhado, e uma rua safada, pública, que queria a todo custo encostar no rio, só podia ser uma rua da Balsa!!!

Agora vamos subir. A Igreja está bem pertinho. Mas a ladeira é íngreme. No caminho ganhamos altura. Caixas de correspondência mostram que quanto mais pra cima, mais gente mora ali. E mais a gente consegue olhar o rio e ver da onde partimos. Ai é que surge um outro obstáculo, um monte de prédios, os tais paredões de concreto que se armam como empenas cegas diante dos nossos olhos. Tem lugar que não adianta ganhar altura, porque as paredes são maiores do que os homens, mais altas até do que a torre das antigas igrejas. Quem diria que chegaria um dia em que os olhos de Deus não poderiam mais enxergar a cidade e muito menos o caminho dos homens.

Cartas
Chegamos na Igreja da Freguesia, bem no dia da entrega dos mastros. E sem querer eu vejo anjos de asas vermelhas e escuto cânticos. E percebo que nosso esforço de caminhantes não é solitário, o lugar nos recebe com seus antigos barulhos. A Freguesia é solidária com seu passado. Os anjos de asas vermelhas ainda querem ver o céu e tudo que a vista alcança entoando cânticos em ÓÓÓÓ!!!!!

Mais sobre este post:

Este post é resultado de duas caminhadas que fiz junto com Gilberto Tomé, Livia Gabbai, Paula Gabbai e Renato Hofer. Gilberto, artistas gráfico, ganhou incentivo do PROAC para fazer este lindo projeto de percursos e um livro de artista. Entendo que Tomé fez muito mais do que isso. Sensibilizou pessoas para olharem um caminho antigo ameaçado pelas radicais transformações que estão acontecendo ali. Colocou seus moradores diante da beleza da história da antiga estrada e do caminho de seus ancestrais. E, finalmente, abriu uma exposição no próprio Caminho do Ó, na Praça das Árvores. Segue um pequeno relato afetivo destas duas caminhadas.

Quem quiser conhecer o livro de arte produzido por Gilberto Tomé e as demais atividades vinculadas a exposição, veja o link com orientações detalhadas de como chegar no local, dias e horários: Ó: Caminho, Estrada, Avenida.
O filme de Livia Gabbai produzido para este evento, Linhas e Passagens: traçados da av. Santa Marina avistam a matriz, esta sendo exibido no local da exposição Ó: Caminho, Estrada, Avenida.

 

Paula  Janovitch é mestre em Antropologia e doutora em História. Foi pesquisadora do Departamento de Patrimônio Histórico de São Paulo. Uma das autoras do guia “Dez roteiros históricos a pé em São Paulo ( Narrativa Um) : Os segredos das passagens, percurso pelas galerias do Centro Novo”. Nos últimos anos vem desenvolvendo pesquisas, percursos e projetos em São Paulo com urbanistas, psicanalistas e artistas.  Participa do coletivo Escutando a cidade e do PISA: pesquisa + cidade.  É autora do blog Versão Paulo.

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