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Meio ambiente 26.02.2018 — 9:00 am

Como era a natureza paulistana em 1827?

Ricardo Cardim é mestre em Botânica pela USP, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística e idealizador das Florestas de Bolso para o retorno da Mata Atlântica no meio urbano

São Paulo se tornou metrópole há mais de 80 anos. Desde então, as gerações que aqui nasceram se viram cercadas por uma massa urbana compacta, bem distante do paraíso natural que foi até o último quartel do século XIX. Desse período ficaram poucos registros na História, e um que considero bem interessante é esse desenho do francês Debret em 1827 (acima).

Embora de relevo um pouco fantasioso, essa gravura nos traz fielmente a composição da vegetação original da então pequenina São Paulo observada da Várzea do Tamanduateí, com o rio e seus campos de várzeas margeados por florestas onde despontam araucárias, campos e matas ao fundo,  em uma paisagem naturalmente diversa.

De grande biodiversidade, o território original da cidade foi coberto por florestas de Mata Atlântica em forma de “ilhas” no meio de campos nativos devido aos incêndios naturais que periodicamente acometiam os “Campos de Piratininga” (daí por exemplo o nome de “Capão Redondo” a uma região da Zona Sul).  Quanto mais próximas a Serra do Mar mais úmidas eram as matas,  e mais perto da Cantareira, mais secas,  perdendo as árvores parte das suas folhas no inverno.

Já os campos foram fundamentais na História Natural da metrópole, e batizaram a cidade na época de sua fundação de “São Paulo dos Campos de Piratininga”. Poucos sabem, mas aqui já existiu muita vegetação de Cerrado, com uma infinidade de capins diferentes e arbustos como o pequi-anão que recobriam as colinas. Nesses campos ensolarados despontavam bosques de pinheiros brasileiros, as araucárias, em grandes maciços nas bordas das florestas que enchiam o solo de pinhões nos frios meses de junho.

Também foi  paraíso das águas, com inúmeros riachos, córregos e rios como Pinheiros, Tietê e Aricanduva, onde margeavam extensos campos úmidos pontilhados por florestas beiradeiras, alagados na estação chuvosa do verão. Na gravura, encarapitado no alto da colina histórica, está o Pátio do Colégio, que  dispunha nas suas janelas uma paisagem rica e assustadoramente bela, livre por quilômetros até a outra margem do Rio Tietê.

Ricardo Cardim é mestre em Botânica pela USP, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística e idealizador das Florestas de Bolso para o retorno da Mata Atlântica no meio urbano

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