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História e Patrimônio 19.02.2018 — 9:15 am

O centro histórico de Paraty é o palco de um teatro sem fundo

Tamara Klink é estudante de Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP, coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube

E é nesse teatro que certa parte da cidade ganha pão, pois vende pão (e circo) pra platéia de inglês, francês, paulistano, carioca, e assim por diante. Patrimônio aham, preservadas as fachadas dos prédios do centro e um certo tanto do seu conteúdo. As gentes, essas sim, as gentes que ali moravam já não se sabe que fim têm levado —  diz com nostalgia quem morou na rua do comércio, naquela de janela azul e verde, na corrente, na rua do mercadinho. Ou se mora pra viver, ou se trabalha pra manter a casa tombada que custa uma fortuna. O centro esvazia no inverno. E isso nem é especial de Paraty: a gente sabe que nas nossas cidades de praia, só tem casa nos lugares descolados quem não trabalha alí. E estou mais que ciente de que componho a leva de habitantes fantasma que só aparecem nos feriados.

“É muito turista e a cidade não comporta”  — quem nunca pensou nisso que faça o primeiro comentário hater — pode ser uma fala elitista diante do custo relativamente baixo para passar um fim de semana num lugar paradisíaco. Mas é uma fala que tem um certo sentido já que a maior parte da cidade não tem tratamento de esgoto. Nas marés mais altas, a água do mar ainda invade as ruas do centro e carrega lixo pro mar, aquele lixo urbano que a gente conhece bem. Não há sistema de tratamento de esgoto e, em alguns lugares, o lençol freático é tão alto que construir fossa séptica não é opção. Culpa dos moradores jogar esgoto no rio? No mar? No lençol freático? Não, penso que não. Mas vou confessar aqui que também não sei de quem é. Chuto que é o poder público, mas vai saber o que isso quer dizer.

E talvez os turistas (eu, inclusive) e moradores até se contenham com um cheirinho ruim aqui, umas tartarugas sufocadas de plástico ali. Mas difícil ignorar aquele constante friozinho na barriga ao passar por uma rua vazia e mal iluminada sabendo dos dados do Mapa da Violência de 2016. A gente acha que a situação no Rio está grave com 13,1 homicídios para cada 100 mil habitantes. Pois bem, a cidade Paraty, constantemente lembrada como pacata e bonitinha está saindo dessa com 60,9 homicídios para cada 100 mil. Mas que coisa. Culpa das drogas, segundo as pessoas. Algumas que até consomem drogas. “Mas a droga que eu uso é mais suave, não é esse tipo tal”. Tá, tá, tá, prossigamos.

E se vamos falar de perigo, que tal lembrar dos célebres passeios de saveiro de dois andares que saem lotados do pontão todos os dias de sol? Não é necessário ter aulas de engenharia naval para saber que quando a gente transfere o peso de um joão bobo do pé pra cabeça, ele vira. Cinquenta reais/pessoa/dia vezes quantas pessoas couber em quantos andares for possível construir. Sugiro que se juntem a mim numa oração coletiva pra que nunca apareça um golfinho.
“Falta educação”. Falta educação. “Falta investimento”. Não entendo de orçamento público, mas é uma hipótese a estudar. “Falta cultura”. Falta sim, cultura, mas mais que a nossa cultura de cinema cult de cidade grande, música clássica e literatura de prêmio Nobel uma vez por ano, faltam instrumentos pra quem quer, fazer a cultura própria da pessoa. E falta cultura ser um caminho que enobrece, enriquece ou, pelo menos, se sustenta. E não um caminho mais duro e mais difícil do que a própria vida já é. Mesmo assim, junta um daqui, um dali, a caixa de som emprestada, a bateria do primo, a câmera do celular, o estaleiro que virou nada e pronto. Fazem sim. É procurar pra achar.
Minha paixão verdadeira é barco. Mas não vou falar das canoas tradicionais de Paraty, dos remos, que isso é coisa que já sumiu faz um tempo e pouca gente notou. Mesmo assim, parecem estar na água soluções para alguns problemas. As marinas crescem em número e porte, e empregam dezenas de pessoas competentes e excelentes. Também vem do mar peixes e frutos que fazem a gastronomia da cidade autêntica. São potências. Nem todo futuro é turvo, mas para alcançá-las, é preciso responder questões:

O que é preservar a fachada do centro histórico se as pessoas não são preservadas? Se a paisagem não é preservada? Se a cultura some das ruas e o esgoto surge no rio? O que quer dizer Patrimônio, onde há medo?

Chega mais um novo ano, mais sete ondas pra muito mudar. A peça está rolando e a coxia não da conta de esconder os contra-regras. A cena e o cenário não combinam e estão passando outra demão de cal. Tem quem atua, quem assiste, quem vende pipoca e quem tem uma ideia melhor. E você? Quer assistir o quê?


Tamara Klink 
tem 20 anos. Estuda Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP e começou a escrever depois da nona viagem pra Antártica. É coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube

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