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Economia Urbana 14.02.2018 — 7:06 am

Aonde não vamos parar

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie
Samuel Zeller

No fundo do coração da cidade de São Paulo pulsa uma biblioteca. Literalmente. Quem passa pelo número 140 da Praça João Mendes, a poucos metros do marco zero instalado em frente à Catedral da Sé, pode não se dar conta, mas ali sob o quase cinquentão Sebo do Messias, estão organizados mais de 300 mil livros, além de revistas, discos e aparelhos de som capazes de reproduzi-los. É o maior sebo do Brasil.

Onde cabe tamanho acervo num sobrado quase todo ocupado por estantes de loja? No subsolo, que já foi uma garagem. Plano, com pé-direito alto, comunicação por rampas entre os pisos e boa ventilação, o local é ideal para a função. E lá também trabalha o pessoal da triagem, com luvas e máscaras, não para se proteger dos gases de outrora, mas da poeira que por vezes se acumula nas coleções de quem decide vender, proporcionando o incomparável aroma dos ácaros.

Recomendo. Não sendo uma raridade, é o melhor destino que se pode dar a uma edição excedente, desde que se compreenda que do preço de venda será subtraído o valor do serviço de organização e preservação. Se a saudade bater, basta voltar lá e resgatá-lo, o mesmo ou outro exemplar. E a sensação de poder compartilhar, além de boa recompensa, nos encaminha para o assunto proposto.

O compartilhamento de automóveis já passou de tendência à realidade. Claro que o fetiche automotivo, marca do século vinte, resiste. É muito forte e ainda vai se demorar na gente. Mas já teve dias melhores. Ou piores. Cada vez mais se ouve comentários: “Lá em casa ficamos com um carro só.” E o melhor: “Meu filho fez dezoito anos e nem pensa em tirar habilitação.”

Aplicativos de carona, táxi, bicicleta, transporte público, pedestrianismo. Caminhamos, com trocadilho, nesse sentido. Cambaleando, mas com avanços.

A General Motors mundial, que planeja um carro elétrico, quiçá autônomo, para ser alugado e não vendido, é a mesma que no Brasil pressiona o Governo Federal pela manutenção de incentivos arcaicos, como o Inovar-Auto, ora batizado, pasme você, Rota 2030.

Os governos, sobretudo os inebriados por cálculos eleitorais, tropicam proporcionalmente. Com um terço da frota municipal em situação irregular, seja por calote no IPVA, licenciamento ou multas, o xodó do prefeito de São Paulo é o programa Asfalto Novo, pacote que inclui vasta publicidade e sai de 100% dos nossos bolsos. Nada obstante aparecer mais na televisão do que na rua, é uma política antiga e excludente, tanto no plano social quanto no financeiro. Enquanto isso, para o terço da população que é exclusivamente pedestre, sobra o Calçada Nova, uma agenda de factoides reservada a pequenos trechos e postagens dominicais nas redes sociais.

O mercado imobiliário mostra números parecidos. Um estudo da Poli-USP de 2012 mostrou a evolução ano a ano da área construída para abrigar carros em São Paulo. Até 1930, as garagens eram raridade. Trinta anos depois, com o aumento dos prédios de apartamentos, saltaram para 13% da área construída. Até atingir, em 2001, a inacreditável marca de um terço de tijolos assentados para guardar carros, não pessoas. Desde então houve uma diminuição e o número oscila em torno de 25% – que ainda é abjeto.

Porém há o lado bom, que se revela em duas facetas. Desde o Plano Diretor de 2014, que incentiva a construção de moradia com uso misto e no máximo uma vaga por unidade, a demanda por lançamentos livres de garagem, que chegam a custar R$ 60 mil a menos, puxa a tendência, e estes já representam 25% das novas unidades. Os números, de 2015, são da consultoria imobiliária Geoimóvel.

Outro ponto positivo é a transformação das garagens. Qual o Sebo do Messias, um velho estacionamento em Pinheiros, na rua Cônego Eugênio Leite, foi transformado em restaurante. É o Futuro Refeitório, instalado em um galpão que teve as características da função anterior mantidas pelo arquiteto Felipe Hess. O amplo vão, com pé direito de galpão, se transformou em um lugar aconchegante, com direito a lareiras, grandes vasos de plantas e sofás em couro. Aberto desde as 8h00 até o último freguês, vem passando os dias com tráfego intenso.

Outro marco da mudança é o Santos Augusta, prédio que nasce como ícone na esquina que lhe empresta o nome. Mantido como estacionamento por longo período, o terreno recebeu investimento de R$ 80 milhões da incorporadora Reud, dos irmãos Tchalian, que fizeram história no setor calçadista e parecem determinados em ver os paulistanos gastando mais as solas dos sapatos. Com projeto do festejado arquiteto Isay Weinfeld, terá o térreo aberto para a rua, oferecendo bar, café e wi-fi grátis, além de teatro com 230 assentos e palco de 450 metros quadrados sob direção do Emílio Kalil, que já dirigiu os municipais de São Paulo e do Rio. Vapores, ali dentro, só os da família Tatini, velha conhecida da cidade pela excelência do serviço em réchauds nos seus restaurantes.

Do outro lado da calçada as garagens também já receberam sugestão de adaptação. Durante a crise hídrica de 2015, Paulo Mendes da Rocha, nosso arquiteto querido, propôs transformar os subsolos do Conjunto Nacional em cisternas. Há alguns anos, no meu blog, anotei que um bom destino para as garagens seria salas de cinema, teatro, música, exposições e conferências nos bairros. No clube onde sou sócio, vira e mexe algum infante reclama um dos pisos de guardar carro para a prática de skate. No setor de transportes, as dificuldades em manter o abastecimento em harmonia com as paróquias aponta para pequenos centros logísticos, destinados à última milha da carga.

As possibilidades são infinitas. E as perguntas também. Passo diante dos shoppings, vejo os anexos destinados a garagens e me pergunto: quanto valeria o metro quadrado corporativo no Iguatemi, no Morumbi, no Eldorado? Como a transformação impactaria a frequência da freguesia, a curto, médio ou longo prazo? Quando aquelas lajes todas serão transformadas? Sim, a pergunta central é quando. Ou aonde não vamos mais parar os carros.

Léo Coutinho é escritor e jornalista, membro do Conselho Participativo Municipal na Prefeitura Regional de Pinheiros

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