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Espaços Públicos 13.02.2018 — 2:41 pm

Vedete do Carnaval, Avenida 23 de Maio inverte a lógica de uso dos espaços

Daniel Teixeira/ Estadão
Foliões se aglomeram na Avenida 23 de Maio
Mariana Barros é jornalista e cofundadora do Esquina

Apesar da beleza das rainhas de baterias e madrinhas de blocos carnavalescos, foi outra a vedete que se destacou neste Carnaval. Coberta de música, suor e cerveja, a Avenida 23 de Maio deu um tempo no figurino de corredor expresso para se fantasiar de circuito Barra-Ondina, de Salvador.

A multidão espalhada pelo asfalto demonstrou ter sido acertada a decisão do prefeito João Doria em fazer da ligação norte-sul a apoteose dos megablocos. Nos últimos anos, foram justamente estes blocos, que arrastam milhares de pessoas, que fizeram o Carnaval de São Paulo se tornar vítima de seu sucesso.

No ano passado, foram usadas bombas para dispersar os foliões da Praça Roosevelt, no centro, depois de os moradores terem acionado a PM. No ano anterior, o mesmo acontecera na Vila Madalena, que mais parecia cenário de uma operação de guerra do que paisagem de folia. Moradores se revoltaram contra a quantidade de pessoas que haviam tomado as ruas estreitas do bairro, sem infraestrutura para acomodar tanta gente sem deixar um rastro de destruição para trás.

Neste ano também houve problemas. A proximidade da 23 de Maio de hospitais causou transtornos a pacientes e ao trânsito local. Houve um incidente envolvendo um dos edifícios residenciais e reclamação de barulho e sujeira.

Acontece que São Paulo não foi uma cidade planejada para ter seus cidadãos ocupando as ruas — muito pelo contrário. E seus anos de tradição carnavalesca podem ser contados nos dedos de uma mão. Vivemos um período de choque cultural, de acomodação, tentando lidar ao mesmo tempo com duas mudanças revolucionárias, a de ter pessoas ocupando as ruas e a de haver blocos bombando no Carnaval. A folia não parece ser passageira, pois cresce a cada ano — o que, aliás, parece deixar muita gente contente. Cancelar o Carnaval não é uma opção. Teremos de aprender a conviver e a tirar o melhor proveito desta fase em que São Paulo se torna um destino tão atrativo quanto o Rio de Janeiro, Salvador ou Recife. Neste contexto, o teste da 23 de Maio mostrou-se um esforço de encontrar um consenso entre a folia e a cidade que nunca para. Foi um teste válido e, das alternativas tentadas até aqui, aparentemente a mais acertada.

É interessante notar que a prefeitura tenha escolhido como estratégia de dispersão deste ano uma área por onde só passa gente motorizada. O senso comum talvez orientasse a ocupar locais da cidade onde os pedestres já são bem recebidos, como o próprio centro. Acontece que o Carnaval demanda um tipo de uso do espaço público bastante específico. É preciso haver áreas de aglomeração, áreas de dispersão, sombras e atalhos para os carros, além de, na medida do possível, proteger os moradores do barulho, da bagunça e da sujeira. Nem o centro nem a Vila Madalena preencheram estes requisitos.

A ocupação da 23 de Maio nos faz ainda repensar se bolsões de pedestre do centro são mesmo o melhor que podemos implantar por ali. Intuímos que as pessoas queiram caminhar pelo centro longe da presença dos carros da mesma forma que intuímos que ninguém quer caminhar pela 23 de Maio. Mas será que é isso mesmo? Será que espaços compartilhados entre pedestres e motoristas não tornariam o centro mais convidativo, mais ativo e portanto também mais atrativo e seguro para os pedestres? Quem sabe esteja aí outro ponto a ser verificado na prática.

Mariana Barros é jornalista e cofundadora do Esquina

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