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Tecnologia 22.01.2018 — 8:20 am

A nova tendência de construir em grupos, WikLab e os tijolos da era digital

Alexandre Villares é arquiteto pela FAU-USP, professor na Escola da Cidade e mestrando em Arquitetura, Tecnologia e Cidade pela FEC - Unicamp.  Monica Rizzolli é artista-programadora pelo Instituto de Artes da UNESP e Kunsthochschule Kassel (Alemanha) com projetos nos Estados Unidos, China, Espanha e França
Ryan McGuire

Em 2011, no artigo The IKEA effect: When labor leads to love, pesquisadores nomearam uma tendência que temos de valorizar desproporcionalmente mais os objetos em cuja construção estivemos envolvidos. O nome do efeito é em homenagem a IKEA, empresa sueca conhecida internacionalmente por vender móveis que em geral precisam terminar de ser montados pelos compradores.

Como os móveis da IKEA, que precisam ser montados, WikiHouse é um projeto que permite a construção de casas a partir de estruturas de madeira produzidas por processos de fabricação digital, utilizando fresadoras controladas por computador – conhecidas como Routers CNC. A ideia é de que qualquer pessoa pode projetar e fabricar componentes e construir casas de baixo-custo. A montagem exige poucas habilidades formais ou treinamento. Os desenhos dessas estruturas foram criados por uma comunidade global e estão disponíveis livremente na Internet para download e adaptação no site  WikiHouse. O projeto, iniciado em 2011 por Alastair Parvin e Nick Ierodiaconou, ambos do 00, um coletivo de arquitetos baseado Londres, e desde então tem sido adaptado e implementado em todo o mundo.

O projeto WikiHouse tem alguns princípios básicos de design e alguns merecem ser mencionados:

  • Compartilhar globalmente, manufaturar localmente:

  • Ser preguiçoso como uma raposa: copiar, adaptar, dar crédito e compartilhar

  • Oferecer design para a vida toda: projeto pensando em todo o ciclo de vida da casa. Da manufatura até a montagem, uso, manutenção, adaptação, desmontagem e re-uso.

  • Usar materiais baratos, abundantes, sustentáveis e padronizados.

  • Dar o poder ao usuário.

  • Se você não pode consertar, não é seu (If you can’t mend it, you don’t own it.)

Este último é uma referência ao The Maker’s Bill of Rights  (“se você não pode abrir não é seu”) um manifesto escrito por Mister Jalopy e que foi publicado no volume 4 da revista  Make Magazine.

O Laboratório de Tecnologias Livres (LabLivre) composto por pesquisadores da Universidade Federal do ABC (UFABC) e o ABC Makerspace, criado em 2014 em Santo André, ambos buscavam um novo espaço. Juntas estas duas entidades reúnem boa parte da comunidade hacker do ABC e em colaboração com os arquitetos Maíra Zasso e Yorik van Havre, do coletivo Uncreated.net, chegaram a um espaço de cerca de 40m² no campus de São Bernardo do Campo da UFABC.

Adaptando o módulo “Wren” da WikiHouse, influenciados pela experiência  pioneira no Brasil realizada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2015, usaram chapas de madeira e uma máquina CNC para cortar e numerar as peças utilizadas na montagem da estrutura – uma alternativa de construção inovadora e de baixo custo.

Yorik van Havre, além de arquiteto é programador e um importante contribuidor do FreeCAD, um software livre de modelagem 3D. Van Havre vislumbra um papel novo e diferente para arquitetos num processo de colaboração como o que foi a construção do espaço que ganhou o nome de WikiLab.

O projeto aberto e colaborativo arrecadou via financiamento coletivo R$ 72.115,33, em que 937 pessoas contribuíram. A construção se deu por meio de mutirões com voluntários combinada com a participação de uma pequena empreiteira, responsável principalmente por uma estrutura de fundação e um módulo de alvenaria que futuramente deve abrigar um sanitário.

Porém, como demonstra o depoimento do editor e consultor nas áreas de telecomunicações, Maurício Sandler Mudrik, não é um processo sem dificuldades:

“Experiências como a montagem comunitária de um espaço produzido com código aberto, com a finalidade de produzir um espaço hacker é algo singular e deve ser experienciado tanto quanto alguma convivência em hackerspaces.

Infelizmente, a falta de liderança e coordenação tornaram a minha experiência um pouco frustrante já que resultou em nenhuma parede, teto ou piso colocados no devido lugar.

A incompatibilidade entre regras estritas de uma universidade e o modo por vezes anárquico de um agrupamento de curiosos e makers, interessados e famintos por um espaço onde possam botar a mão-na-massa, atrapalharam a ponto de dificultar – em muito – esta experiência.

O dia foi caótico: Após montarmos andaime, transportarmos pesadas placas de madeira, as suportarmos nas costas e pés por bastante tempo (e num baita calor!), seguindo as várias sugestões que iam surgindo, chegamos à conclusão que o teto interno não poderia ser colocado, já que não havia onde apoiá-lo. Tampouco as paredes, já que o chão teria que vir antes. E este, só após a estruturação da parte elétrica, que dependia de aprovação do projeto…

Mas não entendam mal; a experiência foi sensacional! Repito: Todos deveríamos passar por este tipo de vivência. Seja para entender como muitos processos, ainda que anárquicos, requerem coordenação, seja pela atividade libertadora de construir algo criado PARA a comunidade PELA comunidade. E dentro de uma universidade. Que “aprovou” a construção de algo em um espaço dedicado à outro prédio. Cujo projeto sequer seguiu o cronograma-padrão do campus.”

Supomos que muitas das dificuldades apontadas por Mudrik, vem da necessidade de adaptar o projeto ao contexto brasileiro. Temperatura, materiais e métodos de construção, hábitos e práticas institucionais. Esses desafios, também mencionados por van Havre, nos parecem inevitáveis em um projeto inovador e experimental como o WikiLab.

Voltando a pensar no “efeito IKEA”, se descobriu que o trabalho leva ao amor apenas quando a tarefa é completada com sucesso. Se as criações são destruídas ou não são concluídas, o efeito IKEA se dissipa. Nos alegramos em saber que, apesar dos percalços, na sexta-feira 10 de novembro de 2017 o WikiLab foi inaugurado com sucesso e já pode ser visitado. Esperamos que seja um espaço importante para troca e aprendizado nos próximos anos, que a experiência facilite a criação de espaços similares, e que a pesquisa dos métodos construtivos de baixo custo também seja impulsionada.


Alexandre Villares
é arquiteto graduado pela FAU-USP, professor na Escola da Cidade, faculdade de arquitetura e urbanismo, desde 2005. Mestrando do programa Arquitetura, Tecnologia e Cidade da FEC-Unicamp, onde pesquisa o ensino de programação em um contexto visual. 

Monica Rizzolli é artista-programadora, estudou no Instituto de Artes da UNESP e na Kunsthochschule Kassel (Alemanha). Participou de projetos internacionais como MAK Center Artists and Architects (EUA), Creatives in Residence (China), Sweet Home (Espanha) e A.I.R. DRAWinternational (França). Recebeu o prêmio MAK Schindler, do MAK-Viena.

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