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Arte e cultura 15.01.2018 — 6:26 am

Cedo ou tarde, vamos ter que admitir: o pó existe

Tamara Klink é estudante de Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP, coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube

No carro há mil horas. Marininha já me provocava se espalhando pelo banco de trás, a linha de frente da coxa avançando sobre o risco divisório entre o campo do meu banco e campo do banco dela. Eu não levantaria a voz tão cedo. Foi minha ideia fazer a família atravessar a Namíbia de carro. A Laura dormia profundamente com a bochecha esquerda enterrada no vidro e o pé esquerdo na minha perna direita. Aguenta. Mais um pouco e chegaremos a algum lugar com gente.

Bonita, mas a vista cansava a vista. Enquanto a centopéia do nosso trajeto crescia na tela do GPS, a paisagem mudava quase nada. Era como navegar num oceano congelado de tão lento. As dunas do deserto da Namíbia, ondas imensas de cor laranja-incêndio. Nosso carro, um barco microscópico sem chance de mudar o rumo. Um caminhão, um antílope, uma placa de proibido-parar-zona-de-diamantes, só. A cabeça da centopéia começou a quase tocar a moldura da tela, e vimos saliências ortogonais e formas reconhecíveis nascentes da areia. Casas pequenas e casas grandes, telhados pra neve da Alemanha, pra cobrir pessoas da Alemanha e interesses da Alemanha em explorar diamantes no início do século passado.

Saímos da clausura do carro pra andar pela cidade imersa no infinito. Ondas de areia lavaram portas e janelas de Kolmanskop. Tomou celeiros, quartos e salas de baile. Encheu banheiras onde europeus tomaram banho até esvaziarem das dunas os preciosos motivos de estar ali. Antes deles, apenas povos nômades moravam na areia. A imagem de dessa cidade responde por quê: o perigo de navegar em tempestade é querer parar o barco em ondas que se movem. As dunas se movem.

Deve ser isso que pensa o faxineiro do museuzinho de Kolmanskop, que hoje recebe visitantes entusiasmados. Obrigado a combater a natureza com uma vassoura e uma pá, ele nega o quanto pode que a cidade é mais fraca que o mundo. Mas olha ao seu redor e sabe: cedo ou tarde, teremos que admitir que o pó existe.

Voltei pro carro com areia nas fendas do tênis, conformada a me encaixotar por mais uma hora entre minhas irmãs. Só é possível cruzar o deserto em poucos dias se formos mais coisa e menos gente. Nos acostumamos a cercar lugares de paredes, cercar espaços de paredes, cercar corpos de corpos e de paredes, e a graça de cruzar linhas imaginárias e, incrível, voltar a vê-las e saber que, diante dos gigantes, paredes insistem.


Tamara Klink 
tem 20 anos. Estuda Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP e começou a escrever depois da nona viagem pra Antártica. É coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube.

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