*

Arte e cultura 05.01.2018 — 6:12 am

Os limites da arquitetura brasileira na Bienal de Veneza

Washington Fajardo é arquiteto e urbanista e foi curador brasileiro na Bienal de Veneza em 2016

 

A Bienal de São Paulo anunciou no dia 4 de dezembro os novos curadores do pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza de arquitetura, que acontecerá de 26 de maio até 25 de novembro deste ano.

O plural está sendo usado pois trata-se de uma equipe curatorial composta por quatro jovens arquitetos que trazem o necessário frescor para a curadoria da representação nacional. Mesmo com outras mostras ganhando destaque, como Chicago, Rotterdam ou a de Shenzhen, a mostra de arquitetura de Veneza é sem dúvida o espaço crítico mais importante para o campo intelectual da Arquitetura e Urbanismo no mundo. Já a sua contra-parte dedicada à Arte vem sendo cada vez mais eclipsada por outras exibições. Se se depreciam as bienais de arte, as de arquitetura são cada vez mais instigantes ao falar do bem comum inevitável das aglomerações humanas, as cidades.

Com atuações no ensino, na prática de projeto e em ações de curadoria e de pesquisa, o grupo formado por Laura González Fierro, Sol Camacho, Marcelo Maia Rosa e Gabriel Koslowski, com idades entre 30 e 38 anos, concentram experiências de formação em universidades como MIT, Harvard, Columbia e Sorbonne. Laura e Sol são nascidas no México, mas com laços familiares em São Paulo que é o ponto focal para o quarteto cujas rotas globais, de vida e trabalho, passam também pelo Rio, Cidade do México ou Nova York.

Pedro Ivo Trasferetti/ Fundação Bienal de São Paulo

Os curadores: Marcelo Maia Rosa, Laura Gonzalez Fierro, Sol Camacho e Gabriel Kozlowski

 

“Muros de Ar” é o nome da exposição que irão realizar no pavilhão concebido por Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti, em meados dos anos 50, no Giardini, em Veneza. A equipe quer refletir e investigar a condição arquétipo do muro para o Brasil. “O tema coloca o muro como um elemento da arquitetura, da cultura e da identidade brasileira e vê no ato de sua transposição um convite ao convívio e à multiplicidade cultural”, explicam os arquitetos curadores. “Desse modo, posiciona-se contrário à homogeneização, intolerância e extremismo provenientes do isolamento e reclusão. É uma proposta que celebra o coabitar e não somente o coexistir”.

Através de pesquisa coletiva, sobre as contradições entre limite, separação, transposição e contato contidos no elemento muro, a exibição procurará destacar as diversas escalas que organizam o espaço, desde a essencial, como necessidade física e experiência sensorial, até às dimensões da edificação, da cidade, do território e do país. O desenho da exposição se organizará em duas frentes, uma por meio de cartografias produzidas de modo colaborativo, e outra, por meio de mostra de projetos que serão selecionados por meio de convocatória, que já está aberta (www.murosdear.org.br), pelo seu valor material e imaterial sobre a experiência primordial da arquitetura.

O presidente da Bienal de Veneza, Paolo Baratta, argumenta que claramente a mostra de 2018 é uma continuidade de 2016, cuja curadoria geral foi do arquiteto chileno, Alejandro Aravena, que procurava marcar e delimitar um escopo projetual pela urgência e premência da arquitetura para contextos sócio-ambientais extremos. Dessa vez, a dupla de arquitetas irlandesas Yvonne Farrell e Shelley McNamara, do escritório Grafton Architects, na sua proposta curatorial para a mostra, chamada Freespace, desejam, de modo radicalmente aberto e impreciso, celebrar a transubstanciação que a arquitetura consegue ofertar à humanidade, por meio de condicionantes físicos, chão, paredes e tetos, e pela manipulação generosa de recursos inesgotáveis como ar, luz, sol, sombra, luar, ar, vento e gravidade, que pelo tempo convertem-se em cultura.

Claramente a crise financeira de 2008 dizimou as práticas globais de arquiteturas icônicas feitas por star-architects, e curiosamente vem ampliando o entendimento sobre o alcance da arquitetura, seja como abrigo digno, como sugeria Aravena, seja como oferta generosa de paz e conforto, corporal e cognitivo, por meio de invenções, não só “da”, mas também “na” arquitetura, como querem Farrell e McNamara. Em 2018, Veneza trará portanto uma perspectiva de reaproximação com o saber e fazer da essência arquitetural, assim como a inovação do primeiro coletivo curatorial na representação brasileira da Bienal é auspiciosa na busca por mais potência e qualidade.

Se as irlandesas foram anunciadas como curadoras em 7 de janeiro de 2017, o grupo brasileiro foi anunciado apenas em 4 de dezembro, o que implica em cerca de apenas quatro meses para elaboração da proposta. E com o período de festas e carnaval no meio. Para uma exposição executada em euros e na complexa logística veneziana é muito arriscado para qualquer projeto curatorial brasileiro quando é organizado dessa forma. Isso demonstra como, paradoxalmente, a Bienal de São Paulo, cuja função é selecionar curadores e produzir, e o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores, que detém a responsabilidade conjunta sobre o pavilhão brasileiro, não vêem a arquitetura como campo relevante. Dedicam-se muito mais, com recursos e tempo, à mostra de arte, que é apenas uma mais entre tantas, e relevam a de arquitetura, que é a mais singular no plano internacional.

O inglês traz sentidos amplos para o termo cunhado Freespace, podendo ser Espaço Livre ou Espaço Grátis. Essa sutileza de significados está poeticamente contida na definição dos curadores brasileiros ao usarem a palavra “muro”, pois em inglês, wall, ou em espanhol, muro, podem ser ou parede ou o elemento tectônico de divisa. Em português, muro é o que é. Que os limites impostos ao quarteto, pelo nosso acanhamento oficial da Bienal de São Paulo sobre o campo da arquitetura, possa se converter em uma mostra vigorosa como revelam em sua reflexão curatorial. Vamos torcer.

Washington Fajardo é arquiteto e urbanista e foi curador brasileiro na Bienal de Veneza em 2016

Tags:, , , , , , ,

Bitnami