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Espaços Públicos 22.12.2017 — 6:12 am

Como o Minhocão me transformou em um ativista acidental

Athos Comolatti é empresário, politécnico com MBA pelo IMD (International Institute for Management Development) e fundador da Associação Parque Minhocão
Evelson de Freitas/AE

Na semana passada, a Câmara Municipal aprovou o projeto que estabelece as etapas necessárias para fazer um sonho virar realidade: transformar uma das mais importantes vias expressas da cidade em parque. O Elevado Presidente João Goulart, até o ano passado era conhecido por Elevado Costa e Silva, está gradativamente se transformando no Parque Minhocão. A primeira mudança foi no nome, quando ele se tornou oficialmente um parque nos horários em que permanece fechado para os carros. Agora, após a desejada sanção do prefeito João Doria, a mudança aprovada pelos vereadores fará com que o Minhocão seja cada vez mais das pessoas, com horários mais restritos ao trânsito, inclusive nos meses de férias escolares.
O que pouca gente sabe é o quanto a determinação e a perseverança de um grupo de malucos, como nos acostumamos a ser chamados, foi decisiva para fazer esta mudança. Afinal, como uma estrutura construída para manter o carro como protagonista da cidade se tornou um dos locais mais incríveis para a convivência entre pessoas tão diferentes?
É comum me perguntarem por que decidi me envolver na defesa do tal Parque Minhocão. A resposta é simples: eu não sei. Para começar, não moro nem nunca morei naquela região. Só lembro vagamente de ainda criança passear por ali com meus pais para tomar um gelato italiano na antiga casa Whisky.
Sempre gostei de fotografar o centro de São Paulo. Gosto de ver as pessoas passearem tranquilamente no Minhocão, as crianças se divertindo com os pais, aprendendo a andar de bicicleta e de skate, ou idosos e cadeirantes tomando sol. Ali é possível perceber a enorme diversidade paulistana. A vista é uma coletânea arquitetônica, que perpassa a Igreja de Santa Cecília, o Castelinho da Rua Apa, os edifícios Banespa, Copan, Itália, Washington, Santa Tereza, a quadra do bloco carnavalesco os Filhos da Santa, as artísticas empenas grafitadas, os exuberantes jardins verticais as divertidas apresentações de teatro do grupo Esparrama na Janela.
Lembro também de quando, em 1987, o finado Jornal da Tarde estampou em sua primeira página o projeto fantástico de um arquiteto bem à frente de seu tempo: Luiz Antônio Pitanga do Amparo apresentava para o então prefeito Jânio Quadros a sua ideia de transformar o Minhocão em um jardim suspenso, interligando os prédios lindeiros. Aquilo me causou um impacto tremendo (embora eu tenha me formado em engenharia de produção, sempre gostei de arquitetura) e apesar deste projeto não ter saído do papel, nunca mais saiu da minha cabeça.
Quando em 2003 vi um artigo sobre o projeto do High Line, o parque suspenso que iria ser inaugurado em 2009 em Nova York, o projeto do Pitanga do Amparo me veio à cabeça imediatamente. Naquele momento, já se falava abertamente em demolir o Minhocão, classificado por especialistas de “cicatriz urbana”, responsável pela degradação de uma região inteira. Mas, enquanto houvesse motoristas defendendo a ligação expressa Leste-Oeste e políticos com medo da repercussão que tal mudança causaria, o debate não tinha chances de avançar. Nem por isso parei de pensar no assunto.
Em 2005, procurei o então vereador Aurélio Nomura e mostrei a ele o projeto nova-iorquino. Pedi para que apresentasse uma proposta de criar um parque no Minhocão. Para a minha alegria, ele fez o PL 664/2005, que tinha exatamente este propósito. Mas a alegria durou pouco, e o PL foi rapidamente arquivado.
No ano seguinte, o então prefeito José Serra propôs um concurso de ideias para o Minhocão. Os projetos foram expostos no edifício sede da prefeitura, no Viaduto do Chá, e depois compilados no livro “Caminhos do Elevado”. E, de novo, a coisa parou por aí.
Em 2009, o primeiro trecho do parque High Line foi inaugurado em Nova York. Viajei até lá para vê-lo. Era basicamente a ideia do Pitanga do Amparo posta em prática. Ficou óbvio que São Paulo estava perdendo tempo. Devorei o livro High Line – A História do Parque Suspenso de Nova York (2012), sobre a complexa luta de oito anos para reverter a demolição já autorizada do elevado nova-iorquino e sua transformação em parque. A receita estava lá: era preciso juntar as pessoas favoráveis, usar todas as oportunidades que aparecessem e ter muita persistência, pois a luta seria longa.
Mas o estopim do meu ativismo acidental foi uma entrevista do então candidato Fernando Haddad que, ao ser perguntado sobre o que faria com o Minhocão se fosse eleito, se limitou a dizer que o Minhocão não devia ter sito construído, o que para mim significou que seria mais um prefeito querendo a sua demolição. Recusei conviver passivamente com esta opção da demolição.
Quem seriam, então, meus parceiros de batalha ? A primeira que procurei foi a cicloativista Renata Falzoni, minha ex-colega de turma no colégio Dante Alighieri. Como era de se esperar, ela adorou a ideia de tirar os carros dali e abrir o espaço para as pessoas. Procurei então outro amigo meu, o arquiteto Marcio Kogan, cujo respaldo daria a credibilidade de que o projeto precisava. Para a minha surpresa, tanto ele já simpatizava com a ideia que havia até desenvolvido uma proposta para participar daquele concurso de 2006, mas acabou não se inscrevendo.
Com Falzoni e Kogan a bordo, considerei que nosso time inicial de ativistas estava formado. Faltava ainda um ponto essencial: nenhum de nós morava ou tinha uma vivência mais cotidiana na região. Foi então que decidi buscar um apartamento para servir de sede da associação. Fechei negócio em novembro de 2012. Um apartamento no 2o andar de um lindo prédio na Avenida São João, com todas as suas janelas voltadas para o caos do Minhocão. Faltava pouco para nosso ativismo decolar.
Embora tivesse chegado até ali, eu não tinha a menor ideia de como ativar a associação. Quem me deu uma luz foi o arquiteto Guilherme Wisnik, curador da X Bienal de Arquitetura que aconteceria no ano seguinte. Em uma entrevista, ele anunciou que a programação incluiria uma mostra fotográfica sobre o High Line. Era a deixa de que eu precisava. Por que não fazer a exposição no apartamento sede da associação?
O Kogan me colocou em contato com o crítico de arquitetura Fernando Serapião, que por sua vez contatou o Wisnik. Em pouco tempo, eles já estavam dentro do apartamento decidindo os detalhes da mostra.
O sucesso de público e a repercussão na mídia deram vida à associação na mesma medida em que alavancaram meus devaneios. Naquele momento, eu mal sabia onde estava me metendo. Pouco tempo depois obtivemos o apoio do vereador José Police Neto, que foi e continua sendo decisivo para que, pouco a pouco, conseguíssemos avançar.
A partir destes contatos iniciais vieram outros, que trouxeram outros e assim sucessivamente — é assim até hoje.  Quando olho para trás percebo que naquele momento eu estava pegando uma via expressa rumo a uma cidade mais humana e agradável de se viver. Ainda não chegamos lá, mas já a vejo no horizonte, através da janela que se debruça sobre o Minhocão.

Athos Comolatti é empresário, politécnico com MBA pelo IMD (International Institute for Management Development) e fundador da Associação Parque Minhocão

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