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Mobilidade 11.12.2017 — 6:20 am

Por que o home office não nos liberou de ir diariamente ao local de trabalho?

Diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) / Instituto Cidade em Movimento
Davide Ragusa

Lendo uma matéria sobre por que algumas empresas, como a IBM internacional, estão extinguindo o home office (trabalho em casa) e voltando ao tradicional modelo de presença  no escritório central, vejo como é importante aprofundar o debate e reflexão sobre a relação de tecnologia e mobilidade.

Vemos a reviravolta de uma tendência dada como certa de que a superconexão por meio da internet e de computadores pessoais cada vez mais potentes transformaria as relações de trabalho permitindo o trabalho remoto que, entre outros efeitos, reduziria os deslocamentos, i.e., o trânsito e a poluição nos grandes centros. As primeiras previsões neste sentido foram feitas na década de 1970, mas, nos Estados Unidos, por exemplo, atualmente apenas cerca de 2,8% da força de trabalho realizam home office parte do tempo.

Mas, se é fato que os deslocamentos para o trabalho são estressantes, consomem tempo, dinheiro, geram danos para o meio ambiente e para a saúde e tudo mais, como pode ser que na maioria dos grandes centros, mesmo aqueles com graves problemas de mobilidade, as viagens diárias continuem aumentando (o censo norte-americano aponta crescimento de cerca de 20% e aqui no Brasil, 27%  entre 2003 e 2012, segundo Sistema de Informação da Mobilidade Urbana da ANTP) e as empresas voltando a convocar todos ao escritório?

Bem, a resposta está na prática e em pesquisas das ciências sociais que têm provado que a interação pessoal melhora a produtividade e a qualidade do trabalho. Estudos mostram que a relação cara a cara facilita a resolução de problemas complexos e o surgimento de novas ideias.  Nem mesmo as conferências por Skype, dizem os especialistas, conseguem transmitir elementos da comunicação não verbal, como movimentos dos olhos, gestos e reações posturais que são fundamentais para construção de confiança, empatia, compromisso, que são fundamentais nas relações.

O mesmo se aplica na dimensão da vida social.  Temos hoje à mão, por meio do celular e computador, a possibilidade de resolver questões e solicitar bens e serviços a domicílio como nunca antes na história. De consertos para a casa, comida, bebida, serviço técnico, exames de laboratório, banho e tosa, supermercado, professor particular, oficina mecânica, namorado/a, padre, terapeuta, cabeleireiro, tomografia, festa…. tudo é móvel e pode vir até nós.  E, mesmo assim, os dados confirmam que, apesar do trânsito, saímos cada vez mais para interagir, encontrar pessoas, viver novas experiências e desfrutar o patrimônio da cidade. A volta triunfante do Carnaval de rua no Brasil é uma mostra disso.

Digo tudo isso para chamar a atenção sobre a nossa tendência a supervalorizar a tecnologia em detrimento de abordar temas mais concretos e simples.  A fantasia de que a tecnologia é, por si só, a solução de problemas e o desejo por esta panaceia digital são tão grandes que acabamos confundindo tudo. Por um lado, há a visão mágica de superdimensionamento do poder da tecnologia e, por outro, a visão limitada de que tecnologia se reduz a aplicativos para celular. A solução não está nos carros autônomos nem a internet das coisas, e sim na inteligência de aplicação do conhecimento à singularidade do contexto de cada cidade e dos elementos diretamente ligados à mobilidade.


Luiza de Andrada e Silva
é educadora, jornalista e diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) — Instituto Cidade em Movimento

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