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Mobilidade 07.12.2017 — 6:08 am

A crença de que tirar espaço dos carros fará a cidade parar não se sustenta

Hannah Arcuschin Machado é coordenadora de Desenho Urbano e Mobilidade da Iniciativa Bloomberg para a Segurança Global no Trânsito e integrante da atual gestão do IAB-SP.

Hoje, um terço dos deslocamentos na cidade de São Paulo é feito exclusivamente a pé. Este número não considera os pequenos deslocamentos até o ponto de ônibus ou estação de metrô. Se isso for levado em conta, mais de dois terços dos deslocamentos em São Paulo são feitos integral ou parcialmente à pé. No entanto, há um grande potencial para que o número de pessoas caminhando aumente ainda mais.

A partir dos dados da Pesquisa Origem Destino do Metrô (2007), verifica-se que as viagens de carro para trajetos menores do que 2,5 km representam 40% dos deslocamentos deste modo. Esta distância pode ser feita, com conforto, em não mais que 40 minutos a pé ou 15 minutos de bicicleta. A criação de estruturas mais acolhedoras aos pedestres e ciclistas, bem como a promoção de políticas de desincentivo ao uso do automóvel, têm um papel central no alcance dessa migração de modos de deslocamento.

Os pedestres representam 40% dos mortos no trânsito paulistano, padrão que se repete Brasil afora. Para mudar este cenário é preciso adotar um padrão de desenho de ruas que coloque os pedestres em primeiro lugar. É necessário posicionar a faixa de pedestre onde as pessoas desejam atravessar (pois, mesmo sem a faixa, elas irão atravessar ali — é o que se chama de linha de desejo); diminuir o raio de curvatura das esquinas para que a velocidade dos veículos seja menor nas conversões (a velocidade é um dos principais fatores de risco quando se trata de segurança viária); criar espaços no meio das travessias de ruas de dois sentidos (como ilhas de refúgio) – apenas para dar alguns exemplos.

NACTO - Global Designing Cities Initiative

Cada vez mais as pessoas começam a perceber que o padrão de deslocamento baseado nas viagens individuais motorizadas é insustentável. No entanto, o paradigma atual ainda prioriza o veículo individual e o convencimento ainda é necessário: por exemplo, a crença de que tirar espaço dos carros vai fazer a cidade parar não se sustenta na realidade. Em que tipo de rua transitam mais pessoas? Em uma rua com calçadas confortáveis e arborizadas, ciclovia, faixa exclusiva de ônibus e apenas uma faixa de carros? Ou em uma rua com três faixas para veículos e calçadas mais estreitas?

Uma rua pensada para todos os usuários tem mais que o dobro da capacidade de uma rua voltada prioritariamente para os carros. Em suma, não podemos presumir que uma rua destinada exclusiva ou prioritariamente aos carros é a maneira mais eficiente promover os deslocamentos urbanos. É preciso questionar, medir e adotar medidas baseadas em evidência para realizar as mudanças necessárias no desenho urbano, rumo a uma cidade mais segura e inclusiva.

 

Hannah Arcuschin Machado é Coordenadora de Desenho Urbano e Mobilidade da Iniciativa Bloomberg para a Segurança Global no Trânsito. É formada em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP, mestre em Gestão e Políticas Públicas pela FGV e integrante da atual gestão do IAB-SP.


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