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História e Patrimônio 05.12.2017 — 6:07 am

No terreno de Sílvio Santos, “presente” seria um empreendimento de uso misto

Gabriel Rostey é especialista em política urbana

O imbróglio entre o Grupo Sílvio Santos e o diretor do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, é muito ilustrativo de uma série de nossos problemas urbanos.

O primeiro: como é possível que esta situação se arraste por 37 anos? Seja como shopping, torres residenciais, teatro grego ou parque, este caso já deveria estar encerrado há muitos anos. Já imaginaram os custos que o proprietário teve ao longo do tempo com IPTU e contratação de projetos diferentes? Como é o milionário Sílvio Santos, isso vem sendo desconsiderado. Mas e se fosse alguém com finanças mais normais?

Outro é como, mesmo em um caso de tanta notoriedade, nossas leis “engessantes” não permitem soluções individualizadas, que aproveitariam ao máximo todas as potencialidades de um terreno deste tamanho, ao lado de um equipamento de destaque como o Oficina, e com a possibilidade de um considerável investimento privado a fim de que todos pudessem ganhar. Este terreno é uma oportunidade única para melhorar a região.


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O fracasso do diálogo é um destaque negativo. Isso costuma acontecer quando uma das partes negocia só para convencer o outro, como em um jogo de cena, afinal, aceita apenas aquilo que quer. Penso que esse papel cabe ao histórico teatrólogo Zé Celso. O Grupo Sílvio Santos já fez diferentes propostas e adequações ao longo do tempo, desde um shopping — que depois teve seu projeto alterado e previa inclusive um teatro ao ar livre –, até os prédios residenciais — que também já foram readequados para permitir maior área livre ao redor do Oficina. Entretanto, nada muda a postura inflexível do dramaturgo. Ele simplesmente não quer nada ali que não lhe garanta a ampliação externa do Oficina conforme deseja, com a implantação de um teatro grego e espaço para tendas, em um terreno que tem dono e pelo qual não pretende pagar. Em entrevista recente ao Estado, disse, de forma sintomática: “Nós não temos um contrato, mas isso não tem nada a ver – eu sinto que aquela terra é nossa”.

Apesar de estarem condizentes com o (baixo) padrão da cidade, também é de se lamentar que as propostas do Grupo Sílvio Santos para o terreno não ambicionam nada além. Na década passada, o grupo pretendia fazer um shopping e chegou a contratar até mesmo o escritório Brasil Arquitetura — que tem em seu arquiteto Marcelo Ferraz uma espécie de “herdeiro” de Lina Bo Bardi (autora do atual edifício do Teatro Oficina) – para fazer o projeto, mas era fechado, voltado para dentro e sem uso misto. Agora, então, a ideia piorou muito: torres meramente residenciais. Embora seja a praxe na cidade, e é benéfico levar mais moradores para a região, é muito pouco diante do potencial transformador que este terreno tem. É apenas uma solução para o proprietário (que tem todo o direito de fazê-lo e não pode ser responsabilizado por melhorar a cidade, uma exigência que não se cobra das demais obras São Paulo afora), conformada em ser mais uma realização banal na maior metrópole do país.

E é curioso perceber que justamente os que sempre clamam pela “função social da propriedade” são os que não se importam em ver um terreno parado já há quase 40 anos por falta de resolução do poder público. Bem como os que sempre dizem defender “mistura de classes” são os que falam contra as torres residenciais porque levariam moradores com maior poder aquisitivo para a região. Ou seja, em plena área central de São Paulo, há quem entenda que o saudável é ver apenas cortiços, imóveis fechados e degradação dominando a paisagem.

O “interesse da cidade”
Sempre desconfio quando vejo uma das partes se colocando como a portadora do “interesse coletivo”. Sim, Zé Celso é parte diretamente interessada na questão. Para ele, nada pode ser melhor do que garantir os cerca de 11 mil m² de terreno como parque público, e assim obter uma enorme extensão ao ar livre para seus projetos (como deixou escapar na épica reunião com Sílvio Santos e o prefeito Dória, ao dizer “Eu quero botar tenda, pra show, pra circo”). Para isso, lança mão de desinformações como “destombamento do Oficina” (o que é simplesmente falso, visto que o edifício e seu terreno continuam intocáveis); provoca confusão com a área envoltória (instrumento não de veto, mas sim de análise); diz que prédios descaracterizam a área (sendo que o Oficina está literalmente colado a um e há outros no entorno); e sempre apela a uma suposta necessidade de conclusão do que foi simplesmente uma visão de Lina Bo Bardi (é importante esclarecer que o terreno -que já era de Sílvio Santos antes mesmo do tombamento do teatro- jamais fez parte do Oficina, ou  seja, ela planejou algo para terrenos envoltórios sobre os quais sequer tinha direito) — na cidade em que nem a Marquise do Ibirapuera, nem o Museu do Ipiranga, nem o Copan e nem a Pinacoteca foram concluídos de acordo com o projetado –, como se sua vontade merecesse se sobrepor ao que é de direito dos vizinhos.

O tal parque cultural defendido por Zé Celso é muito poético no papel, e tem apelo fácil em uma sociedade criada para pensar que a atividade imobiliária é nociva, mas estaria longe da melhor opção para São Paulo nem que fosse absolutamente sem custos. O interesse do Oficina tampouco é o da cidade.

Um bom empreendimento poderia transformar a área
De acordo com o Michaelis, “Empreendimento” é a “atitude de quem assume uma tarefa” ou uma “realização”. “Empreender” significa “resolver-se a praticar (algo laborioso e difícil); tentar.” Ou seja, é a lutar para realizar algo sonhado ou desejado. Poucas coisas podem ser mais belas e ilustrativas do instinto natural e força de desejo, criação e livre iniciativa humana do que o “empreendimento”.

Faço essa digressão por causa da fala da arquiteta do Teatro Oficina na já mencionada reunião, que disse “’empreendimento’ é uma palavra um pouco dura”. Isso é ilustrativo do quanto se demoniza a figura do empreendedor no Brasil. E como, consequentemente, basta usar algumas “palavrinhas mágicas”, que funcionam como “Super Trunfo” (lembram-se?) para resolver qualquer questão: quem falar em “uso cultural” ou “parque”, voilà, não importa qual seja a situação, parecerá estar do “lado do bem comum”.

Mas, feliz ou infelizmente, o espaço urbano é muito mais complexo do que isso. E está aí a região da Luz/Cracolândia -que tem um belíssimo parque, o Jardim da Luz, além de uma grande concentração de equipamentos culturais dos mais relevantes do País- para não me deixar mentir. Enquanto as apostas foram todas em recuperar a região por meio da cultura, ela se manteve irremediavelmente degradada.

A Rua Augusta não tem museus, tampouco centros culturais de destaque. Nem mesmo calçadas largas ou infraestrutura adequada. Área verde, então, atualmente só nos sonhos com o ainda murado Parque Augusta. Entretanto, nada disso impede que seja um dos locais mais vivos, visitados e que convidam à permanência de paulistanos e turistas de todos os cantos.

Isso acontece porque uma parte fundamental da vida urbana são as opções de passeio, comércio, serviço e lazer. E isso não existe nos arredores do atual Teatro Oficina. Apesar de ser um equipamento cultural importante, o teatro tem pouquíssimas apresentações. Quantas horas por mês passa aberto, recebendo e mantendo pessoas ali na área? Muito menos do que qualquer barzinho, loja ou restaurante atrativo. Aliás, quem vê uma peça ali, pode ir jantar aonde depois?

Aquele pedaço do Bixiga é o que chamo de “bairro dormitório central”. Praticamente não tem empregos ou atividades, é somente uma área que recebe pessoas para dormir, até saírem para trabalhar em outras regiões no dia seguinte, exatamente como em qualquer bairro dormitório periférico por aí.

Quem conhece bem o local sabe como é inóspito em qualquer horário e como as pessoas o evitam à noite. Em frente, há um viaduto com baixos e laterais amplas (estes sim deveriam virar um parque, linear). Entretanto, à exceção de um espaço que recentemente virou quadra de futebol, é tomado apenas por moradores de rua. Não sei o que faz alguém imaginar que um “parque público” no terreno do Sílvio Santos teria destino tão diferente. Tampouco criaria novas opções para diversificar o perfil da região. Mesmo um shopping seria melhor.

Em tempos de tanta polarização, a melhor alternativa seria claramente a mais completa e uma espécie de meio-termo: um empreendimento que se tornasse o centro do bairro, oferecendo uma praça, espaço para o Oficina, e as torres residenciais com bares, restaurantes e lojas no térreo, garantindo acesso público pelas três ruas: Jaceguai, Santo Amaro e Abolição. Uma espécie de Brascan Century Plaza (Rua Joaquim Floriano x Bandeira Paulista, no Itaim) turbinado, um clássico Mixed-Use Development.

Sílvio Santos e Zé Celso são verdadeiros monumentos brasileiros e devem ter suas figuras preservadas independentemente do desfecho deste caso. Mas entre o radicalismo de um artista que pretende resolver tudo pedindo “um presente a São Paulo”, e um empreendedor ansioso por enfim resolver o que nas últimas quatro décadas se tornou um problema, provavelmente perderemos uma grande oportunidade.

Gabriel Rostey é especialista em política urbana

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