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Arquitetura 04.12.2017 — 7:15 am

Compartilhar áreas comuns é alternativa para baixar custo dos condomínios clube

Léo Coutinho é escritor e jornalista, membro do Conselho Participativo Municipal na Prefeitura Regional de Pinheiros

“Todo mundo gosta de acarajé, todo mundo gosta de acarajé, o trabalho que dá pra fazer é que é… Todo mundo gosta de abará, todo mundo gosta de abará, ninguém quer saber o trabalho que dá.”

Ouço Dorival Caymmi e me lembro dos salões de festa. Não que a minha geração celebre tanto assim ao som dele. Na verdade, quase nada. Mas devemos perdoá-los. Não sabem o que estão perdendo.

Penso nos salões de festa e outros equipamentos vendidos como grandes coisas nos chamados condomínios clube, piscina, spa, quadras e que tais, que teoricamente todo mundo gosta, mas na prática quase ninguém usa.

Acredito que o próprio Dorival, que escolheu Minas Gerais para viver, passasse meses sem comer acarajé. O que não significa que ele gostasse menos do quitute. Muito pelo contrário. Porém não é algo do cardápio cotidiano.

Posso entender que a secretaria de Turismo da Bahia destaque as pretas do acarajé em sua propaganda. Fico louco de vontade de ir ao Pelourinho e me deliciar com a simpatia e o tempero delas. Acarajés, abarás, bolinhos de estudante – aqueles cujo nome vulgar só pode ser impresso em português de Portugal. Mas sequer me ocorre a hipótese de comprar e, menos ainda, de manter um tabuleiro de acarajé para quando der vontade.

Daí que não entendo a publicidade das nossas incorporadoras oferecendo condomínios com toda essa tralha de lazer no pacote. Digo, entendo a publicidade, porque vende. Não entendo é quem compra.

Meu bode é amplo. Primeiro, como pedestre, acho desagradável e inseguro caminhar por longos trechos murados. Uma portinha de comércio ou uma fachada é sempre mais gostoso e acolhedor. Depois, se convidado a visitar alguém que mora em condomínio clube, fatalmente me aborreço na portaria, que acha elegante afetar ares de alfandega americana. E para ficar em três pontos, receio a sociedade que teremos nesse cenário. Um advogado criminalista destacado dizia que “pessoas sensatas só cometem crime de morte em dois ambientes: condomínio e clube.” E essa neurose é algo que nenhum muro ou portaria pode conter.

No plano prático, o que sempre funciona é debater o bolso. Em levantamento recente, o Secovi-SP mostrou que, entre fevereiro e março de 2017, a inadimplência nos condomínios da cidade de São Paulo teve alta de 116%. Vale notar que, no todo, houve uma queda. Entre abril de 2016 e março de 2017 foram registradas 5.702 ações judiciais por falta de pagamento de taxa de condomínio, ante 9.026 no ano anterior. Contudo, a diminuição das ações é atribuída ao novo Código de Processo Civil, que tornou mais célere a cobrança judicial – e o risco de perder o imóvel.

Segundo a administradora imobiliária Lello em reportagem do Estadão, o paulistano gasta, em média, R$ 775 reais com taxa condominial. Na zona sul a cota chega a R$1.025. Condomínios clube do infinito e ermo Morumbi? Provavelmente.

Ainda de acordo com o estudo, do total que um condomínio arrecada, 45% é destinado à folha de pagamento. Outros 40% são divididos entre energia, água, manutenção e insumos. 10% vão para seguros e administração e os últimos 5% para fundo de reservas. Aplique à conta os versos do Dorival e conclua: o trabalho que dá pra fazer é que é. Ou quanto custa faxineiro, piscineiro, jardineiro, rega, iluminação, produtos de limpeza.

Uma mensalidade de setecentos reais não é de se jogar fora. Em algo que não se usa, chega a ser intolerável. Logo, convém fugir de qualquer condomínio clube. Na melhor das hipóteses o desperdício é rateado pelos inúmeros vizinhos que habitam a monotonia das torres idênticas. Mas, e se você já está nele, haveria solução?

Notícia boa: sim. A solução passa por uma palavra da moda: compartilhamento. Com o novo Plano Diretor, os edifícios de uso misto, que reúnem comércio, serviço e habitação começam a ganhar a cidade. Na Avenida Rebouças há pelo menos quatro novos empreendimentos assim.

O seu condomínio já está pronto, com o saguão amplo e sofisticado e o salão de festas definido, ainda que sem uso? Uma pequena reforma pode adequá-los para transformar o que é despesa em receita, alugando para uma boutique, livraria, escolinha, cabeleireiro, academia de ginástica, yoga ou pilates, coworking e até um bar, restaurante ou empório. Por que não aulas de natação, tênis, futebol? Basta restringir o acesso às áreas privativas. Além da sua taxa de condomínio, o custo de vida na sua paróquia tende a cair com o aumento da oferta de imóveis comerciais.

Apesar de eu gostar e defender a ideia há anos, quem agora está dizendo não é o MTST nem algum aluno sonhático das FAUs, mas os especialistas do chamado mercado de pós-luxo.

Em matéria da Folha de São Paulo a empresaria Fernanda Ralston Semler, criadora da consultoria Après Luxe (pós-luxo em francês, bien sûr), para o setor imobiliário “o pilar mais importante dessa iniciativa é a inserção na cidade, a ausência de muros”.

O mercado confirma. A mesma reportagem mostra que a incorporadora Huma ergue no Itaim Bibi um empreendimento que terá 56% da área externa acessível a qualquer pessoa. Em Perdizes, o Cotoxó 926, projetado pelo arquiteto Eduardo Almeida e incorporado pela Moby/HSU, teve o mesmo cuidado e previu uma praça que se integra com a cidade. Eduardo Andrade de Carvalho, sócio do empreendimento e um dos editores do Esquina, lembrou de uma vantagem extra: “Além de ser agradável, deixa o espaço mais seguro, porque aumenta a circulação por ali”.

Estou entusiasmado e não hei de negar. Também sei que nada é pra já. Minha escola é a do Dorival Caymmi, que levou nove anos  para concluir João Valentão. De modo que, em não atrasando, creio que aguento esperar o nosso João Valentão acontecer.

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