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Sugestões do editor 03.12.2017 — 6:41 am

Terra incógnita: a construção da cidade industrial na Geórgia do Sul

Tamara Klink é estudante de Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP, coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube

Até hoje é estranha a história desse lugar. Quem o descobriu? Quem ali viveu? De quem foi a ideia estúpida de usar uma cadeia de montanhas pontudas, distante de qualquer coisa e emersa nas mais piores condições climáticas possíveis, para criar grandes cidades industriais?

E por ser tão improvável a ocupação humana na Geórgia do Sul, sua história é breve e simples.

Teria sido encontrada em 1675. Um navio que ia do Chile para Londres foi carregado por tempestades durante vários dias, até se aproximar de uma porção de terra não cartografada. O comandante Antoine de la Roché não desembarcou. Permaneceu ancorado duas semanas e prosseguiu a viagem. Sem.Mais.

Oitenta e um anos depois, mais um navio chega lá por acidente. Os ventos e correntes do Cabo Horn fizeram o Espanhol Léon mudar radicalmente sua rota. Passou perto e partiu, também, sem pisar em terra.

Só em 1775 alguém mais ou menos intencionalmente a encontraria. O inglês James Cook já havia feito a primeira circum-navegação do planeta quando foi enviado pelo Rei George III para aquela que seria a primeira Expedição Antártica. Queria encontrar a Terra Incógnita, uma grande massa de continente que, segundo Aristoteles (e depois Ptolomeu), faria o contrapeso das massas de terra encontradas no hemisfério norte do globo. Um dos dois navios da expedição, o Resolution, consegue chegar à região e a batiza com o nome do patrocinador da viagem. O que Cook não esperava, entretanto, era que o continente que havia encontrado fosse tão pequeno. Costeia a Geórgia, faz desembarques e dá nome a várias baías até chegar ao ponto mais austral e perceber que não estava na Antártica, mas em um fiapo de terra que era o arquipélago. Desconcernado, nomeia o extremo sul da Geórgia de Cape Disappointment. E volta para a Inglaterra com o comunicado do fracasso e a conclusão de que o lugar, hostil como era, não possuía potencial econômico algum.

Logo a costa da Geórgia estaria coalhada de foqueiros. Animados pela ideia de dobrar a temporada de caças que faziam no norte, e com menos concorrência, eles caçaram as focas de pelo até o quase extermínio da população. Mais tarde, caçariam elefantes marinhos. Foi um período de sucesso para os foqueiros. Trabalhavam ali por meses. Mas, na cadeia de montanhas expostas constantemente a tempestades e ventos catabáticos, parecia impossível permanecer. E, muito menos, na Georgia do Sul fazer cidade.

Isso só aconteceria em 1904. A caça às baleias é proibida na costa de Finnmark, e os Noruegueses começam a explorar o hemisfério Sul. O capitão e baleeiro C.A. Larsen vai até a baía de Grytviken e escolhe construir ali as primeiras instalações de uma nova indústria baleeira. Outras cinco indústrias surgiriam nos anos seguintes (Leith Harbour — 1910; Ocean Harbour/atual Fortuna Bay — 1909; Husvik Harbour — 1907; Stromness Harbour — 1907; Prince Olav — 1911). Essas estações passariam por várias ondas de sucesso e fracasso, mas não cabe nesse texto tratar delas a fundo posto que o leitor, na tela do celular ou computador, provavelmente não terá oxigênio para mergulhar num texto de grandes profundidades. (Se eu estiver errada, leitor(a), comente)

Mas, para encurtar a história, pularemos para os últimos capítulos do declínio da caça na Georgia, em que as últimas estações sobreviventes, Grytviken e Leith, param de funcionar. E só. Em 1963 e 1964, os noruegueses desligam as fábricas, fecham as janelas, trancam as portas das casas e vão embora, deixando pra trás as cidades baleeias com a certeza de que as baleias jamais voltariam a ser a gasolina da humanidade.

Na última vez que estive em Grytviken, ainda podíamos entrar nas casas dos baleeiros. Andei com meus pais em um antigo galpão de processamento e tiramos uma foto ao lado de um dos tambores de armazenamento de óleo, que tinha a altura de um prédio de dez andares. As casas, meio sem porta, os tambores de aço carcomidos pelos ventos, pela neve, pelo tempo. E tudo que conseguia pensar era: como alguém conseguiu viver aqui?

É o tema do meu próximo texto.

 

Tamara Klink tem 20 anos. Estuda Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP e começou a escrever depois da nona viagem pra Antártica. É coautora do livro Férias na Antártica e mantém um canal com dicas de veleiros no YouTube.

 

Bibliografia e Referências:

Basberg, Bjorn L. THE SHORE WHALING STATIONS AT SOUTH GEORGIA — A STUDY IN THE ANTARCTIC INDUSTRIAL ARCHAEOLOGY. Novus Forlag. Oslo, 2004.

Burton, Robet. SOUTH GEORGIA. The Commissioner, South Georgia and The South Sandwich Islands, 2a edição, Towcester, 2005.

Strange, Ian J. A FIELD GUIDE TO THE WILDLIFE OF THE FALKAND ISLANDS AND SOUTH GEORGIA. Harper Collings, 1a edição. Londres, 1992.

http://www.gov.gs — site oficial do Governo da Geórgia do Sul e Ilhas Sandwich do Sul mantido pelo Governo Britânico

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