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Mobilidade 28.11.2017 — 6:36 am

Sozinhos, aplicativos não melhoram mobilidade nem o acesso à informação

Diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) / Instituto Cidade em Movimento

A informação é um eixo fundamental da mobilidade. Cidades bem sinalizadas são sempre interpretadas como mais avançadas, inclusivas e modernas. Diante do deslumbre que vivemos com relação aos aplicativos, muitas vezes conferimos a eles a função de resolver todo e qualquer problema de mobilidade.

Mas vamos combinar que não há grande avanço tecnológico nem melhora da mobilidade se pensamos nos aplicativos para chamar carro com motorista (táxi ou outro serviço) ou para dar a lista de linhas de ônibus que passam em determinada rua. Isso sempre existiu. Não há inovação_ pelo menos não para o usuário. No caso dos aplicativos de transporte particular, por exemplo, a operação de chamar pode ser mais rápida, o pagamento está integrado e é mais eficiente, mas é basicamente a mesma dinâmica da época de nossos avós de chamar o taxi de confiança pelo telefone.  Isto não altera nem melhora a estrutura de mobilidade das cidades. Ao contrário, pesquisas mostram que os serviços como Uber, Lift e Cabify estão aumentando os congestionamentos e reduzindo as velocidades de fluxo em várias cidades ao colocar muito mais carros circulando. Mas, mergulhados no fascínio do poder de baixar novas funcionalidades ao celular, poucas vezes paramos para avaliar o quanto o novo aplicativo melhora a experiência de deslocamentos e acesso à informação.

No exemplo das linhas dos ônibus, entendo que no lugar de um aplicativo que liste as linhas ou me diga em quantos minutos o próximo ônibus chegará, seria muito mais eficiente ter a tecnologia de informação mais relevante e completa ali mesmo, no ponto, e sem que eu tenha que acessar meu telefone, sob o risco de roubo, distração e maior gasto de dados e bateria. Falo de um bom, bonito e legível painel que informe não apenas as linhas que passam ali, mas as conexões com outros modos de transporte, os serviços públicos, pontos de interesse, centros de compra, cultura, saúde e educação que estejam próximos a cada ponto. Ou seja, um mapa do entorno que abrigue múltiplas informações não apenas de transporte, mas de conhecimento da cidade, ampliando o poder de decisão das pessoas. A informação anda de mão dada com a autonomia. Além de promover  a mobilidade doce — à pé ou de bicicleta.

Trata-se de uma solução simples, óbvia e universal (com as devidas adaptações para deficientes visuais, deficientes  intelectuais etc.). Tecnologia analógica e real time!  O Instituto Cidade em Movimento (IVM na sigla em francês) mantém uma linha de pesquisa chamada Cidade Legível, que trata justamente desta questão do direito à informação. Ao desenvolver um protocolo, me lembro das observações do designer carioca Joaquim Redig, para quem a cidade é um também um meio de comunicação. O crescimento da malha de transporte deveria ser acompanhado por uma grande malha de informação, diz ele, lembrando que nem sempre fazemos bom uso de avanços tecnológicos. Os percursos de cada linha de ônibus, por exemplo,  são exibidos, ainda em 2017, em  uma pequena chapa , apenas com os nomes das paradas, fixada justamente em cima da cadeira do cobrador, ou seja, bem na catraca aonde as pessoas não podem ficar paradas para não atrapalhar a passagem dos demais! Por outro lado, os painéis com letreiros luminosos  que estão sendo usados por algumas empresas,  são difíceis de ler durante o dia e, na maioria das vezes, são usados para autopromoção da empresa e no lugar de informar o caminho e paradas. Falamos tanto em Big Data e nos esquecemos que, além de grande, os dados e informações devem ser úteis.

Luiza de Andrada e Silva é educadora, jornalista e diretora-executiva do Institute pour la Ville en Mouvement (IVM) — Instituto Cidade em Movimento

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