*

História e Patrimônio 27.11.2017 — 6:41 am

No debate do Teatro Oficina, nenhum dos lados considera o entorno do terreno

Bianca Antunes é jornalista, ex-editora da revista AU, coautora do livro Casacadabra e mestranda do Mundus Urbano pela TU Darmstadt (Alemanha) e Universitat Internacional de Catalunya (Espanha)

Uma reunião entre Silvio Santos e Zé Celso provocou muitos debates (pelo menos virtuais) há algumas semanas. O motivo: o futuro de um terreno no bairro do Bixiga, em São Paulo, que ontem motivou novos protestos. Silvio, proprietário do terreno, quer construir ali três torres de 100 m de altura cada. Mas, no meio do terreno, está o Teatro Oficina, edificação que passou por intervenções realizadas por arquitetos como Lina Bo Bardi, Flávio Império e Rodrigo Lefebvre – e tombada pelo Condephaat. Até hoje, foi esse tombamento que impediu o projeto do apresentador de se tornar realidade. Mas um juiz reverteu essa decisão.

Em meio a muitas discussões, manifestos e comentários, um ponto chamou a atenção: seguimos pensando a cidade como a construção em lotes fechados, e não como a relação dos lotes com o tecido urbano. Duas situações exemplificam essa ideia: 1) uma fala de Silvio Santos durante a reunião; 2) a visão focada na arquitetura, de quem ataca o projeto imobiliário (e defende o Teatro Oficina).

“Esse terreno tem um dono e o dono tem de fazer com ele aquilo que deseja”, diz Silvio Santos a certa altura. A frase me fez lembrar da maneira como percebemos as construções urbanas: centradas em si, desconexas do entorno, cada dono do terreno fazendo com ele aquilo que deseja. Entende-se um lote como um objeto pessoal, não como construção da cidade; como um produto, não como um recurso urbano. A questão se agrava quando o lote em questão tem quase um quarteirão de área.

E aí entra o segundo ponto: a visão meramente focada na arquitetura por parte de quem ataca o projeto imobiliário. As manifestações – incluindo a de organizações ligadas à arquitetura e urbanismo – focam a defesa do Teatro Oficina em si como um bem tombado, o que impediria a construção das três torres ao seu redor. Não se nega a importância do argumento. Mas mais uma vez esquecem-se do que vai além da edificação construída: a cidade.

Por que não levar em conta a posição do terreno na cidade, seu impacto no bairro, sua relação com o entorno? Ao abrir a discussão para o bairro, ao trazer mais vozes a essa questão, a discussão pode ganhar mais argumentos e não ficar centrada apenas a duas figuras. Afinal, os moradores do Bexiga irão sofrer diretamente as consequências de três torres de 100 m, com mais sombra, uma paisagem urbana desfigurada e um potencial processo de gentrificação – além da perda de um possível espaço público, que é o que Zé Celso pleiteia. Por que não descobrir do que esses moradores precisam – uma creche que divida o jardim com o teatro, uma escola, pequenos comércios que estimulem a vida no bairro, moradia social, um espaço público? A resposta correta só deve vir com um sério estudo de dados e a devida participação social.

Um terreno não é fechado em si, faz parte do tecido urbano, e as pessoas que moram ao lado dele podem e devem ter participação na decisão sobre o que se deve construir ali. É sabendo disso, inclusive, que movimentos da sociedade civil têm cada vez mais pressionado para que projetos imobiliários nocivos à cidade sejam revistos. No Brasil temos histórias como a do Parque Augusta em São Paulo ou o Estelita em Recife. Em Barcelona, moradores do bairro de Vallcarca sentam ao lado de empreendedores (donos do terreno) e da prefeitura para discutirem o futuro de terrenos vazios em seu bairro – não sem terem pressionado muito para que isso acontecesse. Exemplos como esses são cada vez mais realidade pelo mundo. Se quisermos cidades mais justas, mais verdes, mais humanas, vai ser preciso pensar além do lote. E ter uma sociedade civil organizada para lutar por elas.

Bianca Antunes é jornalista especializada em arquitetura e planejamento urbano, ex-editora da revista AU (Arquitetura e Urbanismo), coautora do Casacadabra, livro de arquitetura para crianças, e mestranda do Mundus Urbano, máster em desenvolvimento urbano e cooperação internacional pela TU Darmstadt (Darmstadt, Alemanha) e Universitat Internacional de Catalunya (Barcelona, Espanha)

Tags:, , , ,

Bitnami