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História e Patrimônio 25.11.2017 — 7:48 am

A polêmica do viaduto Santa Ifigênia: como preservar e garantir acessibilidade?

Ana Marta Ditolvo é arquiteta e urbanista pela FAAP, mestre em Artes Visuais pela Unicamp e docente pela FAAP. É diretora de Patrimônio da Oscip Museu a Céu Aberto e sócia e coordenadora de projetos na Ambiência Arquitetura e Restauro

Tiago Queiroz/ Estadão

Nesta semana, o prefeito de São Paulo entregou a reforma do viaduto Santa Ifigênia, no centro, com o calçamento inacabado. O descolamento das pastilhas do piso fez com que uma série de buracos se formassem, dificultando a vida dos pedestres e, especialmente, a dos cadeirantes. A moradora do centro Elizabeth Nascimento teve de pedir ajuda para conseguir mover sua cadeira de rodas após ter ficado presa em um dos desníveis. Como conciliar preservação e acessibilidade em uma mesma intervenção?

Um ponto bastante delicado é pensar o que precisa ser preservado no presente para que se tenha a compreensão do passado. As intervenções precisam  estar sintonizadas com a necessidade de permanência das antigas edificações e estas, sempre que possível, devem se adequar às novas condições da sociedade.

É claro que as transformações são necessárias, e as melhorias também. É preciso estar atento à sustentabilidade e à mobilidade urbana sem perder as características históricas do lugar que habitamos. Ao mesmo tempo, é preciso haver um juízo crítico de valor acerca daquilo que é relevante preservar. Assim como também é importante estar ciente das dificuldades: o trabalho de colocação de pastilhas deixou de ser uma prática que indústria domine. Hoje, falta quem saiba executar o serviço com o cuidado que este impõe, cuidado este que por si só já seria capaz de reduzir a quantidade de descolamentos e formação de buracos.

Quando o assunto é o centro histórico de uma cidade, de tradições e composições materiais autênticas, o tratamento precisa ser diferenciado, feito com respeito e com olhar atento aos aspectos de singularidade, como forma de compreensão legítima de sua origem.

Diante da polêmica que envolve a substituição os calçamentos tradicionais de São Paulo na área central, mesma questão levantada em cidades de Portugal, berço desta tradição, é importante entender que esses pisos remetem ao imaginário coletivo dos espaços públicos da cidade do passado e por isso devem ser preservados. Além disso, substituir os calçamentos, permeáveis à água da chuva, por outros materiais impermeáveis é descartar a sustentabilidade e outros aspectos naturais muito importantes.

A cidade precisa ser renovada. Seria muito interessante planejá-la então considerando todos os seus aspectos históricos e de desenvolvimento, sem comprometer o tecido histórico e a fruição da vida, intervindo de forma criteriosa pela manutenção da identidade local.

Preservar os calçamentos históricos é abrir a possibilidade de realizar pequenas adaptações que atendam às demandas de mobilidade. Seria uma oportunidade de resgatar a tradição do fazer manual por meio da formação de mão de obra qualificada. Isso permitira a criação de empregos e a especialização de funcionários capazes de reavivar o conhecimento técnico de gerações anteriores, valorizando não só o calçamento original, mas também seus artífices. E, ainda, prolongaria a vida útil destes revestimentos, algo fundamental do ponto de vista estético, econômico e da acessibilidade.

Por outro lado, descartar o calçamento original é impedir que todos nós desfrutemos da beleza de um período histórico que elevou São Paulo a uma outra categoria de cidade. O conforto do cidadão também passa por ele se sentir parte integrante de um lugar.

Ana Marta Ditolvo é arquiteta e urbanista pela FAAP, mestre em Artes Visuais pela Unicamp e docente pela FAAP. É diretora de Patrimônio da Oscip Museu a Céu Aberto e sócia e coordenadora de projetos na Ambiência Arquitetura e Restauro

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