*

História e Patrimônio 23.11.2017 — 6:55 am

O velódromo da Rua Augusta, primeira sede do Club Athletico Paulistano

Ana Carolina Ferreira Mendes é mestre em arquitetura e urbanismo pelo Mackenzie, sócia do escritório Biselli+Katchborian e professora no Centro Universitário Senac

O estudo histórico de certos territórios parece estar um pouco fora de moda nos dias de hoje, quando sempre se fala sobre qual seria o futuro das cidades. Proponho aqui uma outra possibilidade de construção do futuro, a partir da história dos lugares. Compreender as mudanças dos espaços urbanos pode ser um caminho para construirmos cidades melhores.

Falaremos aqui de uma transformação talvez esquecida em São Paulo: o Velódromo, que existia no final da Rua Augusta, bem próximo ao Centro de São Paulo. Através de uma abordagem diferente – mapas históricos – vamos entender esse lugar na cidade, e então falar um pouco sobre sua história.  Todos os mapas a seguir são recortes de mapas do livro Desenhando São Paulo – mapas e literatura: 1877-1954 (organizado pelas autoras Maria Lúcia Perrone Passos e Teresa Emídio, publicado em 2009), e as marcações em vermelho foram feitas para destacar os aspectos que se referem ao Velódromo, e não fazem parte dos mapas originais.

A exploração através de mapas exige certo esforço de visualização dos espaços (ver a cidade atualmente, e tentar imaginá-la sem muitos de seus prédios, ou sem as ruas que andamos hoje), porém são muito interessantes como fonte primária de pesquisa, ou seja, aquela fonte que ainda não passou por interpretações. A ideia é uma breve arqueologia cartográfica.

 

À esquerda, planta de 1890. À direita, planta de 1895.

Em 1890 vemos a Igreja da Consolação, bem como o Ribeirão Saracura. Entre estes dois pontos no mapa está a atual Praça Roosevelt, que ainda não existia.

Em 1895 notamos a Rua Augusta – pela primeira vez registrada em mapa – tendo por limite a Rua Caio Prado; por uma década este será o limite da Augusta. A Rua Martinho Prado aparece pela primeira vez com este nome, já com um traçado através do qual se identifica de modo um pouco mais claro a forma da futura Praça Roosevelt.

À esquerda, planta de 1901. À direita, planta de 1905.

O Velódromo aparece pela primeira vez em planta em 1901, reaparecendo em 1905.

No ano de 1905 a Rua Augusta aparece estendida até a Rua Martinho Prado, o que pode ser lido como um indicativo da importância que o Velódromo adquiria como atividade de lazer em São Paulo. Também em 1905 observa-se a representação da Rua Frei Caneca, terminando na então denominada Rua L. Augusta – pela leitura de mapas atuais, entendemos que ela hoje é a Rua Marquês de Paranaguá. Nessa região está o atual Shopping Frei Caneca.

À esquerda, planta de 1913. À direita, planta de 1924.

Em 1913 o Velódromo é registrado pela última vez em plantas. Muitos são os novos registros nesse mapa, com destaque para a Rua Augusta que aparece como projeto, cruzando a Rua Martinho Prado e chegando até a Rua Major Quedinho, bem como a definição do formato definitivo da Praça Roosevelt, com a criação da Rua Olinda. É possível notar um terreno que tem sido falado muito ultimamente — o Parque Augusta — onde então começava o funcionamento do Colégio Des Oiseaux.

Na planta de 1913 um aspecto é fundamental: onde se lê Velódromo também está escrito Club Athletico Paulistano. O Velódromo, concebido inicialmente para o ciclismo, na realidade, foi a primeira sede do Paulistano.

A história do clube é contada no livro Club Athletico Paulistano: um clube que cresceu com a cidade, de Dora Dimand, de 1970. Nele consta que o Velódromo é construído em 1857, tendo por função a prática e competições de ciclismo, um hábito importado da Europa. Em 1900, à procura de uma sede para os treinos de futebol, esporte introduzido pelos ingleses que chegavam ao Brasil para trabalhar em companhias instaladas na cidade, o recém-fundado clube passa a alugar o Velódromo. Com isso, em 1901 o Velódromo passa por sua primeira reforma, com a construção de um campo de futebol no centro da pista de ciclismo. Em 1905 o clube entra em uma pequena crise em função da saída de alguns sócios para a Associação Atlética das Palmeiras e nova reforma é feita no Velódromo, no intuito de diversificar os esportes oferecidos. O futebol, no entanto, não perde sua força e o campo do Velódromo recebe seu primeiro jogo internacional em 2 de fevereiro de 1910, o time inglês Corinthians em jogo contra o próprio Paulistano.

Após alguns anos de crescimento, reformas absorviam muito da receita do clube e, associado a isto, o aluguel de 250 mil réis em 1900 passou para 400 mil réis em 1907, trazendo fase de crise no clube. Finalmente, em 1915 o Velódromo foi desapropriado e então demolido para a abertura da Rua Nestor Pestana, o que se observa na planta de 1924. Com a desapropriação, o clube busca outro local para se instalar, encontrando no Jardim América lugar para sua nova sede, onde está até os dias de hoje (na esquina da Rua Estados Unidos com a Augusta).

À esquerda, planta de 1929. À direita, planta de 1930.

Em 1929 O Ribeirão Saracura já não consta dos mapas, e vemos a Rua Avanhandava como ela é nos dias de hoje. A Avenida Anhangabaú indicada no mapa é a atual Avenida Nove de Julho.

O mapa de 1930 é um marco, pois mostra as ruas praticamente como as conhecemos hoje. Ele é conhecido por Mapa Sara Brasil, pois este é o nome da empresa que o executou; é o primeiro levantamento cadastral da cidade, ou seja, o primeiro mapa a mostrar as construções da cidade, e não apenas as ruas.

A transformação é a essência da cidade. Retomando a história do Velódromo – e de tantos outros lugares na cidade que podemos nos lembrar – como temos abordado a questão do que manter e do que demolir, ao promovermos transformações na cidade? Arquitetos e urbanistas, gestores públicos, administradores, incorporadores, cidadãos – todos temos, cada um à seu modo, responsabilidade sobre a mudança nos espaços da cidade. O reconhecimento daquilo que no meio acadêmico chamamos de “historicidade” dos lugares, nos parece fundamental para que novas intervenções sejam feitas de modo coerente com o projeto de cidade que temos em mente. Em outras palavras: quais histórias manteremos vivas, através dos edifícios e espaços das cidades, para nossos filhos e netos testemunharem?

 

Ana Carolina Ferreira Mendes é graduada (2007), pós-graduada (2011) e Mestra (2014) pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É sócia do escritório paulistano Biselli+Katchborian desde 2008, também atuando como professora no Centro Universitário Senac, na disciplina Desenho Urbano.

Tags:, , , , ,

Bitnami