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Meio ambiente 22.11.2017 — 6:34 am

Como foi criado o Piscinão de Ramos, que completa 16 anos

Procópio Gomes de Oliveira Netto é engenheiro civil pela Poli-USP, inventor e especialista em tratamento de água, esgoto e despoluição de corpos hídricos

Fabio Motta/ Estadão

“O dia está maravilhoso, eu vou vestir o meu calção, curtindo esse sol gostoso, eu vou lá pro Piscinão (…)”. Este trecho da música do irreverente sambista Dicró, morto em 2012, fez muito sucesso no Rio de Janeiro, no Brasil e com meu falecido avô, Procópio Gomes de Oliveira, engenheiro, que dava gargalhadas ao ouvir o jocoso álbum Dicró no Piscinão, lançado em 2002 pela gravadora Universal Music e disponível no Spotify, para quem tiver curiosidade de ouvir.
Homenageado em 10 de Junho de 2013, pela Lei nº 5.590, Carlos Roberto de Oliveira – Dicró passou a ser o nome oficial do original Parque Ambiental da Praia de Ramos, que a população carioca sempre chamou carinhosamente de Piscinão de Ramos. Hoje vou contar um pouco da história deste parque que é ambiental, mas principalmente social, e no mês que vem completa 16 anos.
A Praia de Ramos era um ponto de encontro da população dos bairros de Ramos, Penha, Maré e Irajá, sendo muito frequentada até a década de 70. Mas com a crescente deterioração da qualidade das águas de Baía de Guanabara, esse espaço de lazer e cultura foi perdido, restando apenas água poluída, urubus e lixo.
Nos anos 2000, foram realizados os primeiros estudos e levantamentos para a sua recuperação com a ideia inicial de despoluir os canais de Ramos e dos Pescadores, que descarregavam seus dejetos nas duas pontas da praia.
Logo se verificou que a poluição da praia tinha diversas origens, principalmente do Rio Irajá, que desemboca na frente da pista de pouso do Aeroporto do Galeão e também próximo à Praia de Ramos.
Em seguida, analogamente à despoluição do Córrego do Sapateiro, que aflui para o Lago do Ibirapuera em São Paulo, foi combinada a alternativa de despoluir os dois canais com construção de um dique de rochas para cercar o perímetro da praia e isolá-la de Baía de Guanabara. Contudo, em consulta ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) constatou-se que o perímetro da Baía de Guanabara não poderia ser modificado, tendo em vista a instrução de 1988 para tombamento de seu espelho d’água e contorno.
Após o impasse, meu pai, João Carlos Gomes de Oliveira, engenheiro, em sobrevoo da Ponte Aérea Rio de Janeiro / São Paulo, teve a ideia de criar uma lagoa artificial dentro da faixa de areia, abastecida com água salgada e tratada, para garantir a balneabilidade de milhares de pessoas. Até onde sabemos, não havia nada parecido no mundo.
A Praia de Ramos tinha sido aterrada com a dragagem do Porto do Rio de Janeiro muitos anos antes e possuía uma espessa camada de areia. Assim, após estudos de geotecnia e engenharia foi executada a terraplenagem da lagoa, com a escavação da região central e aterro da sua periferia. Em seguida, foi aplicada uma manta elástica e impermeável dotada de proteção mecânica contra rasgos para permitir que a água ficasse contida na lagoa e também não fosse contaminada pelas águas da baía de Guanabara através do lençol freático. Desta forma, construída a lagoa artificial, restava tratar a água, desafio não menos complexo.
O sistema de tratamento para a despoluição das águas da Baía de Guanabara deveria atender a diversos requisitos, como: remover os resíduos sólidos grosseiros; tratar água salgada sem realizar qualquer filtração; atingir níveis de clarificação de água potável em um só canal de tratamento; garantir a balneabilidade, e ter o menor custo de implantação e operação.
Como “um problema sem solução é um problema mal colocado” (Ralph Waldo Emerson), foi necessário estudar muito bem as condições de contorno e o que se esperava da solução, resultando em um novo processo de tratamento, de fluxo contínuo, e ao contrário de uma piscina comum, a água não seria recirculada, nem mesmo decantada, seria flotada, processo físico que através de microbolhas de ar – parecido com o fenômeno que ocorre quando abrimos uma garrafa de água com gás – promove a flotação ou flutuação dos flocos de sujeira na superfície, previamente coagulados com produtos químicos, formando um lodo na superfície da Estação de Tratamento de Água – ETA, onde um equipamento remove o lodo continuamente. A água tratada e desinfetada flui continuamente para a lagoa, que também possui sistema de desinfecção descentralizada em diversos pontos ao longo do seu perímetro, formando um fluxo contínuo de água limpa a serviço da população.
A ETA do Piscinão de Ramos opera sete dias por semana, e como a lagoa, é monitorada pela Rio Águas, órgão gestor dos rios do Município do Rio de Janeiro, em conformidade com a Resolução Coanama 274/2000. Os resultados sistemáticos comprovam a qualidade de água na categoria “excelente”, a melhor das subdivisões próprias para o banho.
A construção, realizada com recursos de compensação ambiental da Petrobras, foi muito rápida. Em menos de um ano, mais de 100 mil pessoas já haviam se banhado por ali. Antes mesmo de cortarem a fita, o Piscinão de Ramos já havia sido nomeado e inaugurado pelo povo carioca, com muito samba e festa. Atualmente é considerado o segundo maior réveillon do Rio de Janeiro.
O sucesso do projeto repercutiu na imprensa, foi capa dos maiores jornais de São Paulo e até tema de novela, em que a atriz repetia o bordão “cada mergulho é um flash”.
Na semana passada, eu estive no Rio e aprendi mais uma, um atleta de kitesurf realizava manobras dentro da lagoa, aproveitando os ventos fortes atípicos de uma frente fria, o que me motivou a escrever este texto e concluir que é possível trabalharmos para reverter problemas ambientais e atender a milhares de pessoas com baixos investimentos sem perder o foco de buscarmos incansavelmente a despoluição de nossos rios e praias.


Procópio Gomes de Oliveira Nett
o é engenheiro civil pela Poli-USP, inventor e especialista em tratamento de água, esgoto e despoluição de corpos hídricos

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