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Planejamento 21.11.2017 — 6:07 am

De prefeito a presidente sem escalas?

É possível pular da prefeitura para a Casa Branca? Quem pretende responder à pergunta é Eric Garcetti, prefeito de Los Angeles, a segunda cidade americana mais populosa, com quase 4 milhões de moradores. Eleito em 2013 e reeleito neste ano, ele anunciou não ter planos de se candidatar ao governo da Califórnia — mas, sim, à presidência dos Estados Unidos.

Prefeitos super poderosos não são exatamente uma novidade. Fazem parte de uma onda política iniciada nos anos 2010 e coroada com publicações como “If Mayors Ruled the World: Dysfunctional Nations, Rising Cities”, de Benjamin Barber (2013). No livro, o autor argumenta que o mundo seria um lugar melhor e as políticas públicas, mais eficientes, se elaboradas por prefeitos de grandes cidades, mais pragmáticos e criativos do que os chefes de estado. Soma-se a isso o desgaste da classe política tradicional no mundo todo.

O script remete ao roteiro paulistano, onde o prefeito João Doria, que vinha sendo bastante cotado para disputar o Palácio do Planalto, segue aparecendo em cenários que o vislumbram em alianças ora dentro e ora fora do PSDB, mas ainda rumo a Brasília. O antecessor de Doria, Fernando Haddad, também é cotado pelo PT para sair candidato à presidência caso Lula não entre na disputa.

Ser catapultado da cadeira de prefeito à de presidente, não é algo trivial na política, mas também não chega a ser uma loucura. A meta é audaciosa, mas pode ser factível dependendo do contexto. A questão é justamente essa, o contexto: a cidade governada será a principal vitrine da campanha, onde se separará o joio de promessas vazias do trigo do que pode ser efetivamente transformado no plano federal.

Em São Paulo, João Doria ainda busca encontrar a marca de seu governo. Em Los Angeles, em seu quinto ano à frente da administração municipal, Garcetti tenta conter o aumento da população de rua, acampada em bairros ricos da cidade, e reduzir a incidência de crimes. Por outro lado, ele tem investido pesadamente no centro, obtendo financiamento para construir moradia para sem-teto e ampliar a malha de transporte público.

“A Casa Branca não é de onde o poder vem neste país”, disse Garcetti ao New York Times. “As cidades e as comunidades locais desta nação estão preparadas para salvar Washington — e não vice-versa”. Faz todo o sentido. As cidades representam a menor distância entre o cidadão/ eleitor e o poder. Para além dos problemas tradicionais, como educação e saúde, é nas cidades que têm ocorrido os principais debates sobre como viveremos nos próximos anos: regularização de novos trabalhos, políticas de mobilidade, cobrança de impostos. Com a democracia em xeque no mundo todo, uma cidade eficiente, participativa, transparente e sensível às transformações dos tempos atuais, pode ser uma grande inspiração para os países e seus governos centrais.

Mariana Barros é jornalista e cofundadora do Esquina

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