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Arte e cultura 16.11.2017 — 7:02 am

Três prosas breves

Rodrigo Naves é crítico, historiador da arte e professor, com doutoramento em estética pelo Departamento de Filosofia da USP
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John Wayne

Quando morreu, aos 72 anos, mandou gravar em sua lápide:
Feo
Fuerte y
Formal

Era um conservador bem-humorado – traço pouco comum em
temperamentos conservadores –, como deixa entrever essa última vontade.

Numa visita à Universidade Harvard, um estudante quis zombar do velho caubói que escondia a calva com uma peruca. Homens fortes não envelhecem. Perguntou-lhe se o topete era feito de cabelo verdadeiro. O
homem ainda era rápido no gatilho. “Cavalheiro, por certo o cabelo é real. Só não é meu. ” O rapaz mal conseguiu levar a mão ao coldre.

O rosto cansado de caubói sem causa parecia guardar um drama. Fora socialista na juventude e macarthista na velhice. Casou-se três vezes com mulheres hispânicas, embora fosse um nacionalista empedernido e defensor do que considerava as guerras justas do império americano. A centena de índios que abateu em seus filmes também confirmam isso.

Dificilmente homens que se creem fortes e formais escapam ao conservadorismo. Por acreditar tanto na força de seu caráter, julgam os semelhantes quase com desprezo. E assim descreem dos esforços de homens fracos e informais, que constituem a maioria de nós. Clint Eastwood, também um velho caubói republicano, fez um filme tocante em homenagem a Nelson Mandela.

Para eles não importa a causa defendida. Homens fortes e formais acreditam ser a morte apenas consequência de uma vida de retidão.

*

Epitáfio

Aqui jaz
Rodrigo Naves
Amou umas poucas mulheres
Teve uns tantos amigos
E duas ilusões
Esperar demais da vida
E ser bem-quisto
Morreu disso.

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Remordimento

Tanto esforço para melhorar
tanta preocupação com os outros
para depois terminar
onde meu pai começou.

 

Rodrigo Naves é crítico, historiador da arte e professor, com doutoramento em estética pelo Departamento de Filosofia da USP. É autor de A Forma Difícil — Ensaios sobre Arte Brasileira (Companhia das Letras, 2011, 3 a . edição), e O Vento e o Moinho — ensaios sobre arte moderna e contemporânea (Companhia das Letras, 2007), entre outros.

Crédito foto: Renato Parada

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