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Meio ambiente 09.11.2017 — 6:46 am

Mercado de plantas ornamentais é fast food do paisagismo: igual no mundo todo

Ricardo Cardim é mestre em Botânica pela USP, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística e idealizador das Florestas de Bolso para o retorno da Mata Atlântica no meio urbano
Derril Roy/ Unsplash

Comece a reparar nos jardins dos lugares que frequenta. Pode ser no seu prédio, na rua do trabalho, clube, no condomínio da praia, do campo. Tente observar além da “macha verde” que estamos acostumados na rotina, foque nas plantas, nas formas das espécies e suas características. Esse breve trabalho vai permitir você entender uma coisa muito interessante: os jardins brasileiros têm sempre as mesmas espécies, dentro de uma variedade que talvez alcance o número de vinte espécies diferentes, alternando de um jardim para o outro apenas a disposição e quantidade delas, independente do clima e local. Entendendo isso, você precisa saber de outro aspecto inusitado: todas essas plantas são de origem estrangeira, sem nenhuma relação com a nossa Terra Brasilis, o território de maior biodiversidade do planeta, com mais de 49.000 espécies diferentes de plantas nativas.

Mas como isso acontece? Poucos sabem, mas existe um mercado mundial de produtores das chamadas “plantas ornamentais” produzidas para paisagismo e que se baseiam nos princípios típicos do mercado da moda, responsáveis por novidades verdes e lançamentos de novos “produtos”, espécies de plantas melhoradas em viveiros para ganhar vendas. Esses centros produtores estão principalmente na Holanda e Estados Unidos e exportam suas plantas para o mundo inteiro, entre eles, o Brasil. São eles que ditam as modas a serem seguidas nas áreas verdes de todo o mundo. É algo como a maior empresa global de fast-food, só que pior, porque é extremamente eficiente, a ponto de dominar homogeneamente quase todas as áreas verdes produzidas pelo homem para fins não-agrícolas. É como se a população de determinado local trocasse seus hábitos alimentares tradicionais por somente e exclusivamente hambúrgueres da tal empresa global e esquecesse completamente sua secular gastronomia.

Tal fenômeno já ocorre há décadas sem despertar nenhum interesse de ambientalistas ou poder público. Em um mundo progressivamente urbanizado – no Brasil chegando a 90% da população – as pessoas estão sendo cada vez mais desconectadas da possibilidade de apreciar e conviver com a natureza local, não entendendo sua importância e beleza, acreditando que vegetação é aquilo que está em seu jardim, sem sequer imaginar que tudo foi determinado por uma empresa viveirista holandesa do outro lado do mundo. Essa lógica é perversa para o megabiodiverso Brasil. Sua insuperável flora e faunas estão sendo silenciosamente substituídas por esses “jardins mundiais” onde quer que esteja o homem.

Ricardo Cardim é mestre em Botânica pela USP, diretor da Cardim Arquitetura Paisagística e idealizador das Florestas de Bolso para o retorno da Mata Atlântica no meio urbano

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