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Sugestões do editor 06.11.2017 — 7:12 am

9 problemas que só as cidades brasileiras têm

Gabriel Rostey é especialista em política urbana

Aviso de antemão que este texto de estreia é levemente mal-humorado, mas vários dos principais problemas urbanísticos de São Paulo — que acabam sendo comuns a praticamente todas as nossas metrópoles — são, antes de tudo, fruto do “pensar urbano” brasileiro. Não é por acaso ou por vilania de alguns que nossas cidades são o desastre que são, mas sim porque são a materialização concreta do nosso equivocado senso comum sobre como se deve regular uma cidade. Ideias erradas, antes de qualquer maniqueísmo.

Ao constatarmos nosso fracasso urbanístico, é comum que a culpa seja jogada nos políticos e “especuladores imobiliários”, mas a verdade é que a maior parte das decisões tiveram raízes no pensamento vigente nas nossas FAUs (Faculdades de Arquitetura e Urbanismo). Outras tantas, ainda que não tenham nascido lá, nunca foram devidamente combatidas por nossa “intelligentsia arquitetônica”.

Especialmente em assuntos econômicos e políticos costuma-se chamar de “jabuticaba” aquele tipo de ideia ou prática que, tal qual a fruta, só acontece no Brasil, mesmo a despeito de qualquer evidência lógica ou da experiência internacional.

Vamos, pois, a um pot-pourri (a ser futuramente aprofundado em artigos específicos) de “jabuticabas urbanas”:

1. Diminuir o potencial construtivo e reclamar que o preço dos imóveis sobe e a população mais pobre vai para a periferia

Cada vez se pode construir menos em um lote. Em São Paulo, por exemplo, antes de 1957 (primeira lei de ocupação do solo no município) os edifícios tinham, em média, entre 8 e 10 vezes a área do terreno. Então, o limite máximo baixou para 6 vezes, depois para 4, e em várias regiões é ainda menor. Dessa maneira, menos apartamentos podem ser erguidos, limita-se o crescimento da oferta para a demanda (o que não colabora para a diminuição dos preços) e a densidade fica menor, obrigando que mais gente vá para as periferias.

2. Viver em uma das sociedades mais violentas do mundo e continuar exigindo recuos em todas as faces

Poucos lugares exigem afastamentos tão grandes entre a edificação e o limite do terreno quanto as cidades brasileiras. Se em qualquer lugar isso já interfere na sensação de urbanidade, aproveitamento de espaço e relação com a calçada, aqui no Brasil, com várias das cidades mais violentas do mundo, a consequência é especialmente danosa: a construção de muros altos que matam a rua. Se os edifícios fossem junto à parede do vizinho e no alinhamento da rua, teríamos uma configuração menos hostil, como a de Copacabana ou de metrópoles estrangeiras.

3. Proibir uso misto

Parece surreal, mas se hoje vemos urbanistas cultuando o uso misto e defendendo a “necessidade de aproximar trabalho e emprego”, é porque algumas décadas atrás essa mesma classe de profissionais brasileiros implementou a separação total de usos. Para exemplificar: em 1972, os urbanistas da COGEP -Coordenadoria Geral de Planejamento- de São Paulo proibiram o uso misto em todos os lotes do município; um imóvel ou seria residencial, ou comercial. Isso já 11 anos depois do lançamento do clássico “Morte e Vida de Grandes Cidades”, de Jane Jacobs.

4. Ser contra a atividade terciária

Como vemos no recente embate Sílvio Santos x Zé Celso, para muita gente é como se qualquer atividade comercial/de serviços fosse essencialmente “suja”. É regra que se veja como ideal usos institucionais, culturais ou áreas verdes em qualquer imóvel, mesmo nos em que nada faria um bem maior à região do que espaços comerciais (como, aliás, é o caso do terreno do Grupo Sílvio Santos).

5. Ter enormes e decadentes bolsões de calçadões e achar que qualquer flexibilização é “carrocentrismo”

Nossa sociedade seguiu o equivocadíssimo modelo de desenhar cidades para carros, e isso precisa definitivamente ser revertido. Daí a, em tempos de shared spaces (ou “ruas completas”) achar que uma “cidade humana” é como o centro de São Paulo, um enorme bolsão de calçadões que proíbe a circulação de carros e — não por coincidência — tem pouca habitação e oferta de serviços em andares superiores, assim concentrando todo tráfego de veículos em pouquíssimas vias (que por isso se degradam), vai uma gigantesca distância. Nada é mais moderno do que a intermodalidade com foco no pedestre.

6. Defender “cidades para pedestres” e nunca exigir semáforos para eles

Já vi todo tipo de “perfumaria urbana” sendo justificada para “devolver a cidade ao pedestre”, como mesas de pingue-pongue que vivem às moscas ou muro para ser escrito com “desejos da comunidade”. Enquanto isso, quase ninguém se apercebe que semáforos para pedestres são um artigo de luxo por aqui.

7. Calçadas serem responsabilidade dos proprietários dos imóveis

Um dos maiores absurdos de nossas cidades. Mesmo pela ótica liberal, a manutenção das calçadas deve ser atribuição do Estado. Em muitos municípios não há sequer padrões definidos de passeios. E mesmo que houvesse fiscalização e a população as mantivesse perfeitamente, essa delegação não tem sentido pelas lógicas econômica e da eficiência

8. Caiar guias, canteiros, postes, árvores (e o que mais aparecer pela frente)

Qual a utilidade de passar cal em elementos urbanos?  É jeca, tosco, inútil e custoso. Não se vê em outros países. É gastar para enfear. Coincidência que nas sofisticadas ruas Oscar Freire e Amauri isso não é assim?

9. Usar tinta para tudo

No exterior as pessoas têm a consciência da aparência dos materiais. O comum é que edifícios sejam revestidos ou tenham tijolo/concreto aparente. Por aqui, parece que tudo precisa de tinta. Até mármore e calçada pintada já tive o desprazer de ver.


Gabriel Rostey 
é especialista em política urbana

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