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Arte e cultura 04.11.2017 — 7:00 am

A origem e a trajetória das Bienais de Arquitetura de São Paulo

Elisabete França é arquiteta e trabalha desde os anos 80 na divulgação da arquitetura como criadora de espaços urbanos inclusivos

A partir do final da década de 1940, as artes plásticas e a arquitetura na cidade de São Paulo passavam por um momento de florescimento, especialmente com a criação do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).

Ali foram organizadas as primeiras exposições de arte e arquitetura moderna, divulgadas pela imprensa e revistas especializadas. Ali surgiu um espaço para os críticos analisarem o que se apresentava como moderno naquele momento.

Foi um período em que a arquitetura esteve muito próxima das artes plásticas, consequência da participação da arquiteta Lina Bo Bardi na fundação do Masp e da visibilidade do arquiteto Oscar Niemeyer, cujo trabalho já era objeto de reconhecimento internacional.

Quando o MAM foi criado, em 1948, tinha entre seus sócios os arquitetos João Batista Vilanova Artigas, Gregori Warchavchik, Luís Saia, Rino Levi, Eduardo Kneese de Mello, Salvador Candia, Roberto Cerqueira Cesar, Carlos Cascaldi e Jacob Ruchti, que depois viriam a participar da organização das Exposições Internacionais de Arquitetura (EIAs).

Desde a primeira edição da Bienal de São Paulo, realizada em 1951, a arquitetura ocupava um espaço da mostra de artes, mas se organizava de forma autônoma nas  EIAs. As primeiras seis edições deste evento, de 1951 a 1961, tiveram um papel importante na divulgação da arquitetura moderna internacional, apresentando aos visitantes as obras dos arquitetos Mies van der Rohe, Walter Gropius e Le Corbusier. Foi o momento em que a arquitetura moderna local se consolidava como uma referência internacional.

Em 1973, o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) organizou a primeira Bienal de Arquitetura de São Paulo independentemente da presença das artes plásticas. O evento ocupou o mesmo espaço do Pavilhão do Ibirapuera destinado às artes, e teve como tema “O ambiente que o homem organiza: suas conquistas e dificuldades”. Surgiu, assim, a exposição independente, com a mesma estrutura utilizada nas EIAs. Havia a exposição geral dos arquitetos, as representações internacionais e nacionais, as mostras de arquitetos convidados, o concurso de estudantes de arquitetura e o fórum de debates.

Aos poucos, as bienais se consolidaram como um espaço privilegiado para a divulgação da arquitetura, o debate e a manifestação crítica. Também se tornaram um espaço de encontro entre arquitetos e seus clientes, fossem eles públicos ou privados. As bienais assumiram a função de esquinas da cidade, locais privilegiados onde, a cada momento, é possível encontrar pessoas e trocar ideias.

O desejo de preservar a memória desses encontros tão ricos me levou a iniciar o livro “Arquitetura em Retrospectiva”, que se encontra em fase de finalização. A publicação resgata a história das Bienais de Arquitetura de São Paulo de 1973 a 2013, bem como a produção acumulada ao longo das quatro décadas. Cada edição foi capaz de revelar o que de melhor estava sendo criado bem como o que seriam tendências para as novas gerações.

O livro aponta os caminhos trilhados pela exposição que, de sua sétima edição em diante, tornou-se o principal o espaço de divulgação da produção brasileira de arquitetura, entrando para o calendário oficial de eventos da cidade de São Paulo.

Cada uma das dez edições é detalhada a partir de seu tema e os curadores selecionados, estrutura das exposições e, ainda mais importante, as premiações dos jurados. Encadeadas, as dez exposições se assemelham a uma viagem no tempo.

Na primeira Bienal, em 1973, com projeto expositivo do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, homenagens foram prestadas aos mestres do modernismo local: Lúcio Costa, Vilanova Artigas, Burle Marx, Joaquim Cardoso e Flavio de Carvalho, à época recém-falecido e objeto de homenagem póstuma. A exposição foi patrocinada pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e contava com 59 projetos que divulgavam a produção pós-revolução. A parceria evidenciou a influência do Bloco Soviético sobre as entidades nacionais que integravam a União Internacional dos Arquitetos (UIA), da qual o Instituto dos Arquitetos do Brasil fazia parte.

Vinte anos depois, em 1993, quando foi realizada a II BIA, os debates internacionais estavam voltados para uma reflexão sobre o movimento pós-moderno, cujo propósito era discutir as grandes narrativas estabelecidas pelo Modernismo. Assim, se assemelhava à 1a Mostra d’Architettura de Venezia, de 1980 e cujo tema era “A Presença do Passado”, apresentando novas formas de ver e projetar a arquitetura.

Dali em diante, a cada nova edição, os curadores buscaram apresentar ao público a produção mais atual possível, com novas gerações muitas vezes ainda vinculadas à tradição dos mestres modernistas, mas em geral em busca de linguagens capazes de traduzir as necessidades dos novos tempos. Produção dos espaços públicos, agenda ambiental, transformação dos espaços de viver nas cidades, integração dos espaços passados conectados ao presente foram alguns dos desafios.

Ao chegar à décima edição, a exposição se integrou às pautas reivindicativas que tomaram conta do país com as manifestações de julho de 2013. A mostra saiu do Parque Ibirapuera e se espalhou pela cidade, criando assim uma rede de espaços articulados pelo sistema de transporte público, capaz de facilitar o acesso dos visitantes. Serviu de plataforma de aglutinação das demandas de movimentos que reivindicavam uma nova forma de gerir as cidades.

Passadas quatro décadas e realizadas dez edições da Bienal de Arquitetura, a retrospectiva busca sistematizar as exposições e apresentar um panorama consolidado de seus resultados, bem como das dificuldades enfrentadas pelos organizadores. O acervo acumulado, disponível em arquivos pouco organizados e pelo catálogo de cada uma das mostras, permite constatar que a Bienal é o grande momento de encontro dos arquitetos e espaço de reflexão sobre suas produções. É onde os arquitetos apresentam para a sociedade suas propostas de melhoria dos espaços urbanos e onde os moradores realizam sua condição de cidadãos.

Elisabete França é arquiteta e trabalha desde os anos 80 na divulgação da arquitetura como criadora de espaços urbanos inclusivos

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